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Capa de Dominando o Raio

Dominando o Raio



Capítulo 16 - Nova experiência

      A perícia realizada em Corisco II confirmou que o programa de direcionamento havia sofrido alterações que causavam o desvio de alguns décimos de grau no ângulo de retransmissão do raio. Essas alterações comprovavam a intenção dos sabotadores de atingir as instalações prediais de Tupã I.

      A reconstrução de Tupã I foi concluída em menos de treze dias. No dia da nova inauguração, o Diretor-Presidente ressaltou as qualidades de Antonio pelo feito conseguido. Foi um discurso tão emocionado que o levou às lágrimas.

- Não é nada do que você está pensando! - disse Antonio para Luiz que o fitava.
- Ora Antonio, fique à vontade! Você merece todo esse discurso. Se não fosse você, não teríamos conseguido cumprir aquele prazo tão apertado. - disse Luiz.
- Mas eu não estou chorando por causa do discurso.
- Qual é a razão, então?
- É alegria por continuar no projeto. Você não imagina o quanto eu fiquei aflito só em pensar na possibilidade de me ver fora daqui.
- Aproveite esse momento que ele é todo seu! Mas lembre-se que amanhã cedo voltaremos à velha rotina e que você agora tem novas obrigações. - disse Luiz, lembrando a Antonio que ele seria o substituto de Fábio.

      Luiz atendeu ao chamado do Diretor-Presidente, que queria saber dele quais eram as suas expectativas em relação ao retorno aos experimentos.

- Creio que poderemos voltar aos experimentos dentro de uma semana. Será necessário fazer uma série de testes com os equipamentos e treinar toda a equipe, afinal todos nós ficamos parados por quase três semanas.
- Isso é verdade! É melhor gastarmos algum tempo para nos certificarmos de que tudo está em ordem antes do reinício da experiência. Mas também é necessário saber por quanto tempo durará essa temporada de raios. Os acionistas principais estão me cobrando resultados. - disse o executivo.
- A Dra. Fernanda me disse que deveremos ter mais uns 10 a 15 dias de tempestades fortes. Depois desse prazo as tempestades serão ocasionais e, dificilmente, conseguiremos fazer os experimentos com resultados satisfatórios. Após a realização dos testes e do treinamento da equipe, teremos aproximadamente uma semana para provarmos que essa idéia é economicamente viável. É tempo suficiente para o nosso intento, embora seja um prazo bastante apertado.
- Luiz, faça tudo o que for possível para comprovar a viabilidade da idéia, durante essa semana de experimentos. Conto com você! - disse o Diretor-Presidente, despedindo-se de Luiz e dos demais presentes.

      Naquela noite, Luiz perdeu boa parte do seu sono pensando em como cumprir a determinação do Diretor-Presidente. Teoricamente, tudo era favorável à obtenção dos resultados almejados: o projeto estava livre de interferências; a antena receptora do satélite meteorológico fora posicionada corretamente e os dados recebidos permitiam uma maior precisão no trabalho de Fernanda; os veículos foram revisados e suas antenas já estavam alinhadas; o efetivo da equipe estava completo e boa parte do pessoal já tinha experiência. Contudo, só a prática poderia confirmar a teoria. Essa fora a razão da insônia de Luiz.

      Fábio teve alta mas, devido a uma lesão em seu joelho direito, estava com sua perna engessada e deveria continuar em repouso. Fábio resolveu ficar hospedado em um hotel na cidade durante o período dos experimentos. Caso fosse necessário ouvir a sua opinião, bastaria procurá-lo no hotel.

      Os treinamentos recomeçaram bem cedo na manhã seguinte. Os veículos foram mantidos na garagem e o seu emprego foi simulado através de um programa de teste. Cada uma das funções do sistema foi exaustivamente testada até se comprovar que tudo estava em ordem. Os resultados eram analisados por Luiz e mais alguns membros da equipe. Toda aquela semana fora utilizada para este fim.

      Na noite do Sábado, Luiz promoveu uma pequena festa para comemorar a prontificação de Tupã I. Essa fora a desculpa que ele dera a todos para reuní-los para falar de trabalho. Ao final da comemoração, Luiz fez o seu discurso:

- Companheiros de trabalho, estamos aqui reunidos para comemorarmos uma pequena vitória: a nossa preparação para a realização de uma nova série de experimentos.
- Digo "uma pequena vitória", porque eu espero estar comemorando junto com todos vocês, no próximo final de semana, a nossa "grande vitória": o sucesso na coleta e armazenamento da energia de um raio. - Luiz continuou com seu discurso.
- Para isso, será necessário que cada um de nós dê o máximo de si para atingirmos esse tão almejado objetivo.
- Temos uma grande responsabilidade e também um grande problema em nossas mãos. A responsabilidade é o compromisso de obtermos um resultado positivo quanto à coleta e armazenamento da energia dos raios, que abrirá novas perspectivas para toda a humanidade. O problema é conseguir esse resultado positivo em um curto espaço de tempo. A temporada de raios terminará dentro de uns dez dias. Depois desse período, ficaremos impedidos de continuar com a nossa experiência, pois as tempestades ficarão esparsas e não obteremos os níveis de energia adequados. Além disso, o Diretor-Presidente da empresa me antecipou que não terá condições de patrocinar esse projeto por mais uma temporada de raios.
- Mas Luiz, isso quer dizer que o nosso trabalho já tem dia para terminar? - perguntou Henrique.
- De certa forma, sim! Uma vez acabada essa temporada de raios, deveremos ter um pequeno período de tempo para concluirmos nosso trabalho. Caso tenhamos um resultado positivo, conseguiremos fundos para transformar essa Unidade na primeira Usina de Energia de Raios. Caso o resultado obtido não seja positivo, deveremos ter um prazo para sairmos daqui.
- Mas, mas,... - gaguejou Henrique.
- De qualquer modo, - interrompeu Luiz - será providenciada uma indenização pela participação no projeto. Mesmo que não consigamos atingir o nosso objetivo, todos serão bem recompensados pelo empenho durante todo esse tempo de trabalho.

      Luiz observou um desânimo generalizado em todos os presentes. Ao observar que ele conseguira tocar a todos, resolveu concluir o seu discurso:

- Amigos, isso que acabei de lhes falar é apenas uma hipótese remota que, tenho a mais absoluta certeza, não será o nosso caso! Quero reafirmar a minha confiança em todos vocês e a certeza de que, no final da próxima semana, estaremos celebrando a nossa grande conquista. Nós queremos esse resultado positivo e vamos conseguí-lo! Eu ... - Luiz foi interrompido pelos aplausos de todos, comprovando que ele havia alcançado o seu objetivo.

- Muito obrigado! Esses aplausos são para todos nós! Peço que aproveitem bem o dia de amanhã para descansar e pensar no que eu acabei de lhes falar. A semana será dura, mas deverá nos render bons frutos. - Luiz encerrou seu discurso.

      Quando os presentes começaram a se retirar do refeitório, Luiz pediu a Antonio e a alguns membros da equipe que ficassem para conversar sobre a Segunda-feira. Ele iniciou a reunião com uma pergunta:

- E então, Magno? Você já se ambientou com todos aqui? - Luiz dirigiu-se ao novo contratado que viera para ocupar o cargo de Hélio.
- Sim, senhor! Tanto eu como os demais novos contratados estamos totalmente integrados no projeto e já fizemos uma bela amizade com essa grande família. - respondeu o jovem, referindo-se ao pessoal que chegara junto com ele: Alberto, um outro físico que lhe ajudaria na avaliação dos resultados do experimento e Roberto, o engenheiro civil que deveria ocupar a antiga função de Antonio.
- Fico contente em saber disso! A próxima semana será realmente muito atribulada e, para que tudo dê certo, precisaremos estar muito bem preparados pois teremos somente mais uma semana de tempestades fortes. - disse Luiz.
- Preciso esclarecer algumas coisinhas. - interrompeu Fernanda.
- Pois então fale, Fernanda! - respondeu Luiz.
- Segundo as informações do satélite meteorológico que recebi há poucas horas, teremos duas séries de tempestades. Estas serão as duas últimas grandes tempestades da temporada. A primeira deverá começar na noite de Domingo e se intensificar durante a madrugada da Segunda-feira. Essa primeira série deverá durar até a tarde da Segunda-feira. Depois disso deveremos ter um período de calmaria que se estenderá até a Quinta-feira. A partir da tarde da Quinta-feira deveremos ter uma grande tempestade, com nuvens bastante carregadas acompanhadas de muita chuva e muito vento. Essa última tempestade deverá durar umas 28 horas. Este será o fechamento da temporada de raios.
- Mas isso é bem diferente do que eu estava pensando. - disse Luiz.
- Essas informações só foram obtidas há duas horas atrás. Antes disso, o cenário que eu tinha era muito diferente. - respondeu Fernanda.
- Então teremos que alterar os nossos planos! - disse Luiz - Precisamos iniciar nossos experimentos no Domingo à noite.
- É um esforço necessário, pois será a penúltima oportunidade que teremos. - disse Antonio - Mas acho importante ouvirmos a opinião de Henrique, quanto ao emprego dos veículos à noite.
- Podemos operar com os veículos a qualquer hora do dia ou da noite. Contudo, acho um tanto quanto perigoso contarmos apenas com a iluminação dos faróis do veículo para a realização da coleta dos raios à noite. - respondeu Henrique.
- Como eu próprio estarei correndo esse risco, acho melhor assumí-lo. Contudo, todos terão que sacrificar o Domingo. Mas será por uma boa causa, conforme falou Antonio. - disse Luiz - Gostaria de saber a opinião de vocês quanto aos outros aspectos dos experimentos.
- Será difícil fazer o acompanhamento visual do veículo, mas quanto ao resto da coordenação do experimento, não vejo problemas! - respondeu Antonio.
- Não há nenhum problema em trabalhar à noite aqui dentro da Unidade. Tupã I é muito bem iluminada e, além de tudo, estamos acostumados a ter que fazer um serão de vez em quando. Contudo, gostaria de expressar a minha preocupação com os riscos que você estará correndo. - respondeu Henrique, apoiado pelos demais.
- Fiquem tranqüilos, pois eu prometo que tomarei muito cuidado. - disse Luiz encerrando a reunião e sugerindo que todos fossem dormir.

      Na manhã seguinte, durante o café, Luiz comunicou a todos os demais membros da equipe a necessidade de antecipar o início dos experimentos, em função das condições meteorológicas. Por volta das 18 horas, todos deveriam assumir seus postos. Seria uma experiência nova, ter que pilotar os veículos à noite, em um campo aberto, sem nenhuma sinalização.

      Perto do horário combinado, todos estavam prontos para iniciar suas atividades. Luiz já estava a bordo de Corisco I e, às 17h50min, saiu em direção ao ponto de espera. Mesmo com o céu totalmente encoberto, ainda era possível enxergar boa parte da área de coleta sem o uso dos faróis. Como o pôr-do-Sol seria às 18h55min, ele teria algum tempo para passear pela área de coleta e verificar o estado do terreno depois de três semanas de chuvas intensas.

      Após percorrer boa parte do terreno, Luiz constatou que havia muitos buracos. Ele fez um esforço mental para memorizar a posição de alguns que ele considerou como os mais perigosos. Pelo menos os buracos mais próximos do ponto de espera deveriam estar bem gravados na memória de Luiz. Após mais de uma hora de percurso, a visualização do terreno só era possível com o emprego de todos os faróis de Corisco I. Ele retornou ao ponto de espera e tentou fazer um mapa mental do terreno, registrando tudo o que ele vira durante a sua inspeção. Alguns dos buracos só poderiam ser transpostos a velocidades muito baixas.

      Enquanto Luiz fazia o seu exercício de memorização, a voz de Fernanda interrompeu seu raciocínio:

- ATENÇÃO! ISTO É REAL! TEMPESTADE NÍVEL 7 SOBRE A ÁREA DE COLETA!

      Luiz continuou a memorização, enquanto aguardava o aviso de Fernanda. Depois de quase meia hora de espera, entrou em contato com Antonio para saber como estavam as coisas na torre de comando.

- Antonio, está tudo bem por aí?
- As indicações no console informam que tudo está funcionando bem. Mas a localização de Corisco I por meio visual está bastante prejudicada. Se você se afastar muito do ponto de espera na direção Norte, eu não conseguirei vê-lo.
- É bom saber disso! Mas não se preocupe, pois eu manterei contato pelo sistema de comunicação...
- RAIO A 3 km EM 015! - A voz de Fernanda interrompeu a conversa.
- A caminho! - foi a resposta imediata de Luiz.

      Luiz partiu para a posição informada, mas a grande quantidade de buracos prejudicou seu deslocamento e, antes que ele chegasse ao seu objetivo, o raio caiu em um local muito próximo de onde ele estava. O barulho foi muito alto, mas nada comparado ao que ele já havia escutado.

- RAIO A 2,5 km EM 185! - Fernanda informou a posição de mais um raio.

      Luiz, ainda muito cauteloso, não conseguiu chegar em tempo no local indicado e o raio lhe escapou. Depois de perder mais alguns raios, Luiz jurou para si mesmo que o próximo não lhe escaparia. Enquanto divagava sobre como chegar a tempo, a voz de Fernanda forneceu nova posição:

- RAIO A 1,5 km EM 145!

      Luiz disparou na direção indicada, acelerando o veículo ao máximo. Quando faltavam uns 300 metros para chegar ao local, Luiz passou por dentro de um grande buraco. O veículo foi arremessado para cima, dando um vôo espetacular e caindo de lado no lamaçal. O motor de Corisco I continuou funcionando e as rodas giravam no ar. Depois de algum tempo, o motor parou. Luiz ficara preso pelo cinto de segurança e não conseguia sair do veículo. Depois de algumas tentativas em vão, Luiz alcançou o botão do sistema de comunicação e pediu ajuda.

- Antonio, responda! Preciso da ajuda de vocês.
- Está tudo bem com você? Parece que o veículo está tombado.
- É exatamente o que aconteceu! Tive um pequeno acidente, Corisco I capotou e eu estou preso pelo cinto de segurança, sem conseguir mover o meu braço direito. Acho que eu o quebrei.
- Aguarde que já estamos indo para aí! - foi a resposta imediata.

      Antonio disparou para a garagem, tendo pedido que o médico e mais um enfermeiro lhe ajudassem no resgate de Luiz. Antes de sair, ele pediu que Henrique assumisse seu posto na torre de comando e lhe ajudasse a localizar Corisco I. Estava muito escuro lá fora e a chuva não dava tréguas.

      Antonio, o médico e o enfermeiro saíram com Corisco II em busca de Luiz. Depois de alguns minutos debaixo da forte chuva, pediram orientação a Henrique. A visibilidade era praticamente zero e a velocidade desenvolvida pelo veículo tinha que ser muito baixa. Henrique, de sua posição privilegiada, dava as orientações necessárias para guiá-los. Depois de mais cinco longos minutos, finalmente eles conseguiram encontrar Corisco I. Ao pararem ao lado do veículo de Luiz, Antonio saltou de Corisco II, escalou o veículo tombado, abriu a porta direita e deparou-se com Luiz.

- Que confusão você arranjou, hein? - perguntou Antonio, muito nervoso.
- Pois é! Eu estava quase chegando ao local, quando passei por uma grande depressão que fez com que o veículo fosse lançado para o alto.
- Tente não se mexer para não complicar seu estado de saúde.
- O meu problema é só o cinto que está me prendendo e, talvez o meu braço. O resto está tudo em ordem! - respondeu Luiz.
- Mantenha-se o mais imóvel possível para que possamos removê-lo da forma correta. Nós vamos colocá-lo em uma maca e também imobilizaremos o seu pescoço, até que tenhamos certeza que tudo está realmente bem. - disse o médico.

      Depois de uma operação bastante trabalhosa, realizada sob a forte chuva que caía, os três conseguiram colocar a maca com Luiz, na parte de trás de Corisco II. Enquanto o veículo se dirigia para Tupã I, Antonio solicitou, através do sistema de comunicações, que deixassem a enfermaria preparada para receber Luiz. Pediu também que retirassem Corisco I do local do acidente.

      Luiz passou por uma bateria de exames. A enfermaria da Unidade era bem equipada e o aparelho portátil de Raios X fora mais do que suficiente para comprovar que o braço direito de Luiz precisava apenas ser enfaixado. Para o alívio de todos, nada mais sério fora detectado. Por precaução, o médico recomendou que Luiz passasse algumas horas em observação na enfermaria. Tratava-se apenas de um procedimento médico rotineiro.

- Que droga! Agora só teremos mais um período de tempestades para tentar obter um resultado positivo. - praguejou Luiz.
- Corisco I está avariado e você está aí de molho, com um braço machucado. Acho que pagamos um preço relativamente baixo pela lição! - respondeu Antonio.
- Eu não vi lição nenhuma! A única coisa que eu estou vendo é que o tempo está se esgotando.
- Na verdade são várias as lições: os experimentos só devem ser realizados de dia; não adianta tentarmos forçar a situação; e, principalmente, precisamos dar um jeito nos buracos da área de coleta!
- É, pensando bem, você está certo! Acho que você realmente incorporou a função do tio Fábio, até com relação às conclusões.
- Estou fazendo o melhor que eu posso! - respondeu Antonio sorrindo.
- Embora concorde com você, acho que estamos cada vez mais pressionados pelo tempo. Teremos apenas mais uma série de tempestades. Estou muito preocupado!
- Fique tranqüilo! Descanse um pouco e deixe o resto comigo. - disse Antonio, retirando-se logo em seguida.

      Antonio saiu da enfermaria e foi direto para a garagem. Ao encontrar Henrique, recomendou que ele deixasse Corisco II e III prontos para uso. Depois chamou Roberto e lhe deu algumas instruções:

- Procure a Dra. Fernanda e verifique quando deverá ocorrer a próxima calmaria. Assim que ela começar, quero que você e toda a equipe de manutenção providenciem o reparo da maior quantidade de buracos possível na área de coleta.
- Sim, senhor! Mas acho que é uma tarefa bastante difícil, pois o tempo não ajuda e não temos equipamentos adequados. - respondeu o jovem engenheiro civil.
- Segundo as últimas previsões, deveremos ter uns três dias sem tempestades. Quanto aos equipamentos, existe um galpão nos fundos de Tupã I, onde estão guardados os tratores que prepararam o terreno. Nós decidimos mantê-los aqui até o final da temporada de chuvas, pois temíamos que os caminhões que deveriam levá-los embora pudessem ficar presos na estrada enlameada.
- Assim as coisas ficam bem mais fáceis. – respondeu Roberto.
- Inicie a operação de reparo a partir do centro da área de coleta. Cuide para que a área em torno do ponto de espera fique com o menor número de buracos possível. Estabeleça turnos de modo que possamos cobrir a maior parte possível do terreno nessas 72 horas de estiagem.
- Sim, senhor! - disse Roberto, saindo imediatamente.

      Na tarde da Segunda-feira, conforme Fernanda havia previsto, a tempestade acabou. O Sol, que aparecia raramente, iluminava as máquinas que trabalhavam incessantemente na terraplanagem da área de coleta. Conforme Antonio previra, o trabalho era duro, mas possível e, em pouco tempo, os resultados podiam ser notados. Boa parte das enormes poças d'água deu lugar a um solo mais plano.

      Aproveitando o tempo em que estava na enfermaria, Luiz tentava se programar mentalmente para ver como melhor aproveitar a última tempestade. Seus pensamentos foram interrompidos pela chegada de Carla:

- Passei por aqui para saber como vai o nosso chefinho. - disse Carla sorrindo.
- Eu vou bem! Estou um pouco avariado, mas nada sério!
- Fiquei muito preocupada quando soube do seu acidente. Na verdade, eu estou preocupada desde a hora em que você decidiu cometer essa loucura.
- Pode ter sido loucura mas era necessária! - respondeu Luiz.
- Acho que você precisa dar mais valor a si mesmo! Imagine quantas coisas ruins poderiam ter acontecido. Todos nós perderíamos muito se você tivesse sofrido um acidente mais sério. Tente ver com bons olhos tudo isso que eu estou lhe dizendo, pois eu também estou preocupada com a sua saúde. Acho que já falei demais. Até logo! - Carla despediu-se de Luiz dando-lhe um beijo na sua testa.

      Assim que Carla saiu da enfermaria, Fernanda apareceu com alguns bombons:

- Achei que você poderia estar com fome e resolvi lhe trazer isso.
- Ah! Muito obrigado! Afinal todo doente merece receber uns bombons. - disse Luiz sorrindo para Fernanda.
- Que belo susto, hein?
- Pode ter certeza que, pelo menos para mim, foi um susto e tanto. Até que o prejuízo não foi dos piores! - disse Luiz olhando para o seu braço enfaixado.
- É, mas poderia ter sido muito pior! Acho que você deveria tomar mais cuidado com essas reações de mocinho de cinema. Aqui você não tem dublê e, se acontecer algo ruim, é você quem vai entrar pelo cano! Como amiga, eu gostaria que soubesse que eu me preocupo muito com você e que não gostaria de vê-lo machucado. Acho que não há nada nesse mundo que justifique esses riscos.
- Você está se esquecendo que temos uma temporada de raios que está se acabando?
- Claro que não! Mas acho que se as coisas não estão propícias para alcançarmos o nosso objetivo nesse curto prazo, de nada adiantará você ficar machucado, aleijado ou coisa pior. Acho que cedo ou tarde vamos alcançar esse resultado e que não precisaremos sacrificar mais vidas para isso. Agora descanse e pense bem nisso. Como a próxima tempestade só virá daqui a três dias, acho que você vai ter muito tempo para analisar o que eu acabei de lhe falar. - Fernanda saiu, depois de dar um beijo no rosto de Luiz.

      Enquanto Luiz pensava no que Carla e Fernanda lhe falaram, acabou adormecendo. O seu sono foi bastante agitado, com sonhos confusos, onde juntos, Alice e Flávio, lhe pediam calma para que tudo pudesse ser resolvido sem sacrifícios. Fábio aparecia em seu sonho e, sobre uma cadeira de rodas, lhe dizia que não se arriscasse tanto para não ficar igual a ele. Carla e Fernanda, em coro, lhe diziam para tomar cuidado. Tudo acontecia em meio a uma forte chuva, cujos raios caíam à sua volta. Por fim a imagem do Diretor-Presidente, com um cronômetro em suas mãos, lhe dizia que o tempo havia se esgotado e que era hora de parar. As cenas se alternavam, repetidamente, até que acordou. Ele abriu seus olhos e viu o médico, que segurava o seu braço esquerdo:

- Luiz, você já cumpriu o período de observação e está tudo bem. Caso queira, poderá ir para o seu alojamento. Apenas lhe recomendo que evite qualquer atividade que force o seu braço direito. Se tudo correr bem, poderemos tirar a faixa em dois dias. Até lá, mantenha esse braço em repouso.
- Tudo bem, doutor! – respondeu Luiz ao se retirar da enfermaria.

      Na noite da Quarta-feira, Luiz reuniu-se com alguns membros da equipe, logo depois do jantar, para saber como as coisas estavam indo. Antonio começou o relatório dizendo que Roberto havia conseguido reparar cerca de 50% da área de coleta e que, se a tempestade só começasse à tarde, talvez esse percentual subisse para uns 65%. Luiz decidiu que ele limitaria o raio de atuação do veículo, de modo que ficasse dentro da área recuperada. Olhando para Carla e Fernanda, ele declarou que não tinha a mínima intenção de sofrer novos acidentes, nem de correr riscos desnecessários.

      No final da manhã da Quinta-feira o céu escureceu, anunciando a chegada da última tempestade da temporada. Em duas ou três horas, conforme Fernanda havia previsto, aconteceria uma das maiores tempestades daquela temporada. O braço de Luiz já estava sem a faixa, mas com sua mobilidade um pouco comprometida. Isso não seria empecilho para pilotar o veículo, disse para si mesmo.

      Às duas horas da tarde, todos assumiram as suas posições. Luiz já estava a bordo de Corisco III, quando ouviu o alarme:

- ATENÇÃO! ISTO É REAL! TEMPESTADE NÍVEL 9 SOBRE A ÁREA DE COLETA!

      Luiz partiu para o ponto de espera e, lá chegando, contatou Antonio:

- Aqui está tudo bem! Dê meus parabéns ao Roberto! A área está muito bem recuperada, parece até asfalto! - disse Luiz.
- Vou falar com ele assim que puder. Como está o tempo aí?
- Chove muito forte e o vento prejudica um pouco a direção do veículo. Conforme combinamos, estou limitando a área de atuação a até 2,5 km de distância do centro da área de coleta. Fernanda já foi avisada...

- RAIO A 2 km EM 145! - A voz de Fernanda interrompeu a conversa dos dois.
- A caminho! - disse Luiz, disparando na direção indicada.

      Ao chegar ao local, após 41 segundos, Luiz acionou o botão de disparo. Depois de receber um impacto sobre o veículo bem mais forte que o esperado e ouvir um estrondo também muito mais elevado, deu uma verificada no painel e constatou que, segundo as indicações dos instrumentos, tudo ocorrera da forma esperada. Contou mentalmente e ao chegar em quinze, antes de acionar o sistema de comunicação, verificou que sua mão tremia e que todo o seu corpo estava transpirando muito. Subitamente, veio-lhe à mente todo o episódio do acidente em Tupã I, a aflição no hospital e a cena do falecimento de Hélio, totalmente queimado. Suas mãos não respondiam mais à sua vontade, por mais que Luiz tentasse, ele não conseguia coordenar os seus movimentos. Uma pergunta flutuava em sua mente: Teria tudo aquilo acontecido de novo?

      A luta interna de Luiz o consumia, impedindo-o de agir coerentemente. Enquanto ele se debatia contra as reações adversas do seu corpo, o sistema de comunicação foi acionado:

- Alô...ZZZZZZZZ Luiz! Responda! Está...ZZZZZZZ.. com você? - a voz de Antonio, em meio a um forte zunido, tirou Luiz daquele estado letárgico.
- Si-sim! Aqui está tudo bem! Mas, e vocês?

      Depois de alguns longos segundos de silêncio, a voz de Antonio respondeu:

- Exce..ZZZZZZZ..! Segundo as informações...ZZZZZZZZZZ....receber de Carla e..ZZZZZZZ, eu..ZZZZZZZZ..dizer que ........
- Estou lhe ouvindo com muita dificuldade, sua voz está chegando com muita interferência! Vamos diga logo!
- CONSEZZZZZZ..! - gritou Antonio - CONZZZZZ..MOS!
- A interferência está prejudicando a compreensão de suas palavras!
- C-O-N-S-E-G-U-I-..ZZZZZ..!!! - soletrou Antonio.
- É verdade? Conseguimos mesmo? - Luiz estava incrédulo.
- S-I-M! - respondeu Antonio.
- Estou voltando agora mesmo! - disse Luiz, retornando a Tupã I.

      Ao chegar em Tupã I, ainda sem estar certo sobre algum resultado positivo, foi direto ao Setor de Armazenamento. Lá chegando encontrou um grande clima de festa. Ao vê-lo, Antonio lhe deu um abraço apertado.

      Ainda confuso, Luiz comentou sobre o problema no sistema de comunicação. Carla, que também estava lá, lhe explicou que aquilo era resultado da forte interferência eletromagnética causada pela grande quantidade de energia acumulada. Um forte zunido era claramente ouvido nas proximidades dos dispositivos de armazenamento. Segundo Magno, eles haviam coletado um raio muito potente, cuja energia ocupara cerca de 80% da capacidade total do sistema de armazenamento de Tupã I.

      Finalmente o tão esperado sucesso havia sido alcançado. Lembrando das recomendações do Diretor-Presidente, Luiz pediu que providenciassem um relatório resumido, com as principais informações. Esse documento deveria ser levado por um portador confiável, ainda naquele dia para o executivo. Como se tratava de uma corrida entre empresas concorrentes, era fundamental que o resultado positivo fosse comunicado o mais rápido possível à empresa patrocinadora.

      Luiz pediu que Henrique entregasse o relatório. Orientou-o para que, ao chegar na cidade mais próxima, passasse um fax à empresa com uma mensagem em código, informando sobre o resultado positivo. Ao receber o fax, a empresa enviaria um táxi aéreo que o levaria até a sede.

      Depois de Henrique sair, rumo à empresa patrocinadora, Luiz convocou todos para informar sobre o resultado alcançado. Dois dias depois, Henrique retornou da empresa, ainda a tempo de participar da comemoração prometida. Ele trouxe uma carta com os parabéns do Diretor-Presidente.

      Embora modesta, a tão esperada festa foi memorável. Todos se cumprimentaram pelo grande feito. No final da noite, Luiz pediu a atenção de todos para ler a carta enviada pelo Diretor-Presidente. Nela, o executivo ressaltou a grande importância do trabalho desenvolvido por todos que integraram o projeto. Foram palavras que tocaram fundo cada um dos presentes.

      Depois da comemoração do sucesso, era necessário pensar no próximo passo: a transformação de Tupã I na primeira Usina de Energia de Raios da história.






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