Naquela manhã de sol radioso, a costureira Maria da Fé, ao levantar-se pareceu ouvir
uns gemidos de criança perto da porta de entrada de sal casa. Surpreendida, abriu a
porta e depara-se com uma alcofa ricamente decorada, onde um bebé gemia, gemia… Sem
poder conter sua surpresa, agarra na alcofa e mete-se dentro de casa, e ao agarrar na
bebé, verificou que esta vinha muito bem vestida entre rendas e laços e trazia
consigo um lindo fio de ouro com um medalhão lindíssimo, em forma de coração. No
fundo da alcofa um pequeno escrito que dizia o seguinte: “Trata-me com amor!”
A mulher ficou pasmada e entregue aos seus pensamentos:
- Meu Deus! Que não me deste o dom de ser mãe de sangue! Obrigada me concederes esta
menina que será filha do meu afecto.
Tratou a bebé com muito carinho e em silêncio aguardou a chegada do marido para
partilhar da alegria e desta que considerou um presente caído do céu.
Naquele tempo os amores ilícitos eram condenados, as mães solteiras punham os filhos
na roda ou à porta de alguém, para esconder do mundo a vergonha que passavam e o
apontar duma sociedade preconceituosa e sem liberdade feminina. Seria o caso? O
futuro poderia confirmar ou não.
Quando o marido chegou a casa e se acercou da bebé, não pôde deixar de exclamar:
Ó…Ó Linda, linda…
A mulher perante a reacção do marido, imediatamente diz:
- È mesmo Olinda, que será o seu nome! Como foi um presente de Jesus. Será Olinda de
Jesus.
E assim a bebé recebeu esse nome, sendo perfilhada pelo bondoso casal.
Cresceu a Olinda no seio desta família humilde e, fez-se uma menina bondosa,
inteligente e trabalhadora.
Um certo dia apareceu um pobre pedinte à porta da costureira e quando a menina
Olinda, já uma mulherzinha, foi entregar a moeda ao pobre, este olhando as suas
mãos, o seu rosto, o fio que ela trazia ao peito desde pequena, murmurou:
“ Ó que menina tão linda, que lindas mãos, que linda jóia. Até parece a condessa de
Estombar tão parecida consigo no rosto, nas mãos e até tem um medalhão igual ao seu”.
A mãe adoptiva que estava junto dela, ao ouvir o pobre mudou de cores, mas respondeu:
- “São coincidências, só que a jóia dessa senhora, deve ser verdadeira e esta é
imitação.”
Depois o pobre abalou… e a mulher ficou a cismar que a sua filha seria uma menina de
sangue azul.
As fidalgas também tinham amores ocultos e daí a ajuizar pelo conteúdo da alcofa, das
roupas da bebé e da jóia em ouro que trazia, só poderia ser de alguém de haveres.
A Menina Fidalga, a sua querida filha Olinda, seria para sempre a sua menina e nunca
alguém tentou decifrar o mistério do seu nascimento.