Depois de quase uma semana no porto em Salvador, a esquadra se fez ao mar.
Finalmente, após mais de dois meses de exercícios operativos (atividades militares,
em que são simuladas diversas situações de guerra, tais como, combates simulados,
detecção de navios inimigos, proteção contra ataques, etc.) no litoral do Nordeste,
com direito à visita aos principais portos da região, os navios estavam voltando à
Sede, no Rio de Janeiro.
Embora estivessem felizes e satisfeitos com a missão cumprida e também com
as “incursões” nos portos, onde os tripulantes conheceram muitos locais e,
principalmente, “pessoas interessantes”, todos estavam ansiosos para retornarem aos
seus lares e reverem suas famílias.
Como já era costume, os navios deslocavam-se em formação (navegação com os navios
posicionados, de acordo com um plano pré-estabelecido, tal como, por exemplo,
em “Form UNO” ou “formação em coluna”) e aproveitavam seu deslocamento no mar, para
exercitar sua capacidade de vigilância, de proteção aos navios mercantes, etc. Enfim,
mesmo durante a viagem de volta para casa, todo o tempo disponível era utilizado para
manter os navios e suas tripulações bem adestradas.
A bordo do Contra-Torpedeiro “Manaus”, o maior navio do GT (Grupo-Tarefa - conjunto
de navios designados para o cumprimento de uma missão), o moral da tripulação estava
muito alto. Mesmo durante a realização das diversas fainas diárias (atividades do dia-
a-dia), sempre havia tempo para uma conversa entre os tripulantes:
- Essa foi a melhor comissão (missão) da minha vida! - exclamou o CB (cabo) Da Silva,
enquanto lubrificava o eixo de uma máquina de ar condicionado. Conheci uma garota
fantástica em Salvador.
- É, chefe! Respondeu o MN (marinheiro) Araújo, ao pegar a almotolia (aplicador de
óleo lubrificante) das mãos do cabo - Pra mim, também foi muito bom! Nunca vi tanta
coisa bonita como essas praias do Nordeste do Brasil.
- Esses cinco dias, em Salvador, foram os melhores de toda a comissão. Acho que vou
acabar me casando com uma baianinha.
- Eu e meus campanhas (colegas de turma ou do mesmo posto) demos uns socos (saídas
pela cidade em busca de aventuras amorosas) e nos demos muito bem! Mas, a “turma do
Sul” aproveitou muito mais!
A “turma do Sul” era um grupo de cinco de marinheiros provenientes da EAMSC (Escola
de Aprendizes-Marinheiros de Santa Catarina), naturais dos Estados de Santa Catarina
e Rio Grande do Sul,. Para eles, que tinham um sotaque carregado e bem típico do
pessoal daquela região, a viagem de estágio ao Nordeste do Brasil era como uma viagem
ao estrangeiro, pois a diversidade de hábitos, linguajar e culinária surpreendeu a
todos.
- É! - respondeu Da Silva - aquele bando de alemães deve ter feito um sucesso danado
com as nordestinas! Mas, vamos deixar de conversa e acabar logo a revisão dessa
máquina...
Na hora do rancho (almoço), no alojamento de marinheiros, a turma do Sul estava
reunida para tentar resolver um problema sério.
- Herman, vê se você aguenta firme, tchê! - disse o MN Fritz para seu amigo, MN
Herman, completamente mareado (enjoado com o balanço do navio no mar) - Se o tenente
souber que você está mareado neste estágio de embarque, vai reprová-lo e você não vai
continuar na Marinha. Agüenta firme, guri!
- Aaaaiiii! Isso é pior que montar potro chucro! - respondeu o mareado, muito
amarelo - Eu quero morrer! Me joguem no mar para acabar com esse sofrimento.
- Te aquiete, homem! - falou o MN Baldaracci - Fica quieto aqui, que a gente vai te
safar (ajudar a resolver um problema)!
- É isso aí, tchê! - completou o MN Schultz - Como nós somos parecidos para o pessoal
de bordo, iremos responder por você na chamada e usaremos a sua plaqueta de
identificação. Assim, ninguém saberá que esteves mareado durante a viagem.
- Desta forma, guri, você se safa no estágio de embarque! - arrematou o MN Garibaldi.
- Acho que isso deve ser castigo! - falou Herman, entre um gemido e outro - Nós
extrapolamos (exageramos) nesse último porto. Principalmente, com as gurias da Bahia.
Lá tem gente que mexe com essas coisas de macumba. Devem ter colocado essa tal de
mandinga em mim. Aaaaiiii! Minha cabeça e minha barriga doem como o quê!
Deixaram o marinheiro deitado em seu beliche e saíram, cada um para seus afazeres. A
plaqueta de identificação do MN Herman foi levada, para ser colocada no uniforme de
um de seus amigos, para que os tripulantes do navio acharem que ele estava cumprindo
suas tarefas.
Algumas horas depois, o Tenente Baptista entrou correndo no Passadiço (“ponte do
comando” do navio), com uma comunicação impressa em suas mãos:
- Senhor, - disse o oficial, bastante trêmulo, dirigindo-se ao Comandante do navio -
acabamos de receber esse Boletim Meteorológico! Há uma baita frente fria rumando em
nossa direção. Deveremos ser alcançados em duas ou três horas. Talvez peguemos até
Mar OITO! - completou o oficial, fazendo um discreto “sinal-da-cruz”.
A condição do mar é classificada por Estados de Mar, que variam de ZERO a NOVE, onde
ZERO significa “mar calmo” e NOVE equivale a “mar fenomenal”, com ondas acima dos 14
metros de altura. Mar OITO significa “mar muito alto” com ondas entre 9 e 14 metros
de altura.
- Minha Nossa Senhora! - exclamou o Comandante - Mandem peiar (prender, amarrar) tudo
a bordo! Dêem um Aviso Geral pelo fonoclama (sistema de alto-falantes do navio).
Embora esse navio seja projetado para pegar até mar SEIS, tenho certeza de que
conseguiremos atravessar essa frente fria com sucesso! Deus nos ajude!
Logo em seguida, a comunicação foi feita:
- Manaus, Aviso Geral! - alardeou o fonoclama (sistema de alto-falantes do navio) -
Em duas horas, passaremos por uma frente fria muito forte, com possibilidades de
enfrentarmos até mar OITO! Cumprir rotina de mau tempo! Manter condição de fechamento
de material (fechar todas as portas estanques do navio, para evitar possíveis
alagamentos.).
Ao ouvirem a notícia, todos os tripulantes saíram correndo, em direção as suas
incumbências (local de trabalho), e iniciaram o cumprimento da ordem, amarrando tudo
o que pudesse ser jogado de um lado para outro, durante a tempestade.
Os taifeiros (pessoal da copa) e cozinheiros eram os mais atarefados, trancando
pratos, copos, talheres, em seus armários. As telas dos aparelhos de TV receberam
fitas adesivas, em “X”, para evitar que, caso quebrassem, seus cacos de vidro se
espalhassem para todo lado.
Os marinheiros da turma do Sul não entenderam a correria dos tripulantes, pois não
conseguiram compreender a mensagem. Acharam que se tratava de mais um dos incontáveis
exercícios que o navio fazia. A correria de todos acabou por deixá-los de lado. Como
eram estagiários, ainda não estavam preparados para enfrentar uma situação daquelas.
Duas horas depois, o navio começou a jogar (balançar) muito, ao ser alcançado pela
frente fria. Era só o começo!
Em menos de vinte minutos, começaram as vagas. O comandante, muito experiente,
aproava o navio para pegar de frente as ondas. A muito custo, o navio respondia,
iniciando sua subida na parede de água e, logo em seguida, cortando-a, dando a
impressão de que afundava na imensidão de água salgada. Os caturros (movimento
cíclico do navio, para cima e para baixo), faziam o estômago de todos os tripulantes
ser jogado para cima e para baixo, no mesmo compasso, causando o mareio dos menos
acostumados.
Mesmo mareados, os tripulantes continuavam a cumprir suas tarefas, garantindo o
correto funcionamento do navio e contribuindo para tirá-lo daquela situação.
Foram horas incessantes de jogo e caturro. Parecia que o navio, a despeito de suas
quatro mil toneladas, era apenas um brinquedinho na mão de um gigante, que teimava em
jogá-lo, de um lado para outro, para cima e para baixo, apenas por diversão. A chuva
dificultava a visualização do mar e o vento contribuía para dificultar, mais ainda, a
manobra do navio.
O Comandante, segurando-se nas estruturas do navio, da melhor forma que podia, dava
ordens seguidas ao timoneiro (encarregado de “dirigir” o navio) e ao sota-timoneiro
(encarregado de enviar as “ordens de máquinas”, para aumentar ou diminuir a
velocidade do navio).
Bravamente, onda após onda, o Manaus seguia seu rumo, mantendo-se firme em sua
travessia. Todos os demais navios do GT faziam o mesmo, seguindo o Manaus, em “Form
UNO”, como discípulos, seguindo seu mestre.
Horas depois, após um grande esforço de todos, o Manaus conseguiu vencer a tempestade
e, finalmente, pegou um mar mais calmo. Era hora de avaliar os estragos a bordo,
fazer contatos com os outros navios do GT e continuar a viagem rumo ao Rio de Janeiro.
O relatório de avarias foi surpreendente. A despeito de um grande número de pratos e
copos quebrados, apenas dois tripulantes haviam tido ferimentos leves. Para surpresa
geral, nenhum equipamento de bordo ficou avariado. A manutenção, que sempre fora
feita com muito cuidado, mostrou o seu valor!
Em meio ao alívio geral, uma comunicação foi recebida pelo Manaus. Em decorrência da
forte tempestade, um navio mercante havia afundado, nas imediações, e dois de seus
tripulantes estavam perdidos. O Manaus, apoiado pelos helicópteros de outros dois
navios, as Corvetas Recife e Cuiabá, iriam prestar o socorro necessário.
- Toda força a vante (velocidade máxima)! - ordenou o Comandante - Vamos encontrar
esses tripulantes desaparecidos, o mais rápido possível! A água está muito fria e
eles terão pouco tempo de sobrevivência.
O aviso foi dado pelo fonoclama. O Manaus iniciava a missão de socorro. Mais uma,
entre as centenas que já cumprira com sucesso!
Os marinheiros da turma do Sul, reunidos no Rancho da guarnição (refeitório da
tripulação), completamente mareados, também não entenderam a última mensagem. Mas,
depois do navio ter enfrentado a tempestade, começaram a apresentar suas “teorias”
para o acontecido.
- Barbaridade, tchê! - exclamou Garibaldi - Acho que essa tal de mandinga é forte e
pegou todos nós! Começo a acreditar que Herman tem razão. Nós não devíamos ter
extrapolado na Bahia.
- Deixa disso, guri! - respondeu Baldaracci, apresentando sua teoria particular -
Isso é coisa de extraterrestres! Eu sempre acreditei que, no meio desse mar imenso,
havia discos voadores vigiando os barcos. No passado, eles eram confundidos com
sereias ou com monstros marinhos, mas tenho certeza que eram ETs! Acho que nós nos
aproximamos de algum disco voador e o campo de força fez o navio chacoalhar todo.
Podem crer! Eu estudo esse assunto há anos!
Uma correria chamou a atenção dos MN sulistas. Praticamente todo o pessoal que estava
no Rancho saiu para o convés.
- Acho que tem algo ocorrendo lá fora, pessoal! - falou Schultz, já se levantando -
Vamos ver o que está acontecendo!
- Deve ser apenas outro exercício! - respondeu Fritz, levantando-se lentamente - Eu
tô cansadão e vou voltar para o alojamento.
- Então, tu vai para o alojamento e vê como está o Herman, - decidiu Garibaldi - Eu,
Baldaracci e Schultz iremos ver o que está acontecendo lá fora.
Os três saíram em direção ao convés principal, enquanto Fritz se arrastava em direção
ao alojamento.
Chegando ao convés principal, os três marinheiros do Sul se assustaram, pois já era
noite e tudo estava na maior escuridão. O breu era tanto, que precisaram andar se
apoiando nas anteparas (“paredes” do navio), para conseguirem se orientar. O céu
estava totalmente encoberto, dificultando, mais ainda, a visão do que poderia estar
acontecendo.
Como de costume, os navios de guerra navegam totalmente às escuras, para dificultarem
ser localizados por um possível inimigo. A prática, mesmo em tempo de paz, cria o
hábito e acostuma seus tripulantes para as situações reais. Os marinheiros sulistas,
desacostumados a esse procedimento, estranharam o fato.
- Barbaridade! - cochichou Baldaracci - Acho que estamos próximos de algum UFO e o
Comandante não quer ser visto pelos alienígenas.
- Deixa de bobagem, guri! - respondeu Garibaldi - Tu não vês que é apenas mais um
exercício?
- Eu es-es-pe-pero que tu estejas certo! - disse Schultz, que costumava gaguejar
quando ficava nervoso.
- Claro, guri! - respondeu Garibaldi - Se tem disco voador na área, então, cadê ele?
Nesse momento, as duas aeronaves, orientadas pelo sistema de detecção do Manaus, que
já havia detectado os tripulantes desaparecidos, passavam no horizonte, com sua
iluminação de navegação aérea acesa (pequenas luzes verde e vermelha, além de luzes
brancas piscantes), à procura dos tripulantes desaparecidos, a partir das coordenadas
informadas pelo navio.
- Veja lá longe, tchê! - exclamou Baldaracci, agarrando, firmemente, os braços dos
companheiros - São dois UFO’s! Segurem-se e permaneçam juntos, para não serem
abduzidos por esses ET’s!
- Mi-minha no-nossa! - gaguejou Schultz - Vo-vo-você te-tem razão! São ET’s! Se-será
que o Comandante vai ati-tirar neles?
- Tu tás louco, guri? - reagiu Baldaracci - Queres ser desintegrado por armas laser?
Você acha que um tirinho de canhão vai derrubar um disco voador?
- Falem baixo! - disse Garibaldi.
Nesse momento, o piloto de um dos helicópteros encontrou a balsa com os náufragos.
Imediatamente, comunicou ao navio e deu início ao resgate, ligando seu potente
holofote para iluminar o bote. Pouco tempo depois, os dois náufragos estavam sendo
içados pela aeronave.
- Ai, meu Deus! - exclamou Baldaracci - Eles devem ter encontrado alguma coisa no mar
e estão usando um raio trator para levar para dentro do disco voador. Tomara que
esses malditos ET’s não vejam a gente.
Para ajudar a orientação da aeronave, que deveria deixar os náufragos no Manaus, o
Comandante deu ordem para acionar a iluminação externa do navio. Nesse mesmo
instante, uma série de apitos longos começou a ser dada, para ajudar a guiar os
pilotos, em meio à cerração, que começava a se formar.
- Agora sim que estamos todos ferrados! - descontrolou-se Baldaracci - O Comandante
deve ter ficado louco! Ele vai atrair os ET’s para o navio.
A partir da orientação visual e auditiva, a aeronave com os náufragos começou a se
deslocar na direção do Manaus.
- Ma-ma-mãe do Cé-céu! - desesperou-se Schultz, agarrando os dois companheiros e
puxando-os para dentro do navio - E-eles já-já nos vi-viram e-e-e-e es-estão vi-vi-
vindo pa-pa-para cá! Va-va-vamos no-nos es-escon-conder de-den-dentro do na-navio!
A sugestão foi imediatamente aceita pelos companheiros, que saíram em disparada para
o alojamento. Desorientados, mas unidos, queriam encontrar-se com seus outros dois
companheiros para ficarem juntos.
Correndo e tropeçando nas portas de passagem, com suas soleiras altas, para evitar a
passagem de alagamentos, entre os compartimentos, os três marujos do Sul chegaram até
o corredor, que dava acesso ao seu alojamento, onde encontraram Fritz, desesperado,
com uma cara de espanto nunca vista por eles.
- Herman desapareceu! - disse ele para seus amigos, com a voz abafada - Não sei o que
aconteceu a ele! Eu o procurei até o banheiro, andei por todo o corredor de acesso,
mas não o encontrei.
- Ai, meu Deus! - o MN Baldaracci caiu de joelhos, desesperado - Ele foi abduzido! Eu
sabia que esses malditos ET’s iriam pegar um de nós!
- Vamos rezar! - disse Schultz, ajoelhando-se e pegando nas mãos de Baldaracci e
Fritz - Deus vai ouvir nossas preces e vai trazer ele de volta!
- Deixa de bobagem, guri! - falou Garibaldi, que era ateu - Nem Deus, nem o Super-
Homem vai nos salvar! Nós ‘tamos ferrados! O negócio é ficar de boca calada e pensar
numa solução! Se aquietem vocês todos!
Foram os quatro para o alojamento e lá ficaram o resto da noite.
Na manhã seguinte, o Manaus, depois de mais uma missão de resgate bem-sucedida,
seguia direto para o Rio. Um dos resgatados precisaria ser encaminhado para um
hospital, onde faria uma tomografia. Durante a viagem, ele ficaria na Enfermaria de
bordo, onde receberia os cuidados necessários. As condições atmosféricas impediam que
ele fosse levado por aeronave.
Durante os dias seguintes, os marujos sulistas, tentavam disfarçar seu pânico,
cumprindo sua rotina diária. A ordem dada por Garibaldi era manter as atividades,
como se nada tivesse acontecido. Quando chegassem ao Rio, isto é, se chegassem, eles
veriam quem daria a má notícia aos pais do Herman.
Apreensivos, mas decididos a não contar, para mais ninguém, o estranho
desaparecimento de seu amigo, os marinheiros do Sul continuaram sua rotina.
Dois dias e meio depois, o navio cruzava a Barra (entrada da Baía de Guanabara). A
vista do Pão de Açúcar, trouxe um sentimento de chegada ao lar para toda a tripulação.
Algumas horas depois, o Manaus estava atracado em seu local costumeiro, junto aos
demais navios da Esquadra. Cumpridas as fainas de chegada ao porto, feita a baldeação
(lavagem de todo o convés e partes externas do navio com água doce, para tirar o sal
do mar), os tripulantes receberam autorização para baixar terra (desembarcar).
Aflitos, com a importante missão de dar a dolorosa e inusitada notícia aos pobres
pais de Herman, os quatro amigos sulistas, já em trajes paisanos (civis), caminhavam
lentamente, em direção ao Portaló do navio (local de entrada e saída do navio).
Apresentaram-se e mostraram suas identidades para o Oficial de Serviço e pediram
autorização para baixar terra.
O oficial, depois de conferir a identidade de cada um dos quatro marinheiros,
perguntou se eles não estavam deixando alguma coisa para trás. Surpresos, os cinco
responderam, em coro, que estavam levando todos os seus pertences, pois o estágio
deles se findava com a chegada do navio ao Rio.
Ao serem questionados uma segunda vez, entraram em pânico e começaram a chorar.
Parecia que o oficial notara que estava faltando um deles.
- E agora? - pensaram todos eles - Acabou nossa vida na Marinha. Estamos presos!
O oficial ordenou que esperassem ali e pegou no telefone, falando baixinho, algo
incompreensível para eles.
- Agora nós ‘tamos ferrados! - segredou Garibaldi para os outros - O negócio é negar,
mesmo que nos torturem!
- Ma-ma-mas, e-eles já-já de-devem ter da-da-dado pe-pe-pela fa-falta do-do Her-her-
herman! - gaguejou Schultz- Is-isso nã-não é-é-é cul-culpa nos-nossa!
- Aquietem-se, homens! - disse Baldaracci - Vamos ficar calados e ver o que vai
acontecer! O pior que pode acontecer é sermos expulsos e ter que voltarmos para os
Pampas, tchê!
O oficial se aproximou do grupo e pediu que um deles o acompanhasse. Garibaldi,
bravamente se ofereceu e voltou para dentro do navio, juntamente com o oficial. Os
dois foram diretamente para a Enfermaria do navio. Lá chegando, Garibaldi se
surpreendeu com o que viu.
Deitado em uma maca, com os braços atados a tubos com soro, estava Herman. Muito
pálido, mas consciente. Ele reconheceu o amigo e disse, com a voz cansada:
- Buenas, tchê! - saudou Herman - Vocês estavam desembarcando e iam me deixar aqui?
- Mas, nós pensamos... - Garibaldi começou a falar, mas logo parou - Bem, nós demos
pela sua falta, mas não conseguimos saber o que havia acontecido com você. O que foi
que lhe aconteceu, guri?
- Ele sofreu uma forte diarréia - explicou o médico do navio - por ter ingerido muito
azeite de dendê, que faz parte de quase toda comida baiana. Ele foi encontrado
inconsciente pelo Polícia do navio, durante a verificação de avarias, e foi trazido
para cá.
- Barbaridade, tchê! Ele comeu uns dez acarajés no último dia em Salvador.
- Ah, certamente foi isso! - concluiu o médico - O dendê tem um forte efeito laxante,
para quem não está acostumado a ingerí-lo.
- Bah, guri! - retrucou Garibaldi - E nós, desesperados, acabamos dando ouvidos para
o desmiolado do Baldaracci, que achou que você tinha sido abduzido.
- Taí, vocês podem considerar que seu amigo foi realmente abduzido...- disse o
médico -...pelo acarajé baiano! - complementou, dando uma sonora gargalhada.
(Do livro "MEMÓRIAS DE UM VELHO CAPITÃO" - em elaboração pelo autor)