Caminhei seguindo o aroma de velhice que exalavam as prateleiras, misturando-se ao meu
próprio. Olhei ao redor procurando por algo novo entre tantas lombadas com os títulos
dourados semi apagados. Olhei para o cartaz, também em cartolina mofada, tentando
focalizar a seção. Apalpei os bolsos em busca do óculos, que cada vez mais insistia em
sumir nos inúmeros compartimentos vestuários. Encaixei-o no rosto e espremi os olhos.
Ah! Ali estava! POETAS LUSITANOS.
Quantas vezes ali estive, debaixo daquele mesmo cartaz, diante da mesma prateleira,
dentro daquela loja, na mesma rua tantas vezes percorridas, na cidade que me engolia e
regurgitava diariamente. Olhando os mesmos livros, ávido por novidades. Mas, eram
sempre os mesmos livros. Não haviam mais novidades, eram sempre os mesmos poetas, os
mesmo poemas, os mesmos versos. Como se a arte se tivesse extinguido há quase 100
anos. Se haviam novidades antigas elas estavam em bibliotecas particulares, aguardando
talvez o passamento de seus proprietários para que os herdeiros oferecessem-nas ao
prazer de pessoas como ele, em troca de algumas notas de mero valor financeiro, quando
para muitos aquilo teria um valor inestimável. Mas, tanto tempo se passara e nada
mudara naquela prateleira que eu desconfiava que realmente a poesia havia morrido. Os
livros permaneciam na mesma posição de sempre. Aquele era um canto intocado. A seção
de best sellers ao contrário era a mais movimentada da loja. Durante todos aqueles
anos poucas vezes ali parei. Mesmo por que era quase impossível procurar algo ali
devido a quantidade de pessoas paradas defronte as prateleiras. Meu canto era outro.
Todas às quartas-feiras tomava meu café de pé na sacada de meu apartamento inalando o
ar frio da manhã. O ar poluído daquela cidade que acordava. Olhava do alto do 15º.
andar para o asfalto molhado todo marcado pelos pneus dos ônibus e carros que seguiam
seus caminhos em direções rotineiras. As pessoas como formigas se entrelaçavam num
belo, absurdo e macabro balé nas calçadas lá embaixo. Após o banho, passava
afoitamente os olhos pelo jornal do dia aguardando o horário certo de sair do
apartamento, seguir até o elevador, que sempre demorava uma eternidade para chegar,
cumprimentar o porteiro falando coisas deveras cotidianas e enfadonhas. Saia do prédio
empedernido como se fosse para a missa ou para o cadafalso. Seguia por 10 longos
quarteirões enveredando por travessas esguias e sombreadas por altos e antigos
prédios. Aquilo era um cenário apropriado para minha missão. Parava na esquina e
observava a loja recém aberta. Naquele horário não haviam clientes. Meu coração
disparava. Iniciava a última etapa de minha aventura. Alcançar aquele recanto de
cultura. Adentrar o templo após longa jornada sob o sol escaldante do deserto urbano.
O frescor daquela caverna iria acariciar minha pele. Andaria por ela entre altas
colunas de papel e couro até o altar único e intocável há muito tempo. Se pudesse me
ajoelharia diante dos poetas ali esquecidos. Conhecia-os todos. Já possuía intimidade
com suas obras e vidas, sendo que algumas eram bem melhores que as outras. Vidas ou
obras.
Um sino tocou em minha mente. Virei-me para a porta esperando ver alguma figura
conhecida do lugar. Mais algum aposentado desocupado sedento de leitura e prazer
poético. Nada! A figura postou-se a porta, com a imagem recortada pela luminosidade
que vinha do lado externo do mundo literário, até que a porta fechou-se atrás dela.
Retornei os olhos para as conhecidas camadas de pó entre o volumes que jaziam na
áspera superfície de madeira crua.
- O sr. tem algum livro com as poesias de Florbela Espanca.
Os anjos haviam cantado. Aquela voz macia , jovem , havia atravessado o mar de
livros e alcançado meus ouvidos como a espuma de mares nunca dantes navegados. Olhei
aflito para os livros a minha frente. Sabia a resposta. O único livro que continha as
obras daquela poetisa eu o havia comprado há 5 anos atrás.
Esgueirei-me tentando vislumbrar a dona daquela voz e daquele desejo. Lá estava ela,
miúda diante ao dono do estabelecimento. Vestia uma blusa branca colegial e uma saia
curta azul marinho, meias ¾, sapato preto envernizado. Meu Deus! Pensei. Enlouqueci?!
Adormeci e voltei no tempo. O que quer uma adolescente em busca de poesia lusitana?
Trabalho escolar? Não! Isso ela consegue na biblioteca pública. Ela quer comprar um
livro. Comprar? Poesia? Espichei-me ao máximo para admirar suas curvas. Seu cabelo
negro e longo como cascata escorria por seu belo crânio espalhando-se magnificamente
pela blusa branca, que numa análise mais próxima a apurada não era mais branca. Era
creme e seu generoso decote eliminava a aparência de colegial. A saia era Jeans e o
sapato de salto....
Sobem-me aos lábios súplicas estranhas... diria Florbela. Não só as lábios. Queria
falar-lhe não só com palavras. Que sentimento era aquele que se apossava de mim? Será
que era isso que eu esperara durante todos aqueles anos diante daqueles mesmos livros.
Algo inusitado.
- Não tem?! E Almada Negreiros?
Tu chegas sempre primeiro... Eu volto sempre amanhã... Os versos bailaram em
minha frente. Quem era aquela pessoa... Que não pedia por Fernando! Que não era vulgar
fazendo pedidos óbvios da cultura popularmente disseminada. Acerquei-me dos livros de
Filosofia para admirar seus lábios entreabertos solicitando a resposta que eu conhecia.
- Também não.
Estúpido vendeiro! Podia dizer “Talvez! Precisa procurar na seção correta.” E
ele me daria a oportunidade de estar ao lado dela entabulando uma conversa culta pela
primeira vez naquele recinto.
Olhava embevecido para aquela mente cercada por um corpo. Queria ter a oportunidade de
ler em seus olhos a poesia da vida. Declamar os versos contidos nas linhas da palma de
sua mão. Usar seu corpo como papel para escrever um poema alexandrino.
Ela baixou a cabeça em agradecimento. Que belo movimento corporal! Girou lentamente em
direção à porta. Vi sua silhueta quando a abriu, tendo o sol emoldurado novamente suas
carnes. Olhei suas pernas. Eram brancas e usavam meias de seda. A brancura da pele me
confundira a mente criando uma meia ¾ inexistente.
Deixei meu refúgio e a segui com o olhar até que a porta nos separasse. O dono da loja
ainda tentou argumentar ser cedo ainda, pois acabara de chegar, e normalmente só
sairia por volta do meio dia, mas não lhe dei atenção. Deve ter achado que alguma dor
no peito ou no estomago me impelia de volta às pressas para casa.
Sim meu peito arfava. O coração descompassado. O estomago em pânico de perdê-la de
vista. Olhei para os lados e finalmente a vi parada na esquina esperando o sinal
abrir. Segui-a apressado tentando acompanhar os seus passos lépidos e juvenis. As
pessoas passavam. Me perguntava o que eu queria. Que estranha atração aquela jovem
exercia sobre mim. Eu, um velho, que poderia querer com alguém como ela. Parei. Ela
estava à minha frente olhando uma vitrine. Virou o rosto, me olhou e sorriu, com seus
lábios se abrindo lentamente, descobrindo os seus alvos dentes. Devolvi o sorriso, não
tão branco e não tão natural e original. E tomando coragem disse a minha musa:
- Obrigado!
- Não há de quê! , respondeu ela com outro movimento de cabeça maravilhoso,
fazendo o sol brilhar em seus cabelos. – A vida é muito mais que isso. Entre estar
vivo ou morto apenas um mísero segundo basta, entre tantos de uma vida inteira.
Ela me olhou, girou e partiu. Nunca mais a vi. Talvez ainda busque seus livros
e suas almas pelos sebos da cidade. Nunca mais entrei num. Nunca mais li apenas poetas
lusitanos. Agora sento no parque e leio ao sol qualquer tipo de literatura. As vezes
penso vê-la entre as árvores, no balanço, na gangorra, passeando com um cão. Apenas
sorrio e estranhamente nenhum verso me vem a cabeça pois nem preciso. Estou cercado de
poesia.