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Além dos Sonhos

por Miguel


					    
ALEM DOS SONHOS Eu estou muito bem. Sinto-me forte. Apenas perdi um pouco da sensibilidade e a força de minas pernas. Sentei-me só por isso. Não precisavam ter feito àquela polêmica. Terem chamado os vizinhos e até a viatura policial. Carregarem-me no colo como se eu fosse um velho decrépito. Eu também carreguei dezenas de vezes meus filhos nos braços. Só o mais novo que foi cuidado pelo primogênito. Ter muitos filhos tem esta vantagem: uns cuidam dos outros. Como se já estivessem ensaiando a vida paternal. Até no hospital foram apenas alguns minutos. Pela primeira vez percebi o quanto às pessoas respeitam uma sirene de viatura. Só não gostei de terem chamado tanta atenção. Parecia que eu era um bandido que havia sido capturado. Ia direto ao presídio. Coisa feia. Desmoralizante. Logo eu que nunca precisei ir a uma delegacia ou fórum dar depoimento. Por que dois médicos me atendendo se estou bem. Só o que me atrapalha é uma dor forte que tenho no peito. Apenas poucos dias, nem uma semana, eu havia visitado o meu cardiologista. Estou mais forte que o próprio profissional, assegurou-me. Até brincou comigo que daqui a dez anos ele irá assar o churrasco do meu aniversário. Noventa são muito poucos que conseguem. Quase inédito. Por causa deles: o doutor e os noventa, que eu havia feito uma bateria de exames. O doutor até ficou surpreso quando tirei nota dez. Nem parece que tem esta idade. Até a cirurgia da hérnia ficou bem cicatrizada. O que detesto é enfermeira que não consegue acertar a veia. O soro já é uma chatice, apesar da necessidade, mas picar o meu braço deixa-me enraivecido. Como se eu não sentisse mais nada. Por que o tubo de oxigênio? Por que tantas enfermeiras? Quem entende do meu coração é o meu cardiologista. A dor que me arde no peito é normal. Já senti antes. Coisa passageira. Por que ligar para os filhos e para os vizinhos? Como são chatas as pessoas só porque senti fraqueza nas pernas e caí lá na rua! Acho que estão fazendo uma pegadinha comigo. Depois sai na televisão, dá ibope e tal, mas eu fico aqui cheio de curiosos e outros profissionais. Parece até que far- me-ão mais novo, que bom que seria, poder voltar a mergulhar nos rios, subir em árvores, andar de bicicleta e até namorar... Como é bom ter os filhos envolta de mim. Gostam mesmo de mim. Só não vi o mais novo. Por nada que me aconteceu e já estão em minha volta. Uns acariciam o meu rosto, outro segura em minha mão e o mais velho não desgruda do celular. Como é bom receber carinho. Nunca fiz isso com um filho meu. Acho que também se sentiriam confortados. Deveria ser emotivo dar a eles o que me conforta agora. Lembro dos filhos envolta do fogão a lenha em todas as noites. Histórias contadas e a esposa se rebolando a mexer e remexer panelas em preparo da janta. Antes de irmos dormir a sagrada oração de agradecimento por mais um dia vividos. Família grande e unida é exemplo a todos, dizia o padre. Eu nem havia percebido que o meu cardiologista também está em minha volta. Um pouco ele aperta o meu peito, logo comprime uma bomba de ar em minha boca e de vez em quando olha para aquele aparelho onde um risquinho vermelho pula na tela. De vez em quando o risco pula e segue cada vez mais lento. Puxa vida, estou a mais de uma hora deitado nesta cama e parece que estou ficando cansado. Acho que esta pegadinha está me custando dores e cansaços. Deve ser um canal de televisão que está fazendo tudo isso para depois rirem. Vai ser legal quando eu me vir no aparelho, feito artista de novela. Bem que mereço, pois desde criança eu pretendia me aventurar na capital e tentar a vida de ator. Artistas são todos ricos e bonitos. As artistas então nem se fala: sobra beleza em qualquer canto do corpo. Sempre sonhei estar entre eles. Que bom terem me escolhido para esta pegadinha. A injeção de morfina já foi feita. Só resta esperar, disse o cardiologista para seu colega. O pior é que não entendo de morfina e nem por que um entra e sai da sala? Por que os meus filhos chorando? Eu os quero alegres em minha volta. Era tão difícil reuní-los e agora que estão aqui ficam em prantos. Como é bom receber carinho. Isto me deixa melhor ainda do que já estou. A filmagem está mesmo original. Chorar agora para rir depois. E eu o bom ator em tudo. Centro das atenções. Claro que estou escutando tudo. Não precisam falar em funeral que isto me arrepia. Sei que não é nada e eu estou bem. Não precisam gravar esta pegadinha com tantos detalhes. Só falta trazerem “caixão” para tudo sair o mais natural possível! Estou sentindo-me cansado e arde o meu peito. Por que será que o risquinho do aparelho não está mais pulando? Claro que sinto saudade da esposa. Eu nunca a esqueci por um segundo. Por que desligaram todas as luzes. Porque todos pararam de conversar. Uma brilhosa porta está se abrindo. Acho que já poderei ir embora. Que as filmagens já acabaram. Por que a esposa vem sorridente a me abraçar. Como ela está linda. Eu sabia que ela é a minha verdadeira alma gêmea. Que jamais iria me abandonar. Ela me deixou alguns anos apenas para botar o meu amor a prova. Nosso amor é para além dos sonhos. Puxa vida, só agora percebi que ela é mesmo linda. Até acho que vou querer casar novamente. E assim Márcia e Mário viveram felizes para sempre.
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Comentários dos leitores

Além dos sonhos, além da vida................

Postado por lucia maria em 10-10-2012

Está inovador, foi impressionante, não estava nada a espera do desfecho! :)

Postado por Niafna em 21-10-2010

Que maravilha! Meu sonho é morrer assim. Parabéns mesmo!

Postado por Annacelia em 15-09-2009

SEMPRE ACREDITEI NA MORTE COMO ALGO BONITO À SER VIVIDO PELOS CORAJOSOS. E SEU TEXTO ME CONFIRMOU ISTO. MUITO OBRIGADA PELA POÉTICA REFLEXÃO.

Postado por Erica Sady em 21-07-2009

Caraca! Muuuuuuuuuuuuuito bom! me emocionei parabéns!

Postado por Thamires em 25-03-2009

Seu desprendimento e sensibilidade, é brilhante. Parabéns Miguel seu texto é show.

Postado por Miguel Carlos em 22-02-2009

É difícil falar sobre morte, parabéns pela maneira que falou!

Postado por Marcelo Torca em 05-02-2009

Puxa Miguel, Que lindo esse conto! Voce teve uma sensibilidade incrivel para escrever sobre o tema da morte de forma tão delicadamente irônica e romantica! Alquimicamente, Ismênia

Postado por alquimista em 04-11-2008

Grande história! Uma visão poética da morte. Parabéns, Miguel!

Postado por Silvino em 28-10-2008

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