Dentre muitos aspectos interessantes, o Brasil apresenta um que merece destaque
especial: a diversidade de costumes, gostos e, principalmente, do linguajar entre as
várias regiões do país. Graças a este último, há uma lista sem fim de casos
pitorescos, vários deles, decorrentes de uma interpretação incorreta dada às
palavras, em função da região de origem dos interlocutores.
Foi o que aconteceu, quando a Corveta “Companheiros” atracou (aportou, para os não-
marinheiros) em uma pequena cidade da região Sul......
A chegada da “Companheiros” havia sido anunciada com grande antecedência e, em função
da pouca opção de lazer dos moradores da pequena cidade sulista, aquilo seria um dos
maiores acontecimentos do ano, perdendo em importância apenas para a festa do
padroeiro da cidade. Afinal, não era todos os dias que um navio da “gloriosa Marinha
de Guerra” visitava a cidade. Havia até quem afirmasse que fazia décadas que tal fato
ocorrera da última vez.
- Meu avô ainda estava fazendo o serviço militar, quando veio um navio de guerra
aqui! - afirmou um garoto da cidade, ao comentar com seu colega de escola - E olha
que ele morreu faz tempo!
- Minha avó ainda era um bebê, quando minha bisavó visitou o navio. - respondeu o
outro.
- Ah! Quem sabe, o capitão me deixa dar uma volta no navio. - suspirou uma menina,
que conversava com os dois.
Toda a cidade se preparou para a chegada do navio. Até uma pequena feira de
artesanato e produtos típicos foi montada na pracinha, localizada bem em frente ao
pequeno porto da cidade. Vinhos, licores, malhas, lembrancinhas de todo o tipo, além
de doces e iguarias da região, aguardavam os ilustres visitantes, em barraquinhas
coloridas, guarnecidas pelos moradores, muitos deles trajados com suas vestimentas
típicas.
Para valorizar, mais ainda, a chegada da belonave, sua atracação foi recebida pelo
Prefeito, devidamente acompanhado pelas demais autoridades da cidadezinha. Uma banda
de música tocava dobrados, enquanto fogos de artifício estouravam ao fundo. Uma
enorme faixa saudava os valorosos “lobos-do-mar”, dando-lhes as boas-vindas. Um
coral, formado pelas crianças da escola pública local, cantava o “Cisne Branco”, ao
mesmo tempo em que agitavam suas bandeirinhas do Brasil. A professora de música,
emocionada com a ocasião, remexia-se à frente do coral, enfatizando a condução do
grupo, com movimentos amplos e visíveis, mesmo de longe.
Para muitos tripulantes, aquela era a primeira oportunidade de conhecer uma típica
cidadezinha do Sul do país. Esse era o caso de Raimundo Nonato, um cabo velho que
fazia sua primeira viagem à região Sul.
Por ser originário da região Nordeste, sempre que possível, Nonato era designado a
embarcar nos navios que se dirigiam para as regiões Norte ou Nordeste. Assim, ao
menos de vez em quando, ele encontrava um meio de visitar seus familiares.
Para Raimundo Nonato, que deixara, há mais de 20 anos, seus pais e irmãos no interior
do Ceará, para servir à Marinha, no Rio de Janeiro, onde constituíra numerosa
família, aquele expediente era a única forma de matar saudades de seus entes queridos
e da sua terra.
Pessoa de boa índole, considerado por todos como um verdadeiro “coração de mãe”,
Nonato estava sempre pronto para ajudar quem quer que fosse. Mas, o sujeito era
totalmente emocional e, quando provocado, “virava bicho”. Seu tamanho avantajado e
sua cara redonda, que ficava completamente vermelha, quando ele era provocado,
assustava qualquer um que não o conhecesse bem. Quando isso ocorria, o militar ficava
descontrolado e falava tudo o que lhe vinha à mente. Mas tudo aquilo era “jogo de
cena” e ele jamais fizera mal a ninguém. No final, acalmava-se com a mesma rapidez
com que se inflamara.
Atracado o navio e terminadas as fainas (atividades) corriqueiras da atracação, boa
parte da tripulação foi autorizada a “baixar terra”(1). Como de costume, os “filhos
da terra” (militares originários da região) foram liberados em primeiro lugar e,
somente depois, os demais tripulantes.
- Óxente! - exclamou Nonato, ao desembarcar do navio, encantado com a beleza das
inúmeras “casas de enxaimel”(2), que avistou - Esse lugarzinho é “da moléstia”(3)!
- Auto lá! - interrompeu um guarda, com seu sotaque sulista carregado, assim que
escutou o que Nonato havia falado - Aqui todos estão sãos!
Meio contrariado com o que acabara de ouvir, Nonato se afastou, procurando juntar-se
aos outros colegas de bordo.
- Que gente mais esquisita! - pensou - Acham-se todos santos!
Estranhando tanto o sotaque do guarda sulista como as palavras que acabara de ouvir,
Nonato dirigiu-se para a feirinha. Desejava comprar um “good”(4) para “Dona Maria”(5)
e seus filhos menores. Algo que coubesse no seu apertado orçamento e que pudesse ser
levado a bordo.
Cauteloso com o pouco dinheiro que dispunha para “goodiar”(6), Nonato resolveu dar
uma volta pela feirinha, para ver as opções. Começou pelas comidas e bebidas, parando
em frente a uma barraquinha cheia de queijos defumados, todos cuidadosamente
embalados em papel alumínio.
- Ô, cabra! - disse ele, no seu jeito peculiar de chamar a atenção das pessoas - Quê
é isso aqui?
- Isso é queijo, senhor! - respondeu, de modo formal, o vendedor, que usava um traje
tirolês, um tanto apertado para a sua barriga de chopp e meio confuso com o sotaque
do freguês - Mas não é de cabra, não!
- Quer dizer que isso é queijo, mas “não é pra cabra”(7)? Então, serve pra quê?
- O queijo é de vaca, senhor!
- Óxente! Que povo mais “doidio”! - resmungou Nonato - Eles dão queijo pras vacas!
- Meu senhor, aqui só temos queijo de vaca! - suando frio pelo seu traje apertado e
sem entender direito o que Nonato lhe dizia - O senhor está interessado em
experimentar um pedaço de queijo defumado?
Aperreado(8) com a pergunta, Nonato soltou um desabafo:
- Isso tá me cheirando a provocação!
- Não, meu senhor! - respondeu confuso, o vendedor, agora suando mais ainda, ao ver a
cara de Nonato começando a ficar vermelha - É apenas o defumado que tem esse cheiro.
- Escute aqui, hômi! - com sua cara completamente vermelha, Nonato já não mais
pensava normalmente - Tu tá pensando que eu sô vaca, para comer esse seu queijo que
tá fumado?
- Não, senhor! Eu só estou querendo ser gentil. - respondeu o vendedor, enquanto
passava um lenço em seu rosto completamente molhado de suór.
- Se aprume, ô cabra! Vá ser gentil com seus amiguinhos, pois eu num aceito gentileza
de hômi, pois eu não sô fruta!
- Lamento, senhor! Mas, também não temos nada de frutas aqui!
Depois do que considerou como a “gota d’água”, Nonato estourou de vez.
- Tú tá me chamando de fruta, ô cabra? - disse colocando o dedo em riste, bem na cara
do vendedor, que já estava apavorado com a cena - Fique sabendo que eu e os meus
companheiros do navio, vamos “arriar”(9) tudo isso aqui!
Depois de falar isso, Nonato se afastou da feirinha, batendo com força seus pés no
chão, enquanto se dirigia ao navio. Minutos mais tarde, a bordo, já estava
conversando calmamente com seus “campanhas”(10). Ele já não mais se lembrava da
situação e resolvera comprar seus “goods” no próximo porto.
Na feirinha, a notícia correu como fogo em mato seco. Todos comentavam sobre a ameaça
do marujo, que prometera arriar toda a praça. Ninguém sabia ao certo o que seria
isso, mas a ênfase que o tal marujo dera à expressão, só podia significar que alguma
coisa muito séria poderia acontecer com tudo e todos naquele lugar. Um clima de
apreensão se instalou entre os vendedores, deixando-os aflitos por todo o dia.
No final da tarde, ao pôr-do-sol, como é de costume na Marinha, o navio deu início
ao “Cerimonial da Bandeira”(11). O som forte do fonoclama (alto-falante) do navio,
foi ouvido em toda a praça:
- “Companheiros”, sinal para a Bandeira! - como de costume, o nome do navio é chamado
e depois vem a informação para todos os seus tripulantes. Nesse caso, informando a
todos do navio o início do Cerimonial, que começa exatamente cinco minutos antes do
horário de arriar o pavilhão nacional.
Ao ouvir aquela mensagem incompreensível, um murmúrio geral podia ser ouvido na praça:
- O que será que esses marujos estão aprontando lá dentro? - os moradores se
perguntavam, apreensivos - Será que vão bombardear a cidade?
Ao pôr-do-sol, foi dado o aviso:
- “Companheiros”, arriou! - imediatamente, a Bandeira Nacional começou a ser arriada,
de forma solene, como prevê o Cerimonial.
Enquanto isso, na pracinha, todos saíram correndo em disparada, não ficando uma viva
alma para saber o que significava aquela estranha mensagem.
(1) desembarcar do navio ou, como também se fala a bordo, “ir para o chão”
(2) casas com esquadrias de madeira, típicas das cidades de colonização alemã
(3) muito bacana, legal
(4) nome dado a bordo para qualquer lembrança ou presente comprado em viagem
(5) forma com que os marujos referem-se às suas esposas
(6) comprar “goods”
(7) não serve para gente
(8) incomodado, pouco à vontade
(9) botar abaixo, derrubar
(10) companheiros de bordo, colegas de sua turma
(11) Cerimônia de hastear ou arriar a Bandeira Nacional. O hastear é feito às 8 horas
da manhã e o arriar é realizado no horário local do pôr-do-sol. O sinal para arriar a
Bandeira é dado pela palavra “arriou”.
(Do livro "MEMÓRIAS DE UM VELHO CAPITÃO" - em elaboração pelo autor)