O nome “Recanto da neblina cheirosa” foi dado em 1968, pela filha de criação de
D.Tonha, Menina Ênia, como era conhecida nas redondezas.
Contam que a propriedade foi dada a D.Tonha, uma escrava da fazenda de engenho que
serviu aos senhores daquela terra, a família Cavas, até a sua alforria em 1889, quando
então já estava com 30 anos. Foi mãe -de- leite de todos os filhos de sua Sinhá, menos
dos seus, que Deus levava tão logo nasciam.Ainda assim permanecia fiel e dedicada a
sua função de mãe-de-leite. Mas nunca lamentava, dizia que Deus não queria o
sofrimento do cativeiro para seus filhos, assim os transformava em anjos. Tinha
revelações fantásticas sobre tudo que acontecia naquela região, desde o tempo até de
quem se aproximava da casa grande e o que pretendia ali.
Suas previsões eram respeitadas, porque não falhavam nunca.
A casinha de D.Tonha ficava ao pé de uma colina coberta por uma mata cerrada de onde
descia um fino véu de água que se desfazia em nevoa antes que tocasse o solo.
D.Tonha costuma dizer que a nevoa regava a mata e alimentava todas as suas criaturas.
Uma fez alforriada se embrenhou mata dentro onde permaneceu quarenta dias. Ao retornar
trouxe consigo muitas raízes, mudas, cascas de arvores, cabaças contendo água de cipó
e um gato -do- mato preto, que mais parecia uma pantera. A partir de então nunca mais
voltara à casa grande, vivia na sua pequena casinha de sapê tendo como companhia o
gato-do-mato, que parecia um guardião daquele lugar. Muitas pessoas iam até lá buscar
tratamento e conselho e ela nunca recusava atender ninguém. Não cobrava pelo seu
atendimento, mas fazia uma exigência, cada pessoa atendida devia plantar em volta da
sua casinha uma flor. Por isso aquele recanto era coberto por flores de todas as cores
e exalavam um perfume inebriante.
Ali acontecia um fenômeno de extraordinária beleza, uma vez por dia o recanto ficava
coberto por uma neblina densamente branca, como se as nuvens saíssem do céu para tomar
parte daquele lugar ou tentasse levar o recanto para o céu. Algumas vezes, em dias
mais ensolarados, a neblina vinha acompanhada de feixes de luzes coloridas pinceladas
pelo arco-íris. D. Tonha o chamava de Príncipe da luz. Ela contava para meninada que
esse príncipe da luz cavalgava pelos céus com seu cavalo branco protegendo a fronteira
entre o céu e a terra e de vez em quanto ele parava para tomar e dar água para seu
cavalo nos rios da terra, quando isso acontecia um rastro de luz colorida aparecia no
céu indicando a presença do Príncipe da Luz na terra. Coincidência ou não cada vez que
a neblina aparecia o perfume das flores de D. Tonha recendia intenso e agradavelmente
por todo o recanto.
Durante o tempo da Quaresma, D. Tonha saia de casa com seu gato preto, o Centurião,
nome que ela mesma lhe deu e embrenhava-se na mata retornando apenas no domingo de
Páscoa. Neste dia, quando a neblina abaixava sobre o recanto, ela aparecia, carregando
consigo uma imensa carga de raízes, cipós, cascas e mudas.
Após sua chegada não recebia ninguém. Dizem que ela tomava um banho com ervas e bebia
um chá de raízes dormindo por dois dias. Quando acordava estava pronta para suas
tarefas de benzedeira, parteira, curandeira e conselheira.
Já com seus 60 anos foi surpreendida com a chegada de uma criança recém-nascida Estava
andando na beira de um córrego que passava por trás de sua casa quando ouviu um
estranho barulho junto aos arbustos que ladeavam o córrego. Antes que fizesse qualquer
coisa, seu gato preto deslizou sobre a vegetação na velocidade de um raio. De repente
parou, não saiu do lugar, parecia aguardar uma ordem para atacar. D Tonha então foi
chegando de mansinho e surpreendeu-se vendo uma mãozinha muito branca agarrada à negra
pata do gato do mato. A criança não chorava, apenas mantinha seus olhinhos fixos no
gato. Estava sem roupas, e não se sabe como não foi picada por formigas ou outro tipo
qualquer de inseto.
D Tonha ajoelhou-se e agradeceu aos céus aquele presente tão estranhamente especial.
Cuidadosamente retirou as mãozinhas da criança das patas do gato temendo que ele a
aranhasse com suas unhas pontiagudas, mas ele parecia fascinado com aquela presa.
Com jeito enrolou a criança em seu avental e voltou para casa. Providenciou a retirada
do caldeirão, que ficava do lado de fora, debaixo de uma árvore linda de dama-da-noite.
As pessoas da redondeza sabiam que se o caldeirão da D.Tonha não estivesse ali, ela
não atendia ninguém. Desta feita o caldeirão ficou sem aparecer por duas semanas
inteiras.
A partir de então D.Tonha tinha duas companhias, o gato e a menina.
Algum tempo depois, D.Tonha sentiu necessidade de chamar sua menina por um nome, mas
cada vez que pensava em um, logo desistia, porque não achava que tinha esse direito.
Então um dia, D.Tonha teve um estranho sonho. Estava se banhando numa lagoa de água
muito clara, quando de repente toda lagoa foi se transformando em nuvem arrastando-a
pelo céu. Enquanto era transportada sentiu uma paz tão grande que chegou a pensar que
ali era a estrada para o paraíso. Um sono incontrolável lhe roubou o pensamento...
Ao abrir os olhos viu que já não estava mais nas nuvens, mas no meio de uma grande
clareira, onde a mata era tão fechada que não se distinguia uma árvore da outra. O
verde não era comum, a folhagem tinha um tom matizado de vermelho, azul e lilás, o que
produzia um reflexo incandescente em contato com a luz do sol. Mais impressionada
ficou, quando viu sair do meio da mata uma neblina densa e branca serpenteando o solo
e vindo lentamente em sua direção. Ficou apreensiva, correr não podia,aguardou. De
repente reparou que a neblina se transformava em um tapete branco que saia de dentro
da mata até a clareira e então ela surgiu.
Linda, parecia uma fada. Uma aparição sobrenatural, era um ser etéreo, parecia
translúcida sobre a neblina. Não andava, flutuava, tal era a leveza daquele ser de
beleza indescritível. Olhou profundamente para D.Tonha e tocou delicadamente sua
testa, fazendo com que seus olhos se fechassem, como num passe de mágica ela viu a
mesma cena do dia que encontrou sua menina, entretanto agora, conseguia ver claramente
que a menina não estava sozinha como pensou naquele dia. Aquele ser etéreo estava
junto dela, por isso Centurião estava tão dócil e permitiu que a criança o agarrasse
pela pata sem arranhá-la.
Então entendeu que a menina tinha uma proteção muito especial. Nesse momento o nome de
sua menina veio naturalmente em seu pensamento: Menina Ênia. Ela se chamaria Ênia.
Pensando assim, abriu os olhos e deparou com o sorriso meigo daquela que seria a
guardiã de Ênia.
D.Tonha acordou com o aroma de flores e o nome da menina no pensamento.
(Texto extraído do conto "O recanto da neblina Cheirosa"escrito pela autora)