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Capa de Dominando o Raio

Dominando o Raio



Capítulo 13 - Emergência

      Sem saber ao certo o que estava se passando, Luiz correu para a parte superior de Tupã I, em direção à torre de comando. Sua maior preocupação era com Fábio. Com o coração disparado e suando muito, Luiz chegou ao local do acidente.

      Próximo ao acesso da torre de comando havia uma grande quantidade de pessoas que estavam retirando os escombros e obstáculos que impediam a entrada naquela parte da unidade. Este era o primeiro passo para que pudessem chegar ao foco do incêndio que, segundo informações de Antonio, havia começado uns três ou quatro minutos antes. Havia pessoas duas pessoas naquele setor: Hélio e Fábio.

      Luiz não se deixou abater pelo nervosismo e assumiu o controle da operação, determinando que o pessoal do combate ao incêndio ficasse a postos. Assim que os obstáculos fossem retirados, a energia daquele setor deveria ser desligada e o combate ao incêndio imediatamente iniciado. Uma segunda turma deveria ficar preparada para o resgate das vítimas, que deveria ser feito em paralelo com o combate ao incêndio. O pessoal da saúde deveria estar pronto para fazer a sua parte. Uma enfermaria de emergência deveria ser montada no andar de baixo. Luiz determinou ainda que fossem tentadas comunicações de emergência com o hospital mais próximo para que se preparassem para receber vítimas. Dois veículos deveriam estar prontos para levá-las. Todas as medidas que pudessem ser antecipadas deveriam ser providenciadas o mais rápido possível.

      Aproveitando que a vestimenta especial também lhe conferia proteção contra o fogo, Luiz juntou-se à turma de resgate e foi o primeiro a entrar. Sua preocupação com Fábio aumentava a cada segundo que passava.

      Assim que a energia elétrica foi desligada, a turma do combate ao incêndio acionou suas mangueiras de alta pressão, formando uma densa névoa de água que, além de apagar o fogo, protegia a turma de resgate contra eventuais queimaduras.

      Boa parte do mobiliário e dos equipamentos havia sido destruída pelo fogo. Um forte cheiro de queimado e o vapor d'água muito quente, decorrente da água do combate ao incêndio, atrapalhavam o trabalho da equipe de resgate. A fumaça e a fraca iluminação das lanternas portáteis dificultava a localização das vítimas.

      Muito preocupado com Fábio, Luiz dirigiu-se para a poltrona de comando, localizada bem em frente ao console de controle e à grande janela panorâmica que estava totalmente destruída. Após retirar alguns obstáculos, Luiz chegou até o local onde deveria estar Fábio. Ao se aproximar, ele constatou que sobre a poltrona de comando havia uma pessoa muito ferida, com queimaduras em todo o corpo. A pouca iluminação só permitiu verificar que a pessoa ainda respirava.

- Calma, tio! Já vamos tirá-lo daqui. - Luiz falou com a voz trêmula.
- MMMMMMM.... - foi o único som possível de ser emitido, devido às queimaduras que também atingiram boa parte do rosto.
- Fique calmo, tio! Não precisa dizer nada. Nós vamos tirá-lo daqui e levá-lo a um lugar onde vão deixá-lo novo em folha. - disse Luiz para acalmá-lo.

      Muito aflito, Luiz solicitou que mais três pessoas lhe ajudassem na remoção da vítima, que foi retirada do compartimento juntamente com a sua poltrona, para evitar piorar mais ainda o seu estado. Todo o resto da operação de combate ao incêndio parecia muito distante para Luiz. Ele pode perceber que haviam localizado a outra vítima, caída sob uma estante. Naquele instante, passou-lhe pela cabeça que aquela vítima tivera mais sorte que seu pobre tio.

      Fora do local do acidente, uma maca já esperava pela vítima. O médico, ao ver a grande extensão dos ferimentos, disse algo que Luiz já temia:

- Ele possui queimaduras de 2º e de 3º grau por todo o corpo. Não temos as mínimas condições de tratar um paciente nesse estado. Vou lhe ministrar uma medicação para que ele possa ser transportado.
- Tudo bem, doutor! - respondeu Luiz.
- O hospital mais próximo fica a uns 200 km daqui. O paciente precisará ficar sedado para resistir às dores e ser mantido hidratado para compensar a grande perda de líquidos.

      Após a aplicação de um sedativo e da colocação do soro para reidratar o paciente, sua maca foi levada para o veículo. Henrique havia preparado Corisco I e Corisco III para que cada um pudesse transportar uma maca com segurança. Corisco II fora deixado de lado para a realização da perícia que seria necessária à identificação das possíveis causas daquele terrível acidente.

      Assim que a maca foi colocada em Corisco I, Luiz, Carla e um enfermeiro rumaram para o hospital. Luiz sabia que a vida de seu tio estava em suas mãos e precisava usar toda sua perícia para chegar ao hospital no menor tempo possível.

      Ao sair da garagem, uma forte chuva os esperava. O tortuoso caminho de saída da área de Tupã I até chegar a uma estrada asfaltada seria um grande obstáculo a ser vencido. Nem os potentes faróis do veículo permitiram o desenvolvimento de grandes velocidades. Os 40 km de estrada de terra, bastante alagada, consumiram mais de meia hora para serem transpostos.

      O enfermeiro fazia o acompanhamento do paciente. Carla auxiliava o enfermeiro no que era necessário e, também, prestava apoio a Luiz tanto para ajudá-lo a se localizar na estrada como para consolá-lo. Luiz era a personificação do desespero, em meio a lágrimas contidas tentava aumentar a velocidade, levando o veículo a algumas derrapagens, de vez em quando.

      Ao se afastarem da região de queda de raios e da influência do seu forte campo magnético, puderam usar um telefone celular para entrar em contato com o hospital. Lá ninguém ainda havia sido informado da emergência. Corisco I estava a quarenta minutos do hospital e esse tempo seria muito importante para que todos estivessem preparados para receber um queimado em estado grave.

      Ao chegarem no hospital, havia uma equipe pronta para prestar os primeiros socorros. Enquanto Luiz acompanhava a vítima, Carla se prontificou para cumprir os requisitos burocráticos impostos pelo estabelecimento para a internação.

      Após um longo tempo de espera, um dos membros da equipe médica informou a Luiz que o paciente ficaria internado na Unidade de Tratamento Intensivo, nas próximas 24 horas, tempo decisivo para avaliar as suas chances de sobrevivência.
A presença de Carla ao lado de Luiz lhe deu algum conforto naqueles momentos tão difíceis.

      Enquanto o tempo passava lentamente para Luiz, prostrado do lado de fora da UTI do hospital. O pessoal em Tupã I finalmente havia conseguido retirar a outra vítima debaixo da pesada estante que caíra sobre ela. O estado dessa outra vítima, embora sério, era bem menos grave do que do seu parceiro.

      Após um preparo similar, a segunda vítima foi levada para Corisco III. Henrique, Fernanda e um outro enfermeiro levaram o acidentado para o hospital. O médico e mais um enfermeiro ficaram em Tupã I para atender aos demais feridos, cujos estados de saúde permitiam que fossem tratados na enfermaria da unidade.

      A responsabilidade de Henrique era grande pois tinha pouquíssima experiência em dirigí-lo, principalmente em um terreno acidentado sob uma chuva daquelas. Henrique foi informado pelo enfermeiro que o estado do paciente não era tão grave quanto ao da primeira vítima. A estrada estava muito escorregadia e a perícia de Luiz lhe fazia muita falta. Em um dado trecho da estrada, o veículo atolou, obrigando Henrique a sair para desatolá-lo. Fernanda assumiu o controle, mas pouco conseguiu. A operação de retirada do veículo seria trabalhosa, mas Henrique sabia como fazê-lo.

      Enquanto isso, Luiz sentia um aperto no peito todas as vezes que alguém saía da UTI. Muitas vezes lhe passava pela cabeça que seria melhor não receber nenhuma informação a ter que ouvir uma notícia ruim. Esse dilema estava acabando com ele. Carla, sempre ao seu lado, tentava consolá-lo, mas Luiz pouca atenção lhe dava. O grande relógio acima da entrada da UTI marcava cada segundo da angústia de Luiz, que acompanhava o lento movimento de seus ponteiros. As poucas notícias que chegaram apenas informaram que o paciente estava mantendo o seu quadro, que continuava muito grave.

      Após um bom tempo de tentativas e depois de ficar enlameado até a alma, Henrique finalmente conseguiu desatolar Corisco III. Fernanda continuou ao volante e sugeriu que Henrique descansasse um pouco. Com bastante cautela, Fernanda conseguiu chegar até a estrada, quando pode desenvolver uma velocidade mais compatível com a situação.

      Todos os pensamentos de Luiz eram sobre Fábio. Durante aquele longo tempo de espera, diversas situações que envolviam seu tio vieram-lhe à mente: sua tentativa de criar inventos mirabolantes, a grande parceria dos dois e, principalmente, o seu desempenho como pai, papel que lhe fora imposto pelo destino. Entre esses pensamentos, Luiz era acometido de forte arrependimento pelas vezes em que se desentendera com Fábio, ou apenas quando fora mais ríspido com seu tio. Teria ele chance de pedir desculpas a seu tio por esses momentos? O que seria dele se o seu tio morresse? Luiz estava mergulhado em angústias e desespero. O apoio de Carla pouco ajudava. Ela sabia que Luiz precisava ficar sozinho para resolver consigo mesmo aquela situação.

- Vou procurar uma cantina e ver o que eles têm de comida. Você gostaria que lhe trouxesse alguma coisa? - perguntou Carla, sem esperar uma resposta lógica.
- Não! Eu estou sem fome. Veja se o tio Fábio vai querer algo. - foi sua resposta insana.
- Tudo bem! Eu não vou me demorar. - disse Carla, pedindo ao enfermeiro que os acompanhou para ficar de olho em Luiz.

      Fernanda estava acelerando tudo que podia e começava a ficar preocupada:

- Eu tenho certeza de ter ouvido o médico dizer que o hospital mais próximo ficava a uns 200 km. - disse Fernanda.
- Era exatamente essa distância. Mas porquê você está dizendo isso? - falou Henrique, despertando de um cochilo involuntário.
- Porque nós já percorremos quase 300 km e só agora eu estou encontrando alguma indicação sobre o hospital.
- Não é possível! Já deveríamos ter chegado. Estamos a quase três horas dentro desse veículo. - disse o enfermeiro, preocupado com o soro que se esgotava.
- Faltam apenas uns 10 km para chegarmos. - disse Fernanda.
- Eu só espero que estejam nos esperando, pois o celular não está dando nenhum sinal e não temos como nos comunicar com ninguém. - disse Henrique.
- O paciente está bem e poderá aguardar mais algum tempo. Quando chegarmos ao hospital poderemos ver porque demoramos tanto. - disse o enfermeiro.

      Luiz continuava mergulhado em seus pensamentos quando Carla chegou trazendo-lhe um café e um sanduíche. Ele agradeceu dizendo que estava sem fome. A insistência de Carla foi decisiva para fazê-lo se alimentar. Durante todo aquele tempo, o pessoal da equipe médica só havia informado duas vezes que o paciente continuava em estado muito grave, mas o seu quadro era estável. Caso a situação permanecesse por mais algumas horas, seria autorizada uma rápida visita de Luiz, de até 5 minutos. Luiz esperaria um ano se para isso fosse necessário.

      Finalmente, Corisco III chegou ao hospital. Henrique saiu em busca de socorro médico e em poucos minutos, a vítima foi removida de Corisco III. Com o rosto bastante inchado e boa parte do corpo coberta por hematomas e queimaduras, o paciente foi encaminhado à Unidade de Traumatologia, onde receberia os cuidados adequados. Enquanto Fernanda acompanhava de perto o atendimento à vítima, Henrique chegou com a estranha novidade:

- Finalmente eu descobri porque demoramos tanto para chegar até aqui.
- Qual foi o motivo? - perguntou Fernanda.
- Ao chegarmos na estrada, nós viramos para o outro lado e acabamos nos dirigindo para um outro hospital, bem mais distante que o primeiro.
- Mas eu tenho certeza de que virei para a direita quando entrei na estrada.
- Exatamente! Para chegar ao hospital mais perto você deveria ter virado para a esquerda. Mas não se culpe por isso. Somente eu tinha essa informação e, como você deve ter notado, eu acabei cochilando e falhei em lhe avisar na hora certa.
- E agora, o que faremos? - perguntou Fernanda aflita.
- Agora nós não faremos nada! Embora bem menos capacitado, este hospital tem todas as condições necessárias para atender muito bem o nosso paciente. Nós devemos tentar entrar em contato com Luiz para ver como está a outra vítima.
- Isso é verdade! Vou ver se acho algum telefone para tentar informá-lo sobre nós e o nosso paciente. - disse Fernanda, saindo em busca do seu objetivo.

      O tempo passava lentamente enquanto Luiz, com os olhos fixos na porta da UTI, estava alheio a tudo ao seu redor. Carla estava cochilando, sentada ao lado de Luiz, quando o seu telefone tocou.

- Alô! Aqui é Fernanda!
- Aqui é Carla! Onde vocês estão?
- A ligação está muito ruim! Eu mal posso ouví-la. Nós estamos em outro hospital... - a ligação fora interrompida, obrigando Carla a procurar um lugar com melhor recepção.

      Carla foi até Corisco I e, usando os seus conhecimentos, improvisou uma antena para o seu telefone celular. Instantes mais tarde, recebeu nova chamada:

- Alô, Carla! Você está me ouvindo?
- Sim, perfeitamente! Onde você está?
- Nós estamos em um hospital localizado no outro extremo da estrada. É uma Casa de Saúde bem modesta mas que atende às necessidades do nosso paciente. Eu estou ligando do único telefone disponível.
- Como vocês foram parar aí?
- É uma história meio longa. Agora o mais importante é que o nosso paciente está sendo bem cuidado e sua situação não é grave. Os médicos informaram que ele precisará ficar internado por um bom tempo, mas que está totalmente fora de perigo. Como está o paciente de vocês?
- O estado dele não é nada bom! Os médicos necessitarão de umas 24 horas para poder avaliar a real situação do seu caso, que agora é muito grave e implica em sérios riscos de vida. - respondeu Carla.
- Minha nossa!
- Luiz está inconsolado na porta da UTI. Ninguém consegue tirá-lo de lá. Ele jamais se perdoará se houver alguma morte.
- Estou chocada com essa notícia! Vou ter que desligar agora, pois estão precisando usar o telefone. Cuide bem do Luiz. Mais tarde eu tornarei a ligar. - Fernanda desligou bastante chateada com a notícia que acabara de receber.

      Carla retornou para perto de Luiz. Lá chegando, ela o encontrou conversando com um dos médicos que acabara de sair da UTI.

- O caso do paciente se agravou muito nos últimos instantes. - disse o médico.
- Ele corre risco de vida? - perguntou Carla.
- Sim! O paciente perdeu muito líquido e mais de 70% do seu corpo apresenta queimaduras de 2º e 3º Grau. O risco de vida aumentou muito nos últimos minutos.
- Doutor! Seria possível conversarmos em particular? - disse Fernanda, puxando o médico pelo braço, enquanto Luiz olhava perdido para a porta de entrada da UTI.
- Embora saiba que vocês têm regras rígidas que devem ser cumpridas a qualquer custo, gostaria de lhe pedir para consentir a entrada do sobrinho da vítima por alguns instantes. Mesmo que seja por um minuto apenas. - disse Carla, demonstrando uma preocupação sem precedentes com Luiz.
- Eu não sei. Preciso conversar com o chefe do plantão.
- Doutor, a vítima é a única pessoa que aquele pobre homem tem na vida. Se o paciente morrer sem que seu sobrinho fale com ele, ou pelo menos o veja por dez segundos que seja, aquele homem nunca mais vai ser uma pessoa normal. Vocês também têm que zelar pela saúde mental das pessoas. É em nome dessa saúde que eu lhe peço essa concessão. - Carla sabia ser convincente quando queria.
- Como a UTI só tem um paciente, vou lhes autorizar a entrar. Mas será necessário que vocês passem por uma assepsia rígida e coloquem roupas especiais.

      A visão que Carla e Luiz tiveram ao entrar na UTI era desoladora. A retirada das vestes do paciente, juntamente com boa parte da sua pele, revelou um corpo ensangüentado, com vasos e veias à mostra, bastante debilitado, cuja vida se esvaía a cada minuto que passava. Os modernos equipamentos da UTI pouco podiam fazer por aquela pobre alma. Ao perceber a aproximação de Luiz, o corpo em carne viva ainda demonstrou bravos sinais de resistência, levantando o seu braço direito, a única parte que escapara do ataque implacável do fogo. Luiz segurou a mão do moribundo e, em meio a lágrimas e soluços, disse:

- Eu sou o único responsável por você estar assim. Sou eu quem deveria estar em seu lugar. Eu lhe peço que me perdoe por esse grande erro e por tudo que eu lhe fiz de errado durante todo esse tempo.

      O pobre paciente tentou abrir um pouco mais os seus olhos, mas as queimaduras das pálpebras só lhe permitiram um pequeno tremor. Sua mão apertou a de Luiz, como que para lhe dizer que estava tudo bem. Luiz a beijou. Ao tentar levantar a mão para passá-la sobre a cabeça de Luiz, o corpo fez uma breve inspiração e parou de funcionar, deixando sua mão pender ao lado do leito. Todos os aparelhos que o monitoravam entraram em alarme, ao mesmo tempo, emitindo um som agudo característico da falta dos sinais vitais do paciente.

      Um imenso desespero se apoderou de Luiz que tentava inutilmente forçar os médicos a fazerem alguma coisa em prol daquele pobre corpo castigado pelo fogo. Os médicos tentavam, em vão, lhe explicar que não havia mais nada a fazer. Carla sugeriu que dessem um sedativo a Luiz. Sua sugestão foi imediatamente acatada e, enquanto Luiz tentava forçar um médico a fazer algo, um outro aplicou-lhe uma injeção com sedativo. O resultado foi bastante rápido, fazendo-o se acalmar quase que instantaneamente.

      Aproveitando-se da mudança repentina do estado de ânimo de Luiz, Carla pegou em seu braço e o conduziu para fora da UTI. Luiz, totalmente desorientado, falava consigo mesmo palavras incompreensíveis. Abalado pela cena que acabara de presenciar, pelo cansaço acumulado e sob efeito do forte sedativo que lhe fora aplicado, Luiz desmaiou sobre Carla. O enfermeiro ajudou Carla a deitar Luiz e sugeriu que ela também descansasse um pouco. Afinal, nada mais poderia ser feito por aquela pobre alma que acabara de partir.

      Cerca de uma hora depois, o telefone de Carla voltou a tocar. Ela afastou-se da Sala de Espera e foi até Corisco I, onde atendeu o telefone:

- Carla, estou ligando para saber se há alguma novidade. - falou Fernanda.
- Sim, mas não é nada boa! A vítima não resistiu aos ferimentos e faleceu.
- Como está o Luiz?
- Ele está desconsolado. Foi necessário aplicar-lhe um sedativo forte para contê-lo quando o paciente faleceu.
- Avisarei os outros e depois tornarei a ligar. - Fernanda despediu-se.

      Carla voltou para perto de Luiz que ainda estava adormecido. Ao se sentar ao seu lado, ele despertou:

- Precisamos ajudar o tio Fábio que está em perigo! - Luiz falou lentamente, ainda sob a influência do sedativo.
- Sim, mas vamos primeiro ver como poderemos ajudá-lo. - respondeu Carla.
- Então vamos! Ele está em perigo e precisa de nós.
- Você precisa acabar de acordar para poder ajudá-lo adequadamente.
- Mas eu estou acordado! – insistiu Luiz, ainda atordoado.
- Que tal lavar rosto e depois tomar uma xícara de café? - sugeriu Carla.
- Não vai dar tempo!
- Claro que vai. Deixe-me ajudá-lo. - Carla realmente tinha um jeito muito convincente de conseguir o que queria.

      Depois de lavar o rosto e tomar duas xícaras de café bem forte, acompanhadas de alguns bolinhos, Luiz já estava raciocinando melhor:

- Eu jamais me perdoarei por ter tido essa maldita idéia! - Luiz desabafou.
- Essa não é a pessoa que me contratou para um trabalho altamente arriscado, cujo objetivo poderia definir o destino da humanidade. - respondeu Carla.
- De que vale um ideal se a vida deixa de ter sentido? - filosofou Luiz.
- Luiz, quando entramos para esse maravilhoso projeto sabíamos do grande risco que corríamos. O seu nobre ideal sempre foi o nosso maior estímulo para nos engajarmos nessa experiência. Todos nós, inclusive o seu tio, sabíamos muito bem sobre o tipo de trabalho que estávamos fazendo.
- Mas a gente nunca considerou que isso poderia chegar a esse ponto.
- Não se torture por este fato. Quando o projeto começou, fomos alertados pelo seu tio que estaríamos lidando com forças muito superiores àquelas com as quais estávamos acostumados. Ele nos obrigou a assinar um termo de responsabilidade para que isso ficasse bem claro para todos nós.
- Eu não sei! Tudo está muito confuso para mim. Minha vontade é de ficar num canto e deixar o mundo se acabar.
- Luiz, esse sentimento é comum a todos aqueles que passam por uma experiência destas. Eu sei muito bem do que estou falando, pois perdi meus pais em um assalto quando tinha sete anos de idade e fui criada pela minha avó, que faleceu em meus braços justamente no dia do meu aniversário de dezesseis anos. Precisei de muito tempo para me aprumar de novo!
- Puxa, você nunca havia me contado isso! - respondeu Luiz muito abatido.
- Cada um tem o seu quinhão de sofrimento. Não deixe que o seu lhe derrube!
- A falta que ele me fará será enorme. Não sei se eu agüentarei.
- Você é uma pessoa forte. Faça uma homenagem ao seu tio e, em sua memória, não interrompa o trabalho que vocês dois iniciaram.
- Carla, estou vendo que ao selecioná-la nós escolhemos uma pessoa muito especial. Muito obrigado por essas palavras. Você me deixou envergonhado diante da sua grande força de espírito.
- Todos nós passamos por mal bocados. Eu também pude contar com alguém que me deu muita força quando eu estava abatida. Vamos ver o que poderemos fazer agora. Há uma série de providências que precisaremos tomar!
- É verdade! Mas eu não tenho a mínima idéia por onde começar.
- Vamos nos informar sobre os procedimentos para a retirada do corpo. Depois deveremos providenciar o funeral. Você também precisará contatar a empresa para comunicar a ocorrência e pedir instruções. Será necessário entrar em contato com o pessoal em Tupã I e com as pessoas que estão com a outra vítima.
- Vamos com calma. Ainda precisarei de algum tempo para administrar a situação e assimilar minhas obrigações. Por falar na outra vítima, onde ela está?
- Eles tiveram um problema e foram para outro hospital. Mas deverão ligar a qualquer momento.

      Enquanto tomavam as providências necessárias, o telefone de Carla tocou:

- Carla, nós estamos deixando o hospital agora e deveremos chegar aí em umas quatro horas.
- Ótimo! Estou precisando de vocês para ajudar o Luiz.
- Espere por nós e faça o que puder para não deixá-lo ficar abatido.
- Estou fazendo o que eu posso. Venham o mais rápido que puderem.

      Quatro horas e alguns minutos depois, Henrique, Fernanda e o outro enfermeiro chegaram ao hospital. Ao se encontrarem com Luiz, cada um dos três lhe deu um forte abraço, apresentando a sua solidariedade em um momento tão difícil. Ao abraçar Fernanda, Luiz desabou:

- Eu não sei o que fazer! Foi uma perda muito grande que me deixou totalmente desorientado. - disse Luiz, entre lágrimas.
- Todos nós vamos sentir muito a sua falta. Ele era uma pessoa muito especial para todos nós. – falou Fernanda.
- Carla me deu muito apoio, mas eu ainda estou completamente desorientado. Preciso discutir com alguém sobre o que está se passando em minha cabeça.
- Você sabe que tem um ombro amigo para desabafar. Fique à vontade!

      Depois de quase uma hora de lamentações, pacientemente ouvidas por Fernanda, Luiz declarou-se, mais uma vez, estar desorientado pela grande perda.

- Se dependesse somente de Fábio, o projeto seria tocado adiante. - declarou Fernanda.
- Isso é verdade. A sua forte determinação nunca lhe deixaria se abater por um acidente. Por pior que fosse o estrago, ele diria que eram ossos do ofício. - disse Luiz, entre lágrimas.
- Vejo que você e Fábio sempre se entenderam tão bem, a ponto de saberem exatamente o que o outro estava pensando.
- Isso é verdade! Depois de uma convivência de mais de vinte anos, nós desenvolvemos uma espécie de telepatia que nos permitia praticamente adivinhar o que o outro estava pensando. - disse Luiz, esboçando um pálido sorriso.
- Mesmo sem a participação direta de Fábio, é extremamente importante que nós toquemos o projeto adiante. Assim nós estaremos concluindo algo que vocês dois planejaram por muito tempo e que assumiram o compromisso de realizá-lo.
- Você tem toda razão! Eu só continuo sem saber por onde começar. Tio Fábio fará muita falta quando precisarmos tomar as decisões.
- Onde está a tal telepatia que você acabou de mencionar?
- Não brinque com isso! Eu espero que você respeite a minha dor! - disse Luiz bastante sério.
- Eu só acho que quando ocorrer alguma situação que nós não consigamos resolver, poderemos nos comunicar com Fábio. O fato dele estar em um hospital a uns 300 km de Tupã I, não nos impedirá de procurá-lo quando precisarmos.
- Eu não entendi o que você acabou de falar. - disse Luiz confuso com as palavras de Fernanda.
- Eu disse que, mesmo internado em um hospital a uns 300 km de Tupã I, Fábio poderá ser consultado sempre que precisarmos. Ele me pediu para lhe avisar que mesmo fora do projeto, em função da sua convalescência, ele faz questão de se manter informado de tudo o que acontecer e que estará sempre à nossa disposição.
- O que você está me dizendo? Como você poderia ter falado com o tio Fábio, se eu presenciei sua morte há poucas horas atrás. - declarou Luiz, agora mais confuso ainda.
- Acho que você se enganou. O seu paciente era Hélio e não seu tio. Conforme Fábio me disse no hospital, ele havia trocado momentaneamente de lugar com Hélio, enquanto verificava um equipamento que havia dado sinal de mau funcionamento. Quando ele se abaixou para verificar o que estava acontecendo, o raio transmitido por Corisco II, explodiu na torre de comando, atingindo Hélio em cheio. Fábio só se lembra que a estante de livros caiu sobre ele, deixando-o desacordado.
- Minha nossa! Por essa eu não esperava! - exclamou Luiz, acometido pela súbita surpresa  - Eu jamais poderia crer que um engano destes pudesse acontecer comigo. Contudo, este não é o momento para alegrias, pois um dos nossos membros acaba de perder a vida pelo projeto. - falou Luiz, com as suas feições já totalmente modificadas.
- Vamos dar a Hélio um funeral à sua altura. Também deveremos providenciar o seguro de vida para os seus dependentes. Deixe isso comigo! - disse Fernanda.
- Está bem! Mas agora há algo que preciso fazer o mais rápido possível. Como eu faço para ir até o hospital onde está o tio Fábio? - perguntou Luiz, já com as chaves de Corisco I em uma das mãos, ansioso para rever o seu tio.






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