Um Diário Como Testemunha
Nove milhões de dólares. Saldo devedor: Trinta mil reais.
Vinte e três de janeiro de dois mil e seis.
Não sei o que acontece agora. A mente está distante e não há nada para se fazer. Meu
sócio me abandonou coagindo-me delicadamente a preencher doze mil reais em cheques
totalmente sem fundos, há dois meses atrás.
Acabo de chegar do litoral, onde passei vinte e cinco dias maravilhosamente bem.
Final de janeiro, contas atrasadas, aluguel, água, luz, telefone... e não tenho a
mínima idéia de como ganhar dinheiro neste momento.
Meu ex sócio é meu fiador e está me pressionando para desocupar o imóvel, sendo que
meu contrato vence daqui a quatorze meses.
É muito triste suportar humilhações quando se trata de pessoas que se acham poderosas
e no momento a única cousa que tenho certeza é que meus nervos estão aflorando a cada
instante.
Há algo estranho no meu computador. Percebo que não está como deixei. Parece-me que
as fotos não estão na mesma pasta e também está muito lento. O teclado está com uns
sinais de sujeira, sendo que limpei muito bem antes da viajem a São Lourenço.
Estou incomodada com minha alergia, com a pele muito queimada de sol. É horrível
tomar o sol de janeiro, ainda mais com o corpo molhado de água salgada. Vou fazer uma
pausa para um cigarro e telefonar para meu assistente. Preciso que ele me entregue a
chave da casa que deixei em seu poder. Vinte e três de janeiro, vinte horas e dez
minutos, horário GTM.
Que absurdo! Três ligações para meu funcionário e sua mãe me atende falando não saber
onde seu filho está. Não sabe da minha chave, não me cobrou o dinheiro que devo a seu
filho, e falou comigo num tom estranho e muito suspeito.
Preciso relaxar. Vou abrir o Messenger e teclar com alguém. Talvez uma conversa com
amigos possa me ajudar tranqüilizando meus nervos.
- Boa noite! Como vai?
- Olá amiga! Tudo bem?
-? Uma gostosura! Como sempre!
- Que foi que você falou? Você bebeu?
-? Somente umas biritas!
Eu não! Não fui eu que escrevi esta frase maluca.
- Desconfio que o sol lhe faça mal. Você precisa descansar minha amiga.
- Colega presta atenção! Eu não estou escrevendo o que você lê em sua tela, não sei o
que está acontecendo. Acho que estão invadindo meu espaço.
- Hei! Você aí do outro lado. Pode me dizer o que está acontecendo? Porque invadiu
meu MSN?
- Minha amiga... Acho melhor eu desligar. Você não está bem?
- Não estou mesmo! Estou enchendo a cara e hoje vou dançar nua na NET para todos.
(Meu Deus! Eu não estou escrevendo estas maluquices).
- Por favor! Quem está fazendo isso?
- Uma pessoa que você nem imagina! Sorrisos.
Vinte e duas horas e quinze minutos.
Vou desligar meu Messenger e trocar minha senha. Eu já ouvi falar de invasão de
senha, mas nunca pensei que poderia me acontecer isto. Quem será que teve esta
ousadia! Bem que desconfiei quando liguei meu computador. Estava tudo fora de lugar.
Agora acabei de passar vergonha com um amigo. .
Pronto! Trabalho feito! Agora com uma senha de alta segurança.
Estou abrindo a boca. Vou descansar para acordar amanhã bem cedo. Há muito para se
fazer, embora eu ainda não saiba como.
Vinte e cinco de janeiro, oito horas e vinte minutos. Hoje o dia amanheceu nublado.
Meu neto mora comigo e eu gosto muito dele. Ele só tem treze anos e é um garoto muito
esperto. Parece uma lingüiça pendurada, igual àquelas que minha nona pendurava no
cabo de vassoura, lá na despensa da fazenda.
Meu neto é magro, mas come feito um leão.
Eu fico apreciando ele comer, acho que todas as crianças deveriam comer muito. Ele
joga futebol na escola e também vive no campinho aqui perto da casa. Neste momento
está dormindo. Enquanto eu não preparo o café e chamo-o umas trinta vezes, ele não se
levanta para buscar o pão. Depois que ele acorda faz tudo rapidinho, até mesmo sem
pedir que o faça.
Preparei o café e já tomei três xícaras. Agora vou ligar meu computador, ler e-mails,
apagar e-mails indesejáveis e tentar digitar alguns textos para o trabalho com a
comunidade.
Hoje à noite tenho vinte e dois jovens esperando por novidades.
Trabalho na área de conscientização ambiental através das artes cênicas, totalmente
sem apoio do governo municipal e outros. É muito difícil a vida de um voluntário. Nem
mesmo a água que bebemos consegue encontrar alguém que nos ofereça de graça. O bom
desta história, é que tudo acaba sendo compensador, por causa do crescimento de
pessoas bem informadas e satisfeitas com o nosso trabalho.
Nove horas e vinte e cinco minutos. Que horror! Será que perdi o juízo de vez ou
estou de frente com um fantasma?
Um e-mail na minha caixa postal falando sobre nove milhões de dólares?
Vamos ver o que temos aqui... um parente meu com sessenta e dois anos de idade morreu
em um acidente de avião e com ele estavam mulher e filhos? Data do acidente... vinte
cinco de dezembro de dois mil e três.
Local... Cotonou África.
Estranho! Não reconheço este nome entre meus parentes. Desconfio ser um trote ou
alguém querendo extorquir dinheiro. Também pode ser alguém querendo se vingar... mas
de que?
Vou responder fingindo que acreditei em cada palavra e vamos ver o que acontece.
Enquanto isso trabalho um pouco.
Escrever contos e poesias. Não me traz dinheiro, todavia, acho que estou em alta
agora. Tentarei criar um bom texto para a próxima Antologia. Quem sabe um dia eu
consiga publicar meus manuscritos que estão guardados. As páginas estão amareladas e
algumas até roídas pelas traças. Espero que minha memória não me falte quando eu
conseguir apoio para divulgá-los. Para quem esperou mais de vinte anos, não custa
nada esperar mais vinte.
Vinte e seis de janeiro, dez horas em ponto.
Hoje eu acordei tarde e sem vontade para fazer qualquer cousa. Vou ler e-mails e mais
nada.
Nossa! Outro e-mail do suposto advogado que mora na África. Ele parece estar
convencido de que realmente tem nove milhões de dólares para me dar, mas ele me pede
quarenta por cento para fazer a transação.
Pensando bem, não custa nada lhe dar essa quantia, eu não tenho mais nada para
perder. Embora eu ache tudo um absurdo e muito maluco, vou dar corda para ver onde
isto vai parar.
Dois de fevereiro, onze horas e quinze minutos.
Esta semana não aconteceu nada diferente, exceto meu fiador enchendo minha paciência.
Ele quer que eu entregue o imóvel. Está me pressionando, ameaçando de despejo. Eu não
devo três alugueis. E depois tenho minhas razões por estar em atraso. Ele sujou minha
conta bancária, o nome da minha empresa, e agora quer me jogar na rua? Vou entrar
nesta briga e ver até onde consigo chegar. Pode ser que eu desista. Ou ele ganhe a
causa. Aliás, a causa ele pode ganhar, mas receber será impossível. Não vejo
possibilidades de ganhos extras nos próximos dois anos, a não ser os supostos nove
milhões de dólares.
Mais e-mails em minha caixa postal. Parece-me tão real... Agora ele me pede para
entrar em contato com o banco da África. Vou fazer o que ele me pede. Uma cousa tenho
certeza: Isto vai dar uma bela história. Mais uma para arquivar, talvez. Eu não estou
pensando em dólares agora, e sim num bom prato de arroz com feijão. Há tempo não
degusto uma comida feita por minhas mãos. Minha filha prepara as refeições todos os
dias, por causa das crianças que vão para escola. Eu aproveito e filo a bóia.
Onze de fevereiro, nove horas.
Hoje é meu aniversário. Estou sozinha em casa. Minha filha foi visitar o pai e levou
meu neto com ela. Minha geladeira está praticamente vazia e meu bolso também. Eu não
me incomodo muito com esta cousa de dinheiro. Qualquer tipo de comida me agrada. Vou
passar o dia em jejum, assim emagreço um pouco e convivo mais com o problema da fome.
Vou responder aqueles e-mails malucos que a cada dia chegam mais complicados e depois
vou dormir. Hoje é sábado e na próxima semana tenho que resolver se vou sair desta
casa ou comprar uma boa briga com meu fiador.
Dezoito de fevereiro, nove horas, dez minutos.
Esta noite sonhei com uma enorme ponte caindo sobre minha cabeça. Não me lembro ter
caído, mas... reconheço sentir medo.
Estou abrindo novo e-mail do suposto advogado. Agora ele me pede para enviar
dinheiro. Demorou. É evidente que jamais enviarei dinheiro para honorários. Não tenho
um centavo, e mesmo que tivesse não enviaria.
Vou dizer a ele que não mando dinheiro algum.
Meu fiador agora está invadindo minha privacidade. Minha filha contou-me que ele
esteve aqui um dia desses, quando eu não estava. Comentou também que ele falou sobre
algumas cousas que não deveria dizer jamais.
Eu posso processar ele por isso, porem, vai afrouxar o laço. Pretendo afogá-lo mais
tarde. Tenho outras cousas para ver. Resolvi que irei vender todos os meus pertences
para uma loja de moveis usados. Cansei-me de morar nesta casa e das pessoas que estão
ao meu redor. Vou viajar por um tempo e quando voltar resolverei o que fazer com a
minha vida. Eu sei que a vida não se define, todavia, tenho sonhos que acredito não
ser impossíveis realizá-los.
Sexta feira, 28 de fevereiro, dezessete horas.
Pronto! Agora estou livre das chantagens do meu fiador e de outras cousas que estavam
perturbando meu espírito. Vou passar uns dias na casa de minha mãe e depois viajar
por uns dois meses.
Três de março, dezoito horas. Acabo de instalar meu computador. Há muitos e-mails.
Entre eles, um do advogado estrangeiro. Ele pede para eu enviar o dinheiro para ele.
Vou retornar o e-mail pedindo o telefone e uma conta bancária. Se ele mandar, eu o
pego. Mas acho difícil. Pode ser um bandido internacional ou um malandro bem esperto,
educado para extorquir dinheiro de idiotas e ignorantes. Penso em outra
possibilidade, agora não vou revelar, ainda é cedo para tirar conclusões. Qualquer
precipitação vai estragar meus planos. Tenho que continuar agindo como se eu fosse
uma pessoa sem informação, idiota ao ponto de acreditar em uma herança de nove
milhões de dólares. Talvez seja uma brincadeira de mau gosto para testar meus
neurônios. Estou preparando um dossiê sobre o acidente aéreo. Ele foi real. Porem
descobri que a lista de passageiros daquele vôo, desapareceu na companhia aérea. O
avião estava com sobre-carga, com muitos passageiros a mais do que pedia o
regulamento. A caixa preta foi encontrada e até o presente momento não foi revelada a
causa do acidente. Três pessoas que estavam no vôo e sobreviveram, enviei e-mails e
não mandaram respostas. Procurei o nome do meu suposto parente e não consegui
encontrar em lugar nenhum.
Meu ex fiador e sócio, agora está perturbando minha mãe. Eu não vou pagar minha
divida com a imobiliária. Meus prejuízos por conta da minha desistência pelo imóvel
foram maiores que eu imaginava. Agora tenho que pagar também a multa por ter
desocupado antes do vencimento do contrato.
Não quero pensar mais neste assunto. Meu ex fiador que pague. Ele persistiu na minha
decisão de entregar a casa.
Quinze de março, nove horas, vinte e cinco minutos.
Minha viagem foi ótima. Visitei meus tios que há muito tempo não via.
Estou lendo outros e-mails do tal estrangeiro. Vou enviar um pedindo-lhe para que
mande o atestado de óbito e um documento do banco onde meu suposto primo fez o
investimento.
Passei muitos dias fora de casa e noto que meu computador foi invadido novamente. Eu
tinha umas fotos da minha nona e de outros parentes. Agora não as vejo. Parece-me que
alguém está entrando no meu computador. No Messenger não entraram mais, embora às
vezes encontro minha caixa de e-mail vazia. Alguns amigos reclamam por eu não
responder aos seus e-mails. Realmente nem todos tenho tomado conhecimento.
Dezoito de março, treze horas e cinco minutos.
Acabo de abrir mais e-mails do estrangeiro. Estou surpresa! Aqui tenho um atestado de
óbito e documentos do banco. Parecem reais. Eu não acredito. Estou pensando em falar
com a policia. Vou viajar amanhã e procurarei um DP em outra cidade onde ninguém me
conhece. Acho melhor não alarmar este caso. Tenho filhos e netos. Se for uma
quadrilha de bandidos, eles correm o risco de seqüestro.
Estou sem inspiração para criar novos textos. Está vencendo o prazo para enviar
trabalhos para a editora e ainda não terminei os meus.
Dezenove de março, treze horas, trinta minutos.
Estou em uma delegacia longe de casa. A delegada me informou que estes e-mails são
criminosos. Porem, a policia não pode fazer nada. Não é considerado crime a troca de
e-mails. Não em nosso país. Ela nem mesmo quer documentar o caso para assegurar minha
inocência, caso venha surgir algum problema sério mais tarde.
Penso eu estarem me envolvendo numa transação perigosa. As características causam
desconfiança. Posso estar envolvida inocentemente com o tráfico de drogas ou de
crianças. Talvez estejam me usando como isca ou querendo alguém para incriminar, caso
sejam apanhados de surpresa.
Não achei certo a delegada se desobrigar de um BO. Se algo me acontecer ela vai negar
que eu a procurei. Voltarei para casa e tentarei resolver sozinha.
Vinte e dois de março, quatorze horas, dez minutos.
Acabo de enviar um e-mail ao estrangeiro. Estou simulando um acidente. Vamos ver o
que ele fala sobre o assunto. Ele pensa que estou acamada. Enquanto isso ganho tempo
para tentar descobrir mais sobre ele e sobre o acidente aéreo. Estou bancando a
detetive do meu próprio caso. Não sei se dará certo. Afinal, não é minha área. Bem,
sou atriz de teatro. Tudo o que posso fazer no momento é brincar de gato e rato.
Dois de abril, onze horas, quinze segundos.
Não recebo e-mail do estrangeiro desde que simulei o tal acidente. Meu ex fiador
também não mais me incomodou. Ele deve ter pagado minhas dividas para com a
imobiliária.
Estou digitando outro e-mail para o estrangeiro. Falo que já me recuperei e que
podemos continuar com as negociações.
Recebi resposta em duas horas. Ele fala sobre uma terceira pessoa que o ajudou na
liberação do dinheiro e que eu não soube me relacionar com o assunto. Ele me pede
para que eu entre em contato com outra pessoa de sua confiança e envie os dados da
minha conta bancária e meu telefone.
Ele parece estar seguro do que faz e falou em fazer uma doação de oitocentos mil
dólares, através da minha conta bancária.
Estou mandando um e-mail intimando-o a comparecer pessoalmente no meu país, já que
ele está com os bolsos extravasando de dólares.
Vinte e um de abril, dez horas, dois minutos.
Esta semana gastei meu tempo digitando texto e raciocinando sobre todos os
acontecimentos nos últimos meses.
Desde que voltei da minha viajem ao litoral, tenho passado por sérios problemas,
tentando solucionar um enigma.
Estou abrindo novamente minha caixa postal e agora vamos ver a resposta do suposto
milionário.
Espantoso! Ele escreveu sobre nos conhecermos. Quer que eu envie fotos minhas e me
parece ansioso sobre o suposto encontro. Mandou um numero de telefone para ver se eu
me atrevo ligar. É evidente que ele quer descobrir meu endereço através do meu
telefone. Para ele eu não passo de uma garota ingênua, ou uma mulher burra, ignorante
ao ponto de enviar meu telefone e minhas fotos. Talvez ele tenha meu endereço e algo
mais.
No final ele mandou um arquivo. Vou abri-lo.
Nossa! Uma foto excitante! Não sei ao certo, mas se contar os pacotes, vejo agora
mais ou menos os nove milhões de dólares fotografados. Um estimulante para que eu me
entregue de vez. Quem sabe ele não queira mandar um carregamento de drogas em meu
endereço e junto à foto das minhas belas pernas. Ficará mais fácil para ele achar um
culpado, caso a policia barre o carregamento. Ou talvez, ele queira complicar a minha
vida para sempre, como uma espécie de vingança.
A partir de agora tudo pode acontecer. Já tenho muitas dúvidas sobre quem manda estes
e-mails. Existem muitas formas de receber uma divida. Depende de como o credor exige
que seja feito o pagamento.
Se um homem é procurador de um milionário e o investidor morre, é muito natural que
ele se torne uma pessoa ambiciosa. O estranho deste caso é o fato desse procurador
não agir por meios legais.
Por outro lado, é hora do gato dar o bote antes que o rato se esconda não sei onde ou
resolva roubar o meu pescoço durante a noite. Eu estou falida, mas ainda posso
receber uns trocos por conta desta história.
Eu andei me perguntando se o tal homem procurador do suposto falecido e suposto meu
parente, não seria um cavaleiro apaixonado querendo dar o golpe do baú numa artista.
Na mente dele pode estar ocorrendo alucinações. Mal sabe ele que neste país, artista
amador não ganha nem para comprar lanche no intervalo dos espetáculos. Existe outra
hipótese. Pode ser que o tal, meu parente falecido, esteja gozando da mais perfeita
saúde e com um seguro milionário nas mãos. Cede-me uma herança milionária, e coagida
me faz retirar o dinheiro. Depois é só apontar uma arma na minha cabeça e dar um fim
na testemunha.
Puxa! Como é difícil ser detetive! Acho que não dei sorte com nenhuma profissão que
escolhi embora como detetive não seja uma escolha.
Desconfio estar na hora de entregar o caso a policia e exigir que ela aceite.
Pensando melhor, acho um desaforo para comigo. Eu monto um dossiê, gasto meu tempo
investigando passo a passo, e na hora de prender o culpado a policia entra em cena e
ganha todo o prestigio? Garanto que a policia não faria em um ano tudo o que eu fiz
em três meses.
Afinal, o que estou fazendo? Eu ainda não descobri nada! Eu tenho os fatos relatados
no papel, mas o ator principal ainda é um enigma. Talvez o fantasma da internet.
Não consigo entender o porquê ter sido eu a escolhida para esta atuação. Detesto
quando sou obrigada interpretar a vitima. Nunca deixam que eu decida sobre o castigo
que receberá o vilão. Neste caso é necessário conhecer um fantasma! Tarefa difícil...
Hoje me cansei por tantas análises e investigações. Vou descansar e pensar se
entregarei ou não este caso para a policia federal.
Vinte nove de abril. Dez horas, cinqüenta e dois minutos.
Hoje é sábado e preciso terminar um texto. Nada especial neste dia. Continuo sem
dinheiro, desempregada, sem companhia. Sinto-me presa, vendo o sol nascer quadrado
todos os dias.
Alguém está apertando a campainha. Quem será agora! Enquanto atendo a porta, fumo um
cigarro.
Vinte e nove de abril, dezoito horas, cinqüenta e dois minutos, dois mil e nove.
Hoje o dia foi lindo! Não posso compreender tudo o que aconteceu em vinte e nove de
abril, há três anos. Eu tinha deixado meu computador ligado quando fui atender a
porta. Lembro-me como se fosse hoje, aqueles policiais me algemando e em seguida me
jogando num camburão. Eu nunca tinha passado por tantas humilhações.
Tudo era novo. Até mesmo minhas idéias sobre como criar algo fictício através de uma
realidade. Talvez um diário me fortalecesse. Todavia, nada me estimulava naquela
prisão. Eu não conseguia entender o porquê tinham feito aquilo comigo. Eu estava
sendo acusada por tráfico de drogas, quando em verdade nem elas eu conhecia direito.
Os homens tinham tudo. Meu endereço, xérox dos meus documentos, meu telefone, fotos
montadas... e somente eu não sabia como tudo aquilo fora parar nas mãos da Justiça.
Eu nunca enviei nada através de e-mails, nem por outras vias... O fato é que alguém
me prejudicou, premeditando tudo. Eu estava sendo julgada por um crime não cometido e
tudo que havia de testemunha de ambas as partes, era uma denúncia anônima com xérox
de documentos verdadeiros e montagem de fotos.
Quando tentei usar os e-mails que eu recebia em meu favor, fui ignorada pela segunda
vez. A polícia não acreditava. Diziam não ter provas suficientes para incriminá-los.
Seria um desafio muito grande para a policia federal chegar até aquelas pessoas,
então era mais fácil punir alguém inocente, como sempre acontece.
Eu imaginava sobre alguém que por certo estava feliz com os acontecimentos, mas nada
podia fazer. Seria mais um crime perante a lei. Embora eu estivesse certa sobre meus
pensamentos, eles me acusariam de falso testemunho e me jogariam um processo por
danos morais. Minha pena aumentaria e nunca mais eu sairia daquele inferno. Não dava
mais para brincar de gato e rato.
No dia da visita, eu ficava num cantinho tomando sol, quando não chovia, e
dificilmente eu recebia uma visita. Quando alguém aparecia, era para me condenar,
chamar atenção ou aconselhar-me. Esta era a parte mais difícil para enfrentar.
Minha vida estava ficando para trás. Meus projetos, meus sonhos, enfim, todas as
cousas que me deixavam feliz.
Eu ficava olhando para aquelas mulheres, prisioneiras de suas próprias tolices,
outras por suas vaidades, outras por puro prazer do crime. Minha pele estava feia e
meus cabelos maltratados. Minha visão estava turva e meus pensamentos bons se
distanciavam a cada momento. Às vezes eu pensava em vingança, supondo que o bandido
fosse um conhecido.
Minha vida não tinha mais sentido algum. Minha consciência me acusava por não ter
tentado apresentar mais uma queixa na policia federal. Era tarde para tanto e os
longos dias passavam por mim desafiando minha auto-confiança.
Passados dois anos e meio, minha irmã fora me visitar e me lembrou do dia em que eu
fui parar na prisão. Ela chegou a casa e vendo meu computador ligado, salvou o texto
que estava na tela.
Uns dias depois, ela foi salvar umas fotos no disquete e por engano, salvou o meu
texto. Jamais ela imaginara o conteúdo existente naquele texto.
Não tínhamos costume de ler os escritos, uma da outra, mas ela me contou naquele dia,
ter guardado aquele trabalho para mim.
Naquele momento não pensei que havia algo no texto que pudesse me salvar da acusação.
Meu julgamento estava marcado para o próximo mês. Meus advogados não tinham mais nada
que pudesse provar minha inocência, exceto algo novo que viesse surgir.
Naquele dia notei que minha irmã foi embora um tanto triste. Eu pude sentir sua
angústia, pois transparecia em seus olhos plangentes.
O dia do julgamento chegou como um furacão. Eu não acreditava mais ser libertada. Não
havia provas suficientes, somente um milagre poderia libertar-me da prisão.
As cenas ficaram nítidas em minha mente:
Minha irmã foi testemunhar a meu favor e o juiz lhe perguntou.
Jura falar somente a verdade em nome de Deus?
Ela olhou para mim antes de responder e me pediu perdão.
Eu não sabia o porquê ela estava me pedindo perdão, então se sentou na cadeira e meu
advogado perguntou-lhe.
Senhorita. Pode responder se é de seu conhecimento os e-mails que sua irmã recebia?
Doeu em meu coração quando ela fora obrigada dizer a verdade. Realmente ninguém sabia
nada sobre aqueles e-mails. E outra pergunta lhe fora feita:
- Senhorita, não acha estranho o fato de sua irmã ter omitido os e-mails, já que se
tratava de uma suposta herança e que por sua vez, era um direito de todos os irmãos?
Mais uma vez minha irmã teve que responder contra mim. Eu sentia que ela estava mais
aprisionada do que eu. Não podia mentir e nem me defender.
Eu estava esperando pelo menos uma pergunta a meu favor, então aconteceu.
O advogado perguntou a ela.
Senhorita, o que tem a dizer em favor da sua irmã?
Minha irmã levantou-se, olhou para mim e respondeu. Tenho um diário dela, cujo texto
eu salvei no computador no dia em que ela foi apanhada de surpresa. Pode averiguar em
seu computador.
O juiz entrou em recesso por duas horas, enquanto fora feito a investigação.
Não havia nada em meus arquivos. O texto tinha desaparecido e com ele todas as pastas
dos meus documentos.
Naquele dia, meu computador estava aberto em algum lugar do mundo. Eu só não sabia
onde.
Minha irmã chorava. Ela agora seria suspeita. Para a policia, ela teria mentido,
apagado os textos, já que nada tinha encontrado em seu computador. Nem mesmo minha
irmã se lembrava do disquete, cujo texto foi salvo por engano.
Voltei para a cela sem nenhuma esperança. Meu advogado tentou enganar a justiça
simulando uma doença mental. Fui levada ao médico e quando chegou minha vez de ser
atendida, eu comecei a babar e andar meio torta. Ainda eu podia simular. Interpretei
direitinho o papel que me colocaram à frente.
O doutor pediu minha transferência para um hospital psiquiátrico, onde eu era
obrigada tomar comprimidos sem necessidade. Quando dava, eu fingia beber e depois
cuspia no vaso sanitário. Eu interpretava aos poucos, a melhora do meu personagem,
para não tomar muitos remédios.
Enquanto isso, minha irmã trabalhava e me ajudava com minhas despesas no hospital.
Meu advogado de defesa tinha marcado outra audiência e logo após agendar, fora me
visitar. Conversamos muito, até que ele decidiu modificar a defesa. Daquela vez, um
tanto mais complicada. Ele pedia minha soltura afirmando sobre minha suposta doença.
Tentaria fazer o juiz acreditar que há tempo eu estava sofrendo surtos psicóticos e
provavelmente a doença teria me levado à loucura, ao ponto de agir errado sem
premeditação. Eu confessaria o crime, e conseguiria uma condicional para continuar
com o tratamento. Como eu era ré primaria, ficaria mais fácil convencer os jurados.
E assim sucedeu-se. Todavia, na hora do julgamento, minha irmã se lembrou do
disquete. Ainda faltavam alguns segundos quando ela entrou correndo e sentou-se na
cadeira da testemunha. O advogado perguntou.
Senhorita! Não há nada que possa lembrar em defesa de sua irmã?
Ela respondeu chorando. Não! Eu não me lembro de nada! Porem tem aqui o disquete com
o texto salvo. O texto que ela estava digitando quando a policia a levou de surpresa.
E o promotor perguntou:
Mas o que há neste disquete que possa salvar a sua irmã?
Minha irmã respondeu. Eu não sei o que há no disquete.
Ela queria ganhar tempo e conseguira. A audiência foi prorrogada por mais alguns
dias. O disquete fora aberto e para surpresa de todos, estava ali um diário que
testemunhava todas as minhas passagens. O meu diário, salvo por engano por minha irmã.
No dia do julgamento final, fui libertada por não haver provas suficientes para
manter-me na prisão. O júri entendeu que poderia ter-se enganado com os fatos e não
quis assumir as responsabilidades.
Hoje continuo na internet, trabalhando e procurando um fantasma que me humilhou,
roubou três anos da minha vida e deixou o restante para eu viver na dúvida. Eu
poderia trocar meu computador, mas não acho justo.
Esta máquina sobreviverá até caçar o fantasma. Acho que ele não está longe.
Peço licença agora. Tenho que colocar em ordem minha vida. Minhas dividas dobraram
nos últimos três anos, em meu país. Nove milhões de dólares estão em algum lugar no
mundo. Eu tenho certeza de que cheguei a colocar os olhos neles. Apenas não me lembro
onde...
Por Branca Tirollo