1997!.. Definitivamente, este não é um bom ano para os nossos irmãos
carentes. Em pouco espaço de tempo, perderam três dos seus anjos protetores: Betinho,
Princesa Diana e Madre Teresa de Calcutá. Três perdas lastimáveis. Certamente o céu
ficou muitíssimo mais rico com a chegada deles, mas, em conseqüência, os pobres
ficaram mais pobres.
A morte dessas pessoas, tão boas e tão caridosas, fizeram-me voltar à infância. Senti
uma saudade enorme dos meus verdadeiros anjos protetores, papai e mamãe, que também
já partiram para enriquecer o céu. Eles foram os nossos primeiros catequistas e nos
ensinaram o maior de todos os mandamentos que é: amar a Deus e aos nossos irmãos.
Lembrei-me do mingau de fubá que o papai nos preparava, todas as manhãs, e nos fazia
tomar, dizendo que ficaríamos fortes e inteligentes.
Parece-me vê-lo, com um prato fundo de mingau nas mãos, distribuindo, às colheradas,
para nós cinco sentados à sua volta. De vez em quando um perguntava, empanturrado:
- Papai, onde é que eu cuspo?
Hoje posso compreender a importância daquele mingau em nossa formação física. Graças a
Deus e a ele, crescemos fortes e saudáveis.
Vi, como se fosse hoje, no nosso quintal grande e cheio de árvores frutíferas, papai
colhendo mamão verde; e com um bambu enorme, futucando os cocos secos, até caírem no
chão. Cocos, estes, que eram a matéria prima para a mamãe fazer doces para vender. Com
outro bambu, com uma latinha na ponta, papai colhia as mangas e nós as pegávamos com
um saco de estopa enfiado em duas vassouras. Tudo que colhíamos era vendido, fiado, em
nossa venda. Só que muitos não pagavam. Conclusão: falimos.
Numa ensolarada manhã, em que já tínhamos colhido, lavado e colocado a produção
de mangas sobre a mesa da área, para secar, passaram as alunas do internato do colégio
Nossa Senhora do Carmo, em seu passeio dominical, acompanhadas, como sempre, de uma
freira. Assim que elas viram as mangas rosas e espadas, madurinhas e cheirosas, foram
logo pegando as frutas e dizendo eufóricas:
- Amanhã eu pago. No colégio lhe dou o dinheiro. Depois eu acerto.
Você pagou? Nem elas.
Veio-me também na memória a casa do Dr. Pedro, único médico da cidade. Era uma das
poucas casas que já tinha geladeira. Quando mamãe ia visitá-los, eu a acompanhava só
para tomar água gelada. Certo dia,ganhei uma manga gelada. Um “must”! Nunca me
esqueci!
E o caminhão repleto de maçãs vermelhas, grandes e gostosas, que todo mês chegava em
Aimorés, MG? I-nes-que-cí-vel.
Ninguém precisava anunciar a sua chegada. O perfume inigualável das maçãs Argentinas
era uma alegria para os que podiam comprar e um tormento para os que não podiam.
Lá em casa, quando um ficava doente era muito paparicado e tinha até o direito de
comer uma maçã. Eu gostava de adoecer.
Na minha sabedoria de criança, (minha tia já havia falado que eu era sabida, só que eu
não sabia que era tanto) inventei que estava com febre. Enfiei-me debaixo de um grosso
cobertor, fiquei tremendo e batendo queixo para impressionar.
Papai, esse sim, que era sabido, fingindo acreditar na minha encenação, colocou a mão
na minha testa, deu uma piscadela de olho para mamãe e disse.
- Nossa Senhora do Carmo! Veja só, Madalena, como a coitadinha está ardendo em febre! -
E foi depressa comprar o meu remédio.
Daí a pouco ele chegou com uma baita maçã.
Na mesma hora, como um verdadeiro milagre, a febre passou. Pulei da cama, bem
disposta, peguei o meu "antitérmico", dei uma bocada e fui comer o resto no portão da
rua. Não dei um pedaço a ninguém. Afinal, quem estava doente era eu. Os outros estavam
com saúde. E eu também.