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Capa de Dominando o Raio

Dominando o Raio



Capítulo 2 - Acidente

      O tempo no último dia se tornara fechado e sombrio. Os ventos encrespavam a superfície do lago e espessas nuvens se formavam por toda a região. Ao ver que qualquer atividade fora de casa não seria possível, Luiz propôs:

- Papai, por que a gente não joga um video-game ou assiste a algo na televisão?
- Acho uma boa idéia, mas esse tempo me preocupa.
- Por quê?
- Se toda essa água cair de uma vez, poderemos ter problemas com a estrada que é de terra e apresenta alguns trechos de difícil travessia.
- Acho que você tem razão, talvez fosse bom fazermos nossas malas.- disse Luiz, visivelmente aborrecido.

      Quando faltava apenas colocar as malas no carro e fechar o chalé, o céu já estava muito escuro. Repentinamente, começou a cair uma forte chuva, acompanhada de raios que iluminavam aquele céu cinza chumbo. As trovoadas ecoavam pelas montanhas que cercavam aquela região.

      Rapidamente os dois concluíram as atividades que faltavam e partiram para a estrada. O céu muito escuro e a pesada chuva proporcionavam pouca visibilidade, dificultando bastante a condução do veículo naquela estrada lamacenta. De tempos em tempos, o céu era iluminado pelos relâmpagos que o riscavam de um lado a outro.

      O veículo de Flávio era um utilitário com todos os recursos disponíveis no mercado, contudo pouco ajudou na travessia daquele caminho castigado pela grande quantidade de água que caía do céu. A travessia, que em tempo seco tomava uns dez ou quinze minutos, já durava quase três horas quando o fundo do carro bateu em algo que o prendeu, impedindo o seu avanço para qualquer direção. O veículo estava totalmente encalhado naquele mar de lama. Seria necessário sair do carro mais uma vez, pensou Flávio, que já se encontrava sujo de lama e bastante molhado pela forte chuva que ainda assolava o local.

      Mesmo tentando aparentar calma, Flávio já apresentava visíveis sinais de nervosismo. Seu maior temor era que, caso realmente atolasse, eles ficariam incomunicáveis por um considerável tempo, pois não dispunham de nenhum meio para pedir ajuda. O seu telefone celular de alcance global havia sido avariado ao cair numa poça de lama, durante uma de suas saídas para desencalhar o carro. A estrada estava intransitável, inclusive a pé, e não havia nenhuma moradia naquela área. Prevendo que aquela situação pudesse durar todo o dia, Flávio decidiu acionar o último recurso de que dispunha: o rastreador por satélite. Esse dispositivo estava ligado a um serviço de segurança pessoal que permitia a rápida localização do veículo e o imediato envio de uma equipe especializada para prestar qualquer tipo de socorro, em função do código de alarme enviado pelo rastreador. Os códigos podiam ser de três tipos: quebra de veículo (socorro mecânico), acidente (socorro médico) ou seqüestro (socorro policial). Flávio acionou o socorro mecânico. Dentro de algumas horas eles estariam livres daquele pesadelo, imaginou ele.

      Uma hora depois a chuva parou, como que por milagre. Flávio, que estava cochilando todo encolhido junto à porta do carro, foi acordado por Luiz:

- Papai, a chuva parou! Vamos ver o que poderemos fazer para sairmos daqui.
- Fique aqui dentro! - disse Flávio - Já estou bastante molhado e basta um só!
- Mas, papai ...
- Meu filho, acho que você será muito mais útil aqui, pois assim que eu encontrar algo onde possa amarrar o cabo de aço, precisarei que você acione o guincho e tome conta do volante, para ajudar a desencalhar o carro.

      Ao sair, Flávio constatou que a temperatura havia caído bruscamente. Voltou para tirar sua camisa úmida e troca-lá por uma outra seca. Ao tirar a camisa, Flávio percebeu uma espécie de arrepio, sentindo parte dos pelos de seus braços e costas se eriçarem. Acreditando ser apenas a sensação de frio, não deu muita importância ao fato, e saiu à procura de uma árvore ou algo onde pudesse amarrar o cabo de aço do guincho. A cerca de uns vinte metros do carro, Flávio encontrou uma formação rochosa onde, com um pouquinho de jeito, seria possível prender o cabo de aço. Ao encontrar uma fenda entre duas grandes pedras, teve a idéia de passar o cabo por ela e prendê-lo em algo, tal como uma chave de roda ou qualquer outra ferramenta que pudesse manter o cabo preso. Retornou ao carro para procurar alguma ferramenta que se adequasse à sua necessidade.

      Enquanto procurava na caixa de ferramentas, Flávio sentiu novamente aquela sensação de arrepio, levando-o a concluir que poderia ser devido à grande quantidade de nuvens extremamente carregadas de eletricidade estática que estavam sobre a região. Após remexer sua caixa de ferramentas, encontrou uma barra de ferro, usada para o acionamento do macaco hidráulico do carro.

      Ao se afastar do carro com a barra de ferro na mão, aconteceu o inesperado. Um forte raio atingiu Flávio, fulminando-o instantaneamente. O clarão iluminou a região como um gigantesco flash fotográfico, contribuindo mais ainda para fixar aquela cena terrível nas retinas de Luiz, que assistira impassível a tudo. O estrondo foi ensurdecedor. Era como se o céu tivesse desmoronado. O deslocamento do ar foi tal que sacudiu violentamente o carro em que Luiz estava, como se alguém tivesse batido nele. Mas Luiz estava alheio a tudo isto, olhando fixadamente para o local onde instantes atrás estava o seu pai. Agora ali jaziam os restos de um corpo carbonizado, totalmente desfigurado.

      O pobre menino não conseguia pensar em nada. Fora totalmente tomado por uma profunda sensação de perda que lhe dava a impressão de que uma enorme cratera se abrira sob os seus pés. Era demais para a cabeça de uma criança com o passado de Luiz, que só conseguia olhar fixadamente para o local do acidente e, de vez em quando, balbuciar palavras quase inaudíveis:

- Papai, papai...

      Luiz ficou inerte dentro do carro. Para ele não havia mais nada a fazer a não ser esperar que o mundo se acabasse e, junto com ele, o seu sofrimento. Alheio a tudo o que se passava a sua volta, Luiz permaneceu com seu olhar fixo no local do acidente durante todo aquele dia. As horas se passaram, a noite chegou e Luiz continuava imóvel, na mesma posição e com o mesmo olhar fixo, sem a mínima consciência de que não havia mais nada para ser visto, apenas a escuridão que circundava o carro.






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