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Concurso de Poesias, Contos e Crônicas de Páscoa
Crônica - 1 ° lugar
"Páscoa"
Ontem à porta do mercado um menino me pediu: “tio me dá um ovo de páscoa!?” Era uma criança de porte franzino, roupa suja e esfarrapada e pés descalços. Tinha no olhar tanta inocência e meiguice que a princípio movido pela comoção titubeei em atender ao pedido, mas, instintivamente maliciei... “Esse menino tem o olhar treinado de um malandro!” esses anos de cidade grande deram-me experiência suficiente para olhar “friamente” situações que nem essa, aparentemente inocente e emocional, mas que pode ocultar verdadeira falcatrua! Nem bem despertei da divagação e, o que acho ser o gerente daquele mercado, interpelou em meu favor expulsando o (“pobre”??) menino! Cordialmente desculpou-se pelo incidente e se colocou a minha disposição! Agradeci e dirigi-me para o meu intento inicial, a seção de doces! coincidentemente em busca dos ovos de páscoa para os meus filhos e parentes, ansiosos pela a data comemorativa que aliás estava bem próxima. Lá chegando e vislumbrando aquele imenso e extenso corredor decorado de ovos dos mais variados tamanhos, preços e cores, por incrível que pareça nada me impressionou! Todo o tempo, a lembrança daquela criança, ou melhor, daquele olhar, me perturbava! Estaria aquela criança pedindo um ovo com sinceridade? Claro que aparentemente ela não demonstrava condições financeiras para comprar um! por menor que fosse! O que custaria para mim comprar um ovo a mais? Nesses anos de trabalho posso afirmar estar bem estabelecido financeiro e socialmente, em nada pesaria um ovo a mais na minha lista! Confesso que inicialmente imaginei comprar o ovo para aquela criança para quem sabe assim “Ele” visse o meu gesto! Seria uma boa ação e oportunidade de demonstrar caridade e... não! não! Pensamento pérfido, não seria de coração e sim de interesse! Pecado ou pilantragem!? Não importa! Naquele momento estava tentando corromper por um ingresso ao céu! Ai, ai, ai, como pesou a consciência! Tentei desvirtuar o pensamento! apagar a imagem daquela criança! E cada vez que olhava aquele mundaréu de ovos de Páscoa lembrava-me dela! O que me fazia sentir cada vez mais vazio! Sem sentido! Não tinha mais a menor disposição ou admiração por qualquer um daqueles ovos! Tudo virara monocromático e insosso, quase salgado! Compelido por um forte sentimento pesaroso e ao mesmo tempo motivador, a tudo virei a costa - parentes, amigos, lista - no intuito de procurar por aquela criança, apressadamente caminhei em direção à saída, mas antes de conseguir o intento, novamente o mesmo gerente rapidamente com as mãos em forma de barreira, postou-se sorridente a minha frente e disse: “Não achou nada que lhe interessasse!? Estamos com ótimos preços de ovos de páscoa! Os melhores preços e com certeza o senhor não vai achar nada melhor da praça!” Mesmo tentando me desvencilhar dele, não é que o dito colocou a sua mão na minha costa, como um político ou melhor amigo o faz e ainda tentando convencer a comprar o ovo de Páscoa!? Foi para mim a gota da água que faltava para transbordar o meu pequeno copo! Esse gerente e porque não, a própria sociedade me impondo “certa obrigação” de comprar um... Ovo de chocolate! A Páscoa tornara-se uma desculpa, ou pior, lamentavelmente... Mero motivo de comércio! Perdera-se no tempo econômico o seu significado, sua simbologia! Relembro dos meus idos de catequese que a Páscoa remanesce desde a época pré-mosaica, onde os pastores nômades comemoravam a primavera! Ou mesmo da festa dos hebreus, em memória da saída do Egito! E a mais recente e marcante: comemorar a ressurreição de Cristo! Enfim, para meu desespero não mais achei aquela criança, e, uma imensa angústia tomou os meus pensamentos. Essa criança ou qualquer outra, salvo aquelas instruídas pelas entidades religiosas, desconhecem o significado da Páscoa, por isso “Pai” aqui estou hoje nesta santa casa, a orar pedindo por forças e ajuda para iluminar com sabedoria os descrentes do significado desta data... Aproveito também para me desculpar por esses anos de ausência, o Senhor sabe como é... Não o fiz por mal! A gente cresce, vai trabalhar e por conta disso aparecem contas para pagar, títulos, hipotecas, etc., e assim os anos passam e o meu débito contigo se acumula! Mas acho que não é tarde para me redimir... né!? Ah! Mais uma coisa Senhor, sabe aquele moleque do mercado!? Aquele mesmo! Achei-o! É ele ao meu lado! Meio que lambuzado de chocolate é verdade! Mas ele disse que só topava vir aqui aprender sobre a Páscoa se ganhasse um ovo!
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