Chovia a cântaros naquela noite de novembro de 1946, quando cheguei na residência de
doutor Ricardo, pernambucano de Timbaúba, aí nos seus sessenta anos, rosto redondo,
cabelo crespo e curto, óculos com lentes muito grossas, nariz pequeno, tipo gavião e
pele esbranquiçada. Era o exemplo de pessoa que, quando é amiga, é para valer, mas,
quando inimiga... deixa para lá.
Ao entrar na sala, encontrei-o com um outro visitante comemorando alguma coisa.
Logo após as apresentações, serviram-me um drinque.
Pensei eu, André, com vinte anos e universitário: viera sob temporal, a pedido de meu
pai, para acertar um serviço e não para apreciar dois marmanjos bebendo. Queria
resolver logo o assunto para ir namorar.
Servida a bebida, doutor Ricardo explicou que estava precisando completar e atualizar
o inventário das máquinas e equipamentos da usina (usina, hein? era mais uma
engenhoca!). Tinha a intenção de acionar judicialmente a Viação Férrea Federal Leste
Brasileiro, que havia cortado a enseada de Mapele com uma ponte, impedindo, o tráfego
dos barcos que traziam a cana – a matéria-prima.
– Sinto muito, doutor Ricardo, não posso ir. Depois de amanhã, pela manhã, vou ter
prova na Politécnica e tenho ainda muitos pontos para rever.
– André! – parou um instante e levantou as mãos como fosse fazer uma grande proposta –
Mando o carro lhe levar cedinho para Santa Luzia (pequeno porto na baía de Aratu) e
às quatro da tarde mando buscar – dando uma tremenda ênfase no verbo mandar, depois
mudou – Estou pedindo! O ano termina dentro em pouco e preciso apressar a ação contra
a Leste Brasileiro...
E continuou com uma argumentação, como se eu fosse o advogado do lado oposto,
alegando que o fechamento da enseada pela nova ponte de Mapele impedia a passagem dos
barcos que traziam as canas. Afirmava que o Conselho Nacional do Petróleo – CNP,
fornecedor do gás do campo de Aratu, não tinha mais interesse, pois estavam impedidos
de receber os saveiros-tanques com óleo dos campos de Itaparica para destilar na
precária e rudimentar destilaria... tá tá tá..., e prosseguiu: ...agora lutava
sozinho contra os burocratas do Rio de Janeiro, que pouco estavam ligando para uma
unidade industrial na Bahia e que só pensavam em politicalha e empregar suas amantes
como funcionárias na letra O... tá tá tá,,, e, quase sem fôlego, falava sem perceber
que me enviava um tremendo bafo de álcool.
O tempo foi passando e mais uma rodada de bebida e, vencido pelo cansaço, pelos
drinques ou pelo dinheirinho, terminei acertando por um pouco mais do que eu esperava
cobrar.
** ** **
No outro dia, pouco antes do nascer do sol, chegou em frente ao portão de nossa casa,
na Avenida Oceânica, um Renault azul escuro, mal-encarado, berrante e imundo. O motor
roncava soltando fumaça preta pelo tubo de escapamento amarrado ao pára-choque. Logo
que estacionou, sem parar o motor, o motorista meteu a mão na buzina. Parecia um
desesperado necessitando de socorro para tirar a mãe da forca, mas, como já estava
pronto, saí logo de casa, antes que o esporreteado acordasse toda a vizinhança.
Corri, apertando o blusão com o zipe fechado até o pescoço, segurando o boné
enterrado na cabeça e sentindo a chuva fina e fria no rosto. Tinha o corpo enxuto,
rosto comprido, cabelos lisos, tez queimada do sol praiano e um metro e setenta e
cinco de altura. Não era um atleta, embora praticasse diversos esportes, mas não
estava preparado para o que iria acontecer-me.
Depois de algum esforço consegui abrir a porta do monstro atarracado e entrar. O
motorista, pitando um cigarro de palha, nem se mexeu. Parecia um cangaceiro. Vestia
calça cáqui, colete-jaleco, sem camisa, chapéu de couro e portava um punhal na
cintura. Tinha talvez uns quarenta anos, pele curtida e indefinida entre cabocla e
branca, olhos claros, barba rala sem fazer, bigode virado no canto dos lábios, cara
redonda e cabelos pretos, encaracolados e ensebados, com as pontas aparecendo abaixo
do chapéu de couro.
– Bom dia!
Depois de alguns segundos que pareciam uma eternidade o destrambelhado resolveu falar.
– Bom dia! Nóis já pode ir?
– Pode.
– Apois 'ta certo.
Parecia que havia sido acionada uma bandeira de largada de uma corrida da Fórmula 1.
Arrancou com os pneus cantando e riscando de preto o asfalto, em direção ao obelisco
que existia no início da Avenida Oceânica. Surpreso com a arrancada, pressionei o
assoalho do carro, com toda a força, como se com isto eu pudesse freá-lo. Beiramos o
obelisco, subimos no canteiro em frente ao edifício Oceânia e, sem diminuir a
velocidade, saímos pelo outro lado.
Alguma coisa estava errada!
Só então notei que ainda não soltara o ar dos pulmões!
Subimos o primeiro trecho da Ladeira da Barra “triturando” os paralelepípedos e
eventualmente deslizando sobre os trilhos dos bondes e caindo nos buracos, aliás, em
todos os buracos e, como era de se esperar, um dos pneus dianteiros arriou desviando
o carro para o muro, mas sem conseqüências.
Ofereci ajuda, recusada com resmungo. Desembarquei, atravessei a rua para olhar a
paisagem. A chuva passara e o sol tímido, nascente, aparecia entre as nuvens,
iluminando a baía.
Olhando para baixo vi a piscina do Iate Clube. Alguns madrugadores já estavam n’água.
Ao longe, para o lado de Mataripe e Candeias, avistavam-se chamas dos “flares” dos
poços de petróleo e gás. Dezenas de saveiros com as velas batendo na aragem fraca do
norte tentavam atravessar a baía. Cruzando em sentidos contrários, dois pequenos
vapores da Cia. de Navegação Bahiana passavam entre alguns navios ancorados em frente
ao cais.
A ladeira, calçada com paralelepípedos, era cortada por dois pares de trilhos. No
meio da rua, postes de ferro com luminárias e barras que sustentavam os fios dos
bondes.
Olhando para a igreja do Senhor do Bonfim, ao longe, na península de Itapagipe,
senti que deveria desistir da viagem e me benzi, mas prossegui.
De repente fui despertado pela buzina acionada por Jonas, este era o nome da “peça”,
que rapidamente trocara a roda e jogara a furada no banco traseiro onde existiam mais
duas.
Prosseguimos, Jonas dirigindo e mudando as marchas com uma mão, enquanto a outra
segurava o cigarro de palha. De vez em quando pitava e voltava a colocar o cotovelo
para fora. A chuva recomeçara, ora entrando por uma janela, ora pela outra, pois os
vidros não fechavam e só havia um limpa-parabrisa.
Sem tráfego, o primeiro bonde do dia já passara e só foi encontrado outro “2 –
Barra”, em São Pedro . Prosseguimos pela Avenida Sete de Setembro, descemos a Ladeira
de São Bento e no mesmo pique, a da Montanha. Daí em diante, e com o Renault “gemendo
e chorando nos vales da Bahia” e na chuva fina, sacolejamos encharcados pela
Frederico Pontes até em frente a feira de Água dos Meninos, onde, por pouco, não
abalroamos uma carroça. Chegamos em frente da Estação Ferroviária da Calçada, dando
mais algumas contramãos nos poucos veículos que encontramos. Logo galgamos a Ladeira
de São Caetano (na época, início da rodovia Bahia – Feira), juntamente com outros
carros e caminhões. Ao chegar no topo paramos pois o Renault reclamava, bufando vapor
pela frente, esguichando água e fedendo a óleo queimado.
Jonas saltou e, sem dizer palavra, abriu a mala retirou uma lata, atravessou a
estrada, entrou num armazém e depois de algum tempo retornou com a lata cheia d'água
e um bafo de cachaça. Enquanto isto o motor continuava a funcionar, fumegando,
rosnando, guinchando e fedendo.
Levantou o capô, e não se sabe como conseguiu tirar a tampa do radiador, mas foi
ouvido um “puff”!... e ela voou longe, em meio a uma nuvem de vapor e...
– Qué me queimá muléstia? Puta que pariu!
Água para dentro, sem a menor precaução e sem mais palavras.
Apanhada a tampa no chão, esta recebeu um banho e foi repetido o distinto nome para a
mãe da mesma, antes de a própria voltar para o seu lugar.
A viagem prosseguiu pela estrada velha, em concreto (único trecho pavimentado em todo
o Estado da Bahia), até Campinas de Pirajá.
Terceira parada, no posto policial de Campinas de Pirajá em que, por uma razão
desconhecida, o motorista era obrigado a saltar e informar o seu nome, a hora, número
da chapa e destino, para ser registrado num livrão que ninguém lia. Conhecia a aquela
estrada muito bem, pois andara diariamente na carroceria de caminhões do CNP
(Conselho Nacional do Petróleo) quando estagiara.
Alguns trechos tinham nomes, tais como a “Curva da Beira-Bunda”, a “Reta do Pau-a-
Pique”, a “Curva da Cova do Defunto”. A estrada que possuía uma única cor, vermelho-
barro da lama, se chovia, e vermelho-poeira, era estreita e cheia de curvas e, no
estio, perigosa.
Quarta parada, em Valéria, para um cafezinho na casa do senhor Caetano, compadre de
meu pai.
Também, pudera... já viajávamos por mais de uma hora.
Continuamos viagem e, perto da ladeira e da curva do “Viramundo”, outro pneu furou.
Não foi oferecida ajuda nem solicitada... e deixei de contar o número de paradas.
Depois de uma hora de sacolejo, saímos da estrada Bahia (Salvador) – Feira de Santana
e chegamos ao alto de Aratu, de onde avistamos, ao longe, os campos de petróleo, onde
antes eram canaviais e engenhos.
Na beira d'água, o porto e a Usina (hein?), sem barcos e duas chatas do CNP ancoradas
ao longe.
Alguns caminhões-tanque, estacionados ao pé da ladeira aguardando a estrada secar. Um
trator, preparado para rebocá-los ladeira acima, estava sem o seu condutor e com o
motor funcionando. Debaixo de uma lona, na beira da estrada, os motoristas
conversavam.
Colocando a cabeça para fora, Jonas gritou, lá para baixo:
– Ô Vosmissês! A ladeira ’tá ispaiando?!
Ninguém respondeu, ou ninguém entendeu, ou não ouviram.
Jonas desembarcou calçou a roda traseira com uma pedra e, depois, sob chuvisco ralo,
foi deslizando, segurando, aqui e ali, nos matos laterais, até os motoristas, uns cem
metros distantes. Conversou durante algum tempo e retornou, escorregando de vez em
quando.
“Droga! Vamos ficar aqui o dia todo esperando a ladeira secar. Nunca deveria ter
vindo, ainda mais com este destrambelhado dirigindo” – resmungava, enquanto observava-
o subir.
Ao retornar, virando-se para mim, mostrando os dentes de ouro, falou:
– Acha qui nóis vai?
– Quem deve saber é o motorista! – foi a resposta que dei e... logo me arrependi.
– Intão nóis vai amontado nesta zorra!
Naquele tempo, meu hobby era pilotar teco-teco e fazer umas poucas “figurinhas”, mas
nunca sentira tanto frio na barriga como senti na descida seguinte daquela ladeira.
Adrenalina pura, como a moçada diz hoje.
Jonas acelerou o motor e enfiando o pé no acelerador, à medida que descíamos, mudava
rapidamente as marchas. Já estávamos na terceira, quando o Renault começou a rabear.
Escorei-me todo, antevendo uma capotagem. Naquele tempo não havia cinto de segurança.
Lá em baixo, diversas pessoas saíram do abrigo de lona para o meio da estrada e
sinalizavam desesperadamente agitando os braços. A resposta dada, foi o motor
acelerar mais ainda. Só Deus sabe como o carro voltou ao meio da pista. No momento,
faça-se justiça, Jonas dirigia com as duas mãos no volante. Não sei a velocidade que
alcançáramos, pois o velocímetro não funcionava. De repente o pessoal que sinalizava
correu e pulou de cabeça para dentro do mato, enquanto o monstro descia a ladeira
chispando. Com a mão direita segurando a coluna do quebra-vento e a esquerda
escorando no quadro, sentia a chuva e a lama passarem assobiando pelas janelas. Os
solavancos levantavam nossos corpos. Nossas cabeças batiam no teto e Jonas não
despregava o pé do acelerador. Lá descíamos, a toda velocidade. No final da ladeira
havia uma curva que dava acesso à estrada que deveríamos seguir e uma reta que ia
para a sede do campo do CNP. Pensei com medo e raiva: “Se ele for dobrar a esquerda
para pegar a estrada vamos capotar com c cedilha!” – A velocidade aumentava, o motor
roncava descompassado e nada de o esporreteado aliviar o pé do acelerador... e a
curva se aproximando. Não sei como não arrombei o assoalho de tanto “frear”. Perto da
curva olhei para o “cangaceiro” e quando voltei a vista para frente, percebi, com
alívio, que estávamos na reta e a velocidade ia diminuindo. Pouco depois paramos e,
durante a manobra para entrar na estrada que seguiríamos, tivemos este longo e
esclarecedor diálogo.
– Puta que pariu, intão nois foi! – e virando-se para mim, mostrando os dentes de
ouro: – Num foi?
– Foi! – respondi com a voz e as pernas trêmulas e sentindo uma vontade de urinar e
rir.
O trecho final foi percorrido vagarosamente devido ao massapê.
Apresentei-me e verifiquei que o serviço era menor do que o esperado e assim, até
meio-dia terminaria.
Almocei na casa do gerente e esperei o retorno do destrambelhado, receando que ele
demorasse, pois não gostaria de viajar durante a noite.
Às quatro horas, o carro não chegara e às cinco horas passaria o trem de passageiros
vindo de Santo Amaro, em direção a Salvador, mas que só parava em Mapele, depois do
túnel, distante pouco mais de um quilômetro.
Resolvi ir ao CNP onde, pelo rádio, consegui fazer contato com a Bahia (Salvador)
sendo informado de que o carro não retornara pois deveria ter quebrado quando voltava.
“E a prova na Politécnica, amanhã de manhã?” – pensei preocupado.
Pior ainda: enquanto aguardava notícias, perdi o transporte do CNP para Bahia
(Salvador) e o trem que parava no ponto de Santa Luzia..
Voltei caminhando pela lama até a usina. A chuva havia passado, mas só quem conhece o
que é massapê pode entender o sacrifício que é andar enterrando as pernas até o
joelho.
E agora?
Procurei orientação com o gerente Tobias.
– Só tem um jeito, se tem mesmo que ir para Bahia(Salvador), vai ter de atravessar o
túnel e pegar o comboio do sertão que passa em Mapele. Nesta linha, hoje não passa
mais trens, a não ser os carregados de lenha.
“E agora? Se dormir aqui, cairei na chamada de segunda época na Politécnica, e perco
minhas férias... mas posso atravessar o túnel e, em uma hora, estarei em Mapele.
– Senhor Tobias, vou para Mapele!
– 'Ta bem. Ninguém por aqui gosta de atravessar o túnel de noite, dizem que tem uma
alma penada ou visagem lá dentro. – Tomou fôlego e prosseguiu: – Na verdade, o único
perigo é se na hora que estiver lá dentro, vier um trem de lenha. – Parou um pouco e
coçou a cabeça, e continuou – Não adianta correr para as lapas (abrigos cavados na
rocha) porque, quando o trem sacode, a lenha cai dos lados – Prosseguiu - Antes de
ir, é melhor se lavar e, enquanto colocamos as meias e as botas para secar no pé do
fogão, tomamos uma janta. – Coçou novamente a cabeça, indicando preocupação, e voltou
a falar: – O trem do sertão só passa lá depois da meia-noite. – Parou novamente e
arrematou, colocando a mão no peito: – Acho que hoje vou ter “piadeira” (asma).
O trem do sertão chegava a Mapele pela linha que cruzava a ponte que fechara a
enseada e, ali, juntava-se com os trilhos que passavam pelo túnel e seguiam até a
Bahia (Salvador).
Após o café, mais relaxado mas bastante cansado, estava quase aceitando o convite
para pernoitar, quando lembrei-me de que, se perdesse a prova, perderia as férias.
Eram mais ou menos 21 horas quando agradeci a acolhida e entreguei o rascunho do
levantamento ao senhor Tobias, para ser datilografado – Graças a Deus! E parti com
uma garrafa de petróleo em uma das mãos, uma lanterna elétrica emprestada na outra.
Recomeçara a chuviscar. Subi o aterro da linha férrea e prossegui, procurando não
pensar, pulando de dormente em dormente, os pés doendo dentro das botas de cano
curto, secas e endurecidas. Aos poucos, as luzes do porto e da indústria foram
desaparecendo na curva suave da via férrea, o corpo foi se acostumando com o ritmo da
caminhada e as botas amolecendo. Sentia a água da chuva escorrer pelo rosto e entrar
por baixo do blusão de couro.
Talvez tenham sido quinze minutos até chegar ao mata-burro da entrada do túnel.
Apaguei momentaneamente a lanterna e olhei em torno. Para trás, ainda podia
distinguir alguma coisa, para cima, um cinzento uniforme da lua – quarto minguante,
por cima das nuvens; para frente, a negritude sem fim do túnel de Mapele .
Com cuidado atravessei o mata-burro e, iluminando a entrada do túnel situada a cerca
de dez metros, parei.
“Será que tem fantasma?” Ao ter este pensamento, senti um frio na espinha. Parecia
que estava entrando numa sepultura. Tive um arrepio e um mau pressentimento: “Sabe do
que mais? Vou é voltar!” Depois de dois ou três passos retornando, parei e falei em
voz alta, para criar coragem: “Se voltar, vou ficar com vergonha e sem desculpas!
Que droga de medo! – Não posso é ficar aqui parado!”
Olhando a boca do túnel fracamente iluminada, prossegui, sem olhar para o chão. No
primeiro passo tropecei num dormente e, ao tentar me equilibrar, caí de bruços. A
lanterna apagou e a garrafa de petróleo escapuliu das mãos e rolou para a encosta do
mata-burro. Permaneci alguns instantes deitado, com joelhos e braços doloridos,
ouvindo a garrafa rolar “clinque, clinque”... até lá embaixo no fundo. Sentei-me com
o coração acelerado, as mãos feridas e um dos joelhos machucado. Olhei em redor, só
escuridão. Examinei-me superficialmente: Graças a Senhor do Bonfim, estava inteiro.
O primeiro pensamento a surgir: “Agora eu tenho desculpa para voltar!” – depois, mais
calmo, raciocinei melhor: “Como vou atravessar o mata-burro no escuro?”
Assombrado com a situação e momentaneamente indeciso, custei a me controlar. Apalpei
em volta e encontrei a lanterna, definitivamente quebrada. Em compensação, como os
olhos estavam ficando adaptados à escuridão e a chuva diminuíra. A confiança
ressurgiu. Decidi: “Vou entrar! Não existe fantasma! Lá vou eu!” – em voz bem alta,
mais para incentivar o ego. Continuei falando o que me ocorria. Lembrei-me então: “A
estação de Mapele é perto do túnel. O mata-burro do lado de lá deve receber um pouco
de luz e, então, posso atravessá-lo.”
Acreditando ou não em fantasmas, antes de dar o primeiro passo, rezei para as almas,
esperando que os senhores dos engenhos Mapele, Aratu e outros em volta tivessem sido
bons com seus servos. Respirei forte para esconder a vontade repentina de chorar e
dei o primeiro passo colocando entre os pés um dos trilhos como guia e entrei no
tunel.
À medida que entrava, mais escuro ficava. Mantinha os olhos abertos e nem sabia por
que motivo, pois era desnecessário. Percorrera talvez um terço do túnel, quando notei
que conseguia distinguir melhor o interior: “Que bom! Minha visão está se
adaptando!” – sempre em voz alta para espantar as assombrações. Como cada vez
enxergava melhor, estranhei e resolvi olhar para trás. O coração deu um pulo ao ver
que o holofote de um trem distante iluminava tenuamente as árvores laterais da linha
de acesso ao túnel. O comboio ainda estava distante, não apareceria na curva. O susto
foi enorme! Por cansaço ou medo que fosse de um trem carregado de lenha, cometi um
grande erro – entrei em pânico! Sem raciocinar, em vez de voltar, pois só havia
percorrido talvez uns sessenta a setenta metros do trajeto, em direção a Mapele,
corri adiante, no terreno irregular fracamente iluminado pela luz indireta da
locomotiva. Alguns instantes se passaram até a máquina terminar a curva e banhar de
luz o interior do túnel.
Com a iluminação, enxergando melhor, dominado pelo pânico acelerei as passadas.
Corria como um louco quando, de repente ressoou – piuuuu! piuuuu! – seguido do chique-
chique compassado da locomotiva. Desorientado pelo medo, tropecei e caí, levantei-me
e voltei a correr. O túnel já estava bem claro, todo iluminado pelo farol da
locomotiva. Descontrolado, deixava algumas vezes o caminho lateral e passava a correr
sobre os dormentes. O próximo apito foi ensurdecedor pois a locomotiva já alcançara o
início do túnel: “Vou pular no chão bem encostado, talvez escape” – gritei bem alto
para ninguém. Outro apito e o “chique, chique” juntinho e um “chiiiiiii” prolongado,
uma lufada de vento, luzes ao longe... a saída. Pulei de lado ao sentir a locomotiva
pertinho e caí dentro do mata-burro, arrastando-me pela encosta até a água. Sentia a
sensação de que caíra cem metros (depois visitando o local, foram menos de três
metros) até chegar na água imunda. Levantei-me e com a lama na altura da metade das
pernas, quase sem conseguir me manter ereto, olhei para cima e lá estava parada e
imponente, na penumbra, a locomotiva nº 228 da VFFLB (Vê, Fê, Fê, Lê, Bê – alfabeto
baiano).
Que alívio, estava vivo, dentro de um mata-burro!
Sem saber o motivo, ocorreu-me o epitáfio adequado: “Estudante de Engenheira, burro,
morreu em local apropriado”.
Não resisti à própria piada e comecei a rir descontroladamente. Ria por que estava
vivo, ria pelo anticlímax.
Ao longe ouvia vozes indistintas. De repente, alguém com um bibiano (lamparina de
querosene) agarrou-me pelos braços e, sacudindo, gritou:
– ’Tá maluco, home! Páre de rir! Tu ’tá vivo! ’tá inteiro e cheio de bosta!
Era o maquinista, que depois contou que havia me visto e apitara para que eu me
afastasse do meio da linha e, como continuei correndo, aplicou os freios. O comboio
sacudiu e derrubou muitas achas de lenha. Agora iriam seus ajudantes e eu catar a
lenha e jogar de volta nos vagões.
Depois do serviço perguntei se iria para Bahia (Salvador):
– Não! Vou parar e ficar em Mapele - respondeu irritado.
Parara de chover, segui de carona na locomotiva até a estação de Mapele, onde
estacionava um comboio chegado de Condeúba ou de Contendas, cheio de retirantes da
seca do sertão.
Meio trôpego, fui pedir informação ao chefe da Estação sobre o horário e o preço da
passagem.
– Se guentá o fedô maior que o seu, pode ir, é de graça! Se não conseguir lugá, 'ta
vindo outra composição do sertão que está atrasada e deve chegar aqui às duas horas
da manhã, mas tem de pagá.
Pelo meu estado de sujeira deve ter me confundido como um retirante.
Encontrei um lugarzinho no chão e ao nascer do dia cheguei em casa.
** ** **
Meu pai, com olheiras de quem não dormira, me aguardava: – O que aconteceu, André?
Olhando a sua fisionomia cansada, me deu uma vontade enorme de abraçá-lo e pedir
desculpas pela decisões erradas que eu tomara, mas como estava imundo, me controlei
e respondi:
– Pai, não atendi a meu Anjo da Guarda. Vou tomar uma banho e depois eu conto.
...À tarde, na Politécnica, soube que a prova fora adiada.