Página inicial do portal Autores & Leitores
Quem  |  Autores  |  Leitores  |  Associados  |  Mural  |  Dúvidas  |  Contato  |     PUBLICAR    |
Entrar | Registrar
 Esqueci minha senha
Anúncio ebook Vigilante

Área dos LEITORES

Colunistas

Autores Consagrados

Quadrinhos

Bibiotecas Virtuais

Livros

Novos autores

Downloads

Lançamentos

Ofertas

Informações

Autores & Leitores  >  Leitores >  Novos

Galeria de Autores & Leitores

Caro leitor,

Este é um trabalho já aprovado pelo público!

Sinta-se à vontade para, depois de lê-lo, deixar seus comentários.

Bons Textos!

> Ler outra crônica <   < Ler contos > < Ler poemas >

Um ato apenas...

por Liwa


					    
A fila permeia o longo pátio lúgubre e fétido, contornando a parede suja e depredada que o separa daqueles que já perderam o direito à luz do sol. São Marias, Joanas, Ritas... Só mulheres. Bonitas, feias, jovens, velhas, alegres, tristes, barulhentas, taciturnas, bizarras e até felizes. Mães, esposas, namoradas, amantes ou solidárias prostitutas. Vestem-se da melhor forma que a condição social permite. Gosto não se discute, é uma questão de cultura. Nos olhares ansiosos dirigidos à porta de acesso ao pavilhão da detenção, as marcas de noites insones e lágrimas derramadas. O burburinho das conversas veladas sobre o andamento dos processos mistura-se ao farfalhar dos plásticos e papéis manipulados nervosamente no afã dos últimos preparativos para mais uma insólita visita. Sapatos e calças compridas não são permitidos, assim, as retardatárias trocam de roupas ali mesmo, na fila. Não há tempo a perder e o lugar deve ser garantido. Excitadas com a eminência do contato íntimo, as mais jovens ajeitam os cabelos e retocam a maquiagem - como a ocasião exige. Cabisbaixas, num desalento de fazer pena ao mais frio expectador, as mais idosas arrastam-se lentamente, arcadas sob o peso dos “jumbos” repletos de compras destinadas àqueles que vegetam sob o peso de seus erros. Embora as expectativas divirjam, todas se irmanam na dor comum. Quando finalmente a porta se abre, uma brisa de ânimo as impele para frente, num movimento uniforme. A fila agora já atinge a rua. Lentamente vão entrando, identificando-se ao investigador de serviço e dirigindo-se à degradante e inútil revista das policiais femininas. É hora de seguir em direção à gaiola, um cômodo cercado de grades que dá acesso à carceragem. Dali já se pode ver o exíguo espaço, onde aglomerados, com a mesma ansiedade no olhar, homens jovens, velhos, bonitos, feios, de todas as raças, credo e cor, buscam entre as que chegam a que será nas próximas horas, seu único elo com o mundo. Limpos, barbeados e perfumados, passaram também eles, por um ritual especial para prepararem-se e preparar o ambiente, para receber aquela que hoje é a pessoa mais importante do mundo. Nos barracos - as celas de confinamento - mantas e cobertores muito limpos, estendem-se em varais improvisados. São biombos que dividem o pequeno espaço da cela em compartimentos minúsculos, onde com privacidade, recebem suas visitas íntimas e juram amor eterno e mudança de vida no futuro. No espaço comum, aqueles que recebem a visita das mães, conduzem-nas até pontos determinados para que se acomodem em meio à aglomeração. Ali, sentados no chão, um diante do outro, olhos nos olhos, trocam informações e carinhos que o momento lhes permite, como se o tempo parasse e os delitos que levaram a essa situação nunca tivessem acontecido, o futuro não existisse e tudo não passasse de um pesadelo. Enquanto isso, os que não recebem visita preparam o café e o servem com guloseimas que os outros receberam nesse dia. O toque cruel de uma sirene põe fim à visita. O pano desce e sem aplausos cada uma segue para seu dia-a-dia, ciente de que representou bem seu papel naquele ato, mas que essa tragédia jamais terminará.
Copyright Liwa © 2006
Todos os direitos reservados.
Este trabalho já foi visitado 1166 vezes.

ENVIE este trabalho para um(a) amigo(a). ESCREVA para Liwa.

Comentários dos leitores

"O pano desce e sem aplausos..." Triste peça nada teatral.

Postado por lucia maria em 18-12-2012

O peso da privação da liberdade também cai sobre os lares. A prisão, na mioria das vezes justa ao reeducando, acaba, de certo modo, "prendendo" a família também...

Postado por Célio Dubanko em 18-09-2010

Um alto toque de realismo! Muito bom!

Postado por Paulo em 27-09-2006

Descreve a cena com a dureza que é. Transmite a emoção dura e crua, e seria muito interessante continuar abordando este tema.

Postado por Marcelo Torca em 19-09-2006

Liwa, por um momento, me senti no meio desse pessoal que, por culpa da sociedade ou deles próprios, padece com seus erros e estendem seu sofrimento aos seus familiares. Muito boa narrativa. Meus parabéns por mais esse trabalho!

Postado por Silvino em 15-09-2006

COMENTE ESTE TRABALHO, DIZENDO QUAL FOI A IMPRESSÃO QUE ELE LHE CAUSOU.


> Ler outra crônica <   < Ler contos > < Ler poemas >

Autores & Leitores
  • Copyright A&L © 2005-2013
  • Todos os direitos reservados.