Aquele era um dos melhores navios da esquadra. Talvez o melhor de todos. O mais
limpo, o mais arrumado, o mais eficiente e a tripulação mais bem adestrada. Nele,
tudo funciona tão precisamente quanto um relógio suíço (daqueles mecânicos, de corda,
que nossos avós ainda usam).
Mas, nem sempre fora assim! Há menos de um ano, o "Intrépido", era conhecido como um
dos piores navios em serviço, onde tudo "pegava" ("dava tudo errado", como se diz na
gíria marinheira). Assim, havia sido até o dia em que chegou o novo Comandante
(ou "capitão", como é mais conhecido nos filmes).
Homem sério, de poucas palavras e muitos atos, enérgico, extremamente exigente, mas,
acima de tudo, uma pessoa justa e um administrador de mão-cheia. Muita gente teve que
conhecer o bailéu (cadeia, para os não-marinheiros) por dentro, para melhor
entender o pensamento e as ordens do novo Comandante. Aliás, ordem era o que não
faltava! Pior, elas eram dadas somente uma vez e depois cobradas com rigor máximo. Se
cumpridas com precisão, um elogio era imediatamente recebido, senão, o bailéu
hospedava mais um novo visitante.
Os primeiros meses foram os piores que qualquer ser humano normal poderia suportar (a
tripulação pode sentir "na carne" sua capacidade extraordinária de ultrapassar esse
limite). Exceto alguns pouquíssimos felizardos, quase toda a tripulação hospedou-se
por um tempo no bailéu ou, pelo menos, "dormiu a bordo" (isto é, passou a noite no
navio), para não deixar "pegar" alguma tarefa recebida.
Surpreendentemente, o Comandante tornou-se, ao mesmo tempo, a figura mais temida a
bordo e também a mais admirada. Na medida que o navio ia melhorando seu estado
geral, conquistando fama entre seus pares, cumprindo missões com sucesso, o
Comandante era mais admirado e até citado como um exemplo a ser seguido por todos.
Mas, contudo, continuara a ser temido.
Já havia se passado quase um ano, desde o fatídico dia em que o tão temido personagem
assumira o comando e, agora, o "Intrépido", tornara-se, de longe, o melhor entre os
melhores. O reconhecimento à competência do Comandante era assunto do dia-a-dia entre
os tripulantes. Todos, a despeito do seu rigor excessivo, eram profundamente gratos
ao homem que "ressuscitou" o "Intrépido", que outrora fora conhecido como "a vergonha
flutuante". Muitos, praticamente todos os tripulantes, dariam até a sua própria vida
pelo Comandante. No fundo, no fundo, mais que temido, ele era amado por todos.
Finalmente, chegara a vez da retribuição. No final daquela semana, para ser mais
preciso, naquela sexta-feira, seria o aniversário do Comandante. Esse seria o grande
dia em que os oficiais do navio demonstrariam seu reconhecimento ao Comandante. Seria
uma oportunidade única, pois poucos dias depois, quando completasse um ano de
comando, ele seria substituído por um outro oficial, passando-lhe o comando de um
navio à altura das melhores marinhas do mundo.
A despeito de mal conhecerem o Comandante, temê-lo quanto às imprevisíveis reações,
mas amá-lo acima de tudo, rapidamente organizou-se um GT (Grupo-Tarefa) para
descobrir os seus gostos, para que se pudessem propor os possíveis presentes. Estes
deveriam tocar fundo o coração do Comandante. Assim, quem sabe, imaginavam os mais
sonhadores, o "chefe" talvez se tornasse mais próximo de todos e, como sonhar nunca é
demais, tornar-se menos enérgico. Num momento de desvario, imaginaram uma outra
pessoa, amigável, gentil, compreensiva, substituindo o ser que aterrorizava a vida a
bordo.
Bastaram menos de duas horas para que o "serviço de inteligência" descobrisse
a "paixão secreta" do Comandante: selos! O homem era um filatelista de carteirinha e
tinha em sua coleção, organizada ao longo da carreira e das muitas viagens,
verdadeiras raridades filatélicas. Mas, havia um selo que ele procurava há muitos
anos. Curiosamente, era um selo nacional, porém raríssimo: um "olho-de-boi" de 90
réis. Era o último que faltava para completar sua coleção. Esta seria uma tarefa e
tanto, pois conseguir um selo raro, emitido no século XIX, e, pior ainda, em menos de
quatro dias! Mas o esforço certamente valeria a pena!
O Imediato (oficial que se segue ao Comandante, na hierarquia de bordo) assumiu
o "Comando da Operação" e criou, secretamente, para que o Comandante não descobrisse,
uma verdadeira operação de guerra. A partir daquele momento, valeria de tudo, para
encontrar e trazer o tal selo. Promessas de casamento às filhas de filatelistas
renomados, estavam entre as muitas artimanhas usadas pelos jovens oficiais, que
competiam entre si, para ver quem traria o tal "olho-de-boi". Durante quatro dias,
ninguém dormiu. A noite era usada para perpetrar a operação batizada "A busca do
Santo Graal". Todas as fontes de informação possíveis e imagináveis foram acionadas e
esgotadas, para encontrar o selo sagrado, quero dizer, raro.
Como sempre acontece, quando o prazo é exíguo, os quatro dias passaram rapidamente.
Naquela noite, os oficiais se reuniram para ver se o resultado fora positivo. O
Imediato abriu a reunião:
- Senhores! Chegamos ao nosso "dead-line"! – disse ele, praticando um pouco de seu
inglês – Quero saber se nossa busca foi bem-sucedida. O aniversário do "chefe" será
amanhã e não podemos dar um presente noutro dia.
- Imediato! – levantou-se o tenente Figueira, um jovem e vivaz oficial, com uma
pequena caixa em suas mãos – Fiz tudo que pude, mas não encontrei o tal selo. Mas,
mesmo assim, tenho boas notícias!
- Avance! – respondeu o Imediato, para que ele mostrasse a todos suas "boas notícias".
- O tenente Marinho conseguiu! Aqui está! - disse ele, esticando suas mãos abertas
para destacar a pequena caixa que elas apoiavam - Mas ele pediu para ausentar-se
desta reunião, pois havia prometido jantar na casa de um certo empresário, cuja filha
lhe dera o selo. Ele me confessou que a garota é mais feia do que desastre de trem,
mas o sacrifício valeu a pena!
A reunião acabou ali mesmo! Todos se levantaram e começaram a dar vivas ao novo herói
do "Intrépido". Daquele momento em diante, Marinho passou a ser conhecido como o "São
Jorge" do navio, ou o oficial que enfrentou o "dragão" para salvar a tripulação.
Palmas e mais palmas foram dirigidas à pessoa do destemido combatente.
Passada a euforia, o Imediato reassumiu sua posição de mando e decretou:
- Senhores! Um problema já foi resolvido! Mas ainda temos um outro, talvez de maior
complexidade!
- Outro problema? - todos os oficiais perguntaram em uníssono, como se houvessem
treinado para cantar no coral de Natal - Qual é esse outro problema?
- Todos os senhores conhecem bem a fama de nosso Comandante quanto à disciplina e,
principalmente, a tudo o que possa lembrar qualquer tipo de insubordinação. -
explicou o Imediato.
- E daí? - novo coro pode ser ouvido, parecendo ser uma apresentação combinada há
muito.
- Os senhores já se deram conta de que precisaremos cantar "Parabéns a VOCÊ"? E se o
Comandante entender isso como uma afronta? Como não pretendo hospedar-me no bailéu, e
acredito que ninguém pretenda, devemos achar uma forma de contornar esse problema.
- Muito simples! - declarou o tenente Silva - Nós colocaremos a música de fundo e
apenas bateremos palmas. Basta que ninguém cante e tudo sairá bem!
- Grande idéia! - falou o tenente Figueira, aliviado com a solução rápida e simples
para problema tão complexo.
- Aprovado! - disseram em coro outros cinco oficiais.
Tudo acertado, sem nenhuma dúvida, repassaram as etapas a serem seguidas na manhã
seguinte, quando o Comandante seria convidado a tomar café com os oficiais na Praça
D'Armas (local onde os oficiais se reunem para suas refeições e lazer)
do "Intrépido", um hábito muito comum naquele navio às sextas-feiras. Contudo, ao
adentrar o compartimento, todos os oficiais se levantariam e começariam a bater
palmas cadenciadas sob o fundo musical (apenas instrumentado) do
insubstituível "Parabéns a você".
Todos baixaram terra (isto é, saíram do navio) felizes, pois tudo havia sido
minuciosamente combinado. Nada pode dar errado, assegurou-se o Imediato, ao se
despedir da tripulação e ir para seu merecido descanso.
Nada mais havia com que se preocupar, presente providenciado e procedimentos
acertados. Faltava apenas conduzir o evento que, já acertado previamente, deveria
correr às mil maravilhas.
A sexta-feira iniciou-se com um lindo raiar do nosso astro-rei. Os raios solares,
projetados no convés do "Intrépido", formavam uma espécie de tapete luminoso, dando
as boas-vindas para o temido, porém muito amado, Comandante.
Ao ver o Comandante se aproximar da prancha do navio, o oficial de serviço deu um
discreto alarme para que todos corressem para a Praça D'Armas e ficassem prontos para
a recepção surpresa.
Cansado, porém plenamente realizado com a satisfação do dever cumprido, o tentente
Marinho escorava-se nas anteparas do navio, fazendo de tudo para manter-se acordado.
Sua missão, iniciada com um jantar e seguida de uma "noitada" familiar em uma boate
da zona Sul, só terminara por volta das cinco da manhã. O valente oficial chegou
aos frangalhos no navio, lá pelas seis horas, e internou-se em sua cama para dormir
um "reparador" sono de 55 minutos, pois o Comandante costumava chegar, todos os dias,
pontualmente às sete horas.
Embora houvesse ingerido quase um litro de café puro, o bravo tenente mantinha-se de
pé e de olhos abertos com um grande sacrifício. Pelo menos, o bafo de álcool havia
sido sensivelmente reduzido com a ingestão de uma beberagem providenciada pelo "doc"
(médico do navio).
Disposto a participar ativamente daquela grande comemoração, para a qual sacrificara-
se na noite anterior, Marinho faria de tudo para marcar sua presença no evento. Mesmo
dispensado pelo Imediato, fez questão, insistindo muito, para participar. Em face de
seu ato de heroísmo, acabou sendo autorizado a permanecer no evento.
- Comandante para bordo! - anunciou o fonoclama (sistema de alto-falantes de bordo),
servindo como mais um reforço para os preparativos.
O som foi ligado baixinho, para dar o clima. Cada um se posicionou em volta da porta
de entrada da Praça D'Armas, a iluminação foi diminuída e, assim que o Comandante
adentrou o recinto, começaram as palmas cadenciadas no ritmo da melodia.
Entusiasmado com aquela cena, Marinho despertou de vez e, em altos brados, sem nenhum
acompanhamento de seus colegas oficiais, começou a cantar com toda força de seus
pulmões:
- Parabéns ao SENHOR....
(Do livro "MEMÓRIAS DE UM VELHO CAPITÃO" - em elaboração pelo autor)