ALEM DOS SONHOS
Eu estou muito bem. Sinto-me forte. Apenas perdi um pouco da sensibilidade e a
força de minas pernas. Sentei-me só por isso.
Não precisavam ter feito àquela polêmica. Terem chamado os vizinhos e até a viatura
policial. Carregarem-me no colo como se eu fosse um velho decrépito. Eu também
carreguei dezenas de vezes meus filhos nos braços. Só o mais novo que foi cuidado pelo
primogênito. Ter muitos filhos tem esta vantagem: uns cuidam dos outros. Como se já
estivessem ensaiando a vida paternal.
Até no hospital foram apenas alguns minutos. Pela primeira vez percebi o
quanto às pessoas respeitam uma sirene de viatura. Só não gostei de terem chamado
tanta atenção. Parecia que eu era um bandido que havia sido capturado. Ia direto ao
presídio. Coisa feia. Desmoralizante. Logo eu que nunca precisei ir a uma delegacia ou
fórum dar depoimento.
Por que dois médicos me atendendo se estou bem. Só o que me atrapalha é uma
dor forte que tenho no peito. Apenas poucos dias, nem uma semana, eu havia visitado o
meu cardiologista. Estou mais forte que o próprio profissional, assegurou-me. Até
brincou comigo que daqui a dez anos ele irá assar o churrasco do meu aniversário.
Noventa são muito poucos que conseguem. Quase inédito.
Por causa deles: o doutor e os noventa, que eu havia feito uma bateria de
exames. O doutor até ficou surpreso quando tirei nota dez. Nem parece que tem esta
idade. Até a cirurgia da hérnia ficou bem cicatrizada.
O que detesto é enfermeira que não consegue acertar a veia. O soro já é uma
chatice, apesar da necessidade, mas picar o meu braço deixa-me enraivecido. Como se eu
não sentisse mais nada. Por que o tubo de oxigênio? Por que tantas enfermeiras? Quem
entende do meu coração é o meu cardiologista. A dor que me arde no peito é normal. Já
senti antes. Coisa passageira. Por que ligar para os filhos e para os vizinhos? Como
são chatas as pessoas só porque senti fraqueza nas pernas e caí lá na rua!
Acho que estão fazendo uma pegadinha comigo. Depois sai na televisão, dá ibope
e tal, mas eu fico aqui cheio de curiosos e outros profissionais. Parece até que far-
me-ão mais novo, que bom que seria, poder voltar a mergulhar nos rios, subir em
árvores, andar de bicicleta e até namorar...
Como é bom ter os filhos envolta de mim. Gostam mesmo de mim. Só não vi o mais
novo. Por nada que me aconteceu e já estão em minha volta. Uns acariciam o meu rosto,
outro segura em minha mão e o mais velho não desgruda do celular. Como é bom receber
carinho. Nunca fiz isso com um filho meu. Acho que também se sentiriam confortados.
Deveria ser emotivo dar a eles o que me conforta agora.
Lembro dos filhos envolta do fogão a lenha em todas as noites. Histórias
contadas e a esposa se rebolando a mexer e remexer panelas em preparo da janta. Antes
de irmos dormir a sagrada oração de agradecimento por mais um dia vividos. Família
grande e unida é exemplo a todos, dizia o padre.
Eu nem havia percebido que o meu cardiologista também está em minha volta. Um
pouco ele aperta o meu peito, logo comprime uma bomba de ar em minha boca e de vez em
quando olha para aquele aparelho onde um risquinho vermelho pula na tela. De vez em
quando o risco pula e segue cada vez mais lento. Puxa vida, estou a mais de uma hora
deitado nesta cama e parece que estou ficando cansado.
Acho que esta pegadinha está me custando dores e cansaços. Deve ser um canal
de televisão que está fazendo tudo isso para depois rirem. Vai ser legal quando eu me
vir no aparelho, feito artista de novela. Bem que mereço, pois desde criança eu
pretendia me aventurar na capital e tentar a vida de ator. Artistas são todos ricos e
bonitos. As artistas então nem se fala: sobra beleza em qualquer canto do corpo.
Sempre sonhei estar entre eles. Que bom terem me escolhido para esta pegadinha.
A injeção de morfina já foi feita. Só resta esperar, disse o cardiologista
para seu colega. O pior é que não entendo de morfina e nem por que um entra e sai da
sala? Por que os meus filhos chorando? Eu os quero alegres em minha volta. Era tão
difícil reuní-los e agora que estão aqui ficam em prantos. Como é bom receber carinho.
Isto me deixa melhor ainda do que já estou. A filmagem está mesmo original. Chorar
agora para rir depois. E eu o bom ator em tudo. Centro das atenções.
Claro que estou escutando tudo. Não precisam falar em funeral que isto me
arrepia. Sei que não é nada e eu estou bem. Não precisam gravar esta pegadinha com
tantos detalhes. Só falta trazerem “caixão” para tudo sair o mais natural possível!
Estou sentindo-me cansado e arde o meu peito. Por que será que o risquinho do
aparelho não está mais pulando?
Claro que sinto saudade da esposa. Eu nunca a esqueci por um segundo. Por que
desligaram todas as luzes. Porque todos pararam de conversar. Uma brilhosa porta está
se abrindo. Acho que já poderei ir embora. Que as filmagens já acabaram.
Por que a esposa vem sorridente a me abraçar. Como ela está linda. Eu sabia que ela é
a minha verdadeira alma gêmea. Que jamais iria me abandonar. Ela me deixou alguns anos
apenas para botar o meu amor a prova. Nosso amor é para além dos sonhos. Puxa vida, só
agora percebi que ela é mesmo linda. Até acho que vou querer casar novamente.
E assim Márcia e Mário viveram felizes para sempre.