Em determinados momentos, só cachaça. Você tenta se encontrar, tenta descobrir
caminhos e não consegue nada além de dúvidas. Então, só cachaça. Um bom porre devolve
o caminho do riso. O álcool tem essa ciência. Conhece os segredos da sua alma e sabe
como acender a sua esperança. Duvida? Tome um porre. Você vai ver como o seu estado
etílico minimiza qualquer problema. Com uma vantagem incomparável: não escolhe
categoria. Trata pendengas profissionais, pessoais, amorosas, de qualquer tipo e
motivação. Tenho pena de quem não bebe. Deve encarar os dias de forma triste e muito
estressante. Ainda mais nesses tempos, que nos vêm repletos de aporrinhações. Imagine
você ficar ruminando suas preocupações vinte e quatro horas por dia, sem nenhum
momento livre para não pensar em nada? Isso é suicídio. Todo mundo precisa de um tempo
sozinho, pelo menos uma vez por semana. Um instante que seja para esvaziar a mente por
completo e olhar para lugar nenhum, amar ninguém, ouvir nada, torcer por time algum,
se esvaziar do mundo. É correto que álcool não deve ser utilizado diariamente, o
Ministério da Saúde bem adverte. Mas de vez em quando, vá lá, pode ser um santo
remédio.
Foi assim, trocando idéias consigo mesmo, que o nosso personagem dirigiu-se ao Beco do
Sardinha. Um cruzamento no centro do Rio de Janeiro, famoso por reunir diversos bares
no seu entorno, onde a sardinha frita é um bom motivo para esticar o dia e molhar a
garganta. No meio desse entroncamento de ruas com calçamento de paralelepípedo,
espalham-se mesas e cadeiras que vão sendo ocupadas conforme a noite vai chegando e o
horário comercial termina. Por lá se vê gente de todo tipo. Ternos e bermudas dividem
o sereno com a mesma condição de igualdade. O chope do local é muito bom. Para alguns,
melhor que a própria sardinha. E esses aconselham duas ou três tulipas geladinhas
antes do famoso petisco. Sem dizer que existem vários ambulantes circulando livremente
pelo local, depositando sobre as mesas boas provas de amendoim torrado. Isso permite
ao freqüentador desprovido gastar apenas com a bebida, sem ser importunado. Em resumo,
o local reúne boas qualidades para quem procura um pouco de descontração.
Voltando ao nosso personagem, é preciso que se façam algumas considerações para que o
leitor possa entender a sua decisão de buscar refúgio nos confortos do álcool. Ele não
é um homem dado a freqüentar as bebidas de forma assídua. Uma vez ou outra é possível
vê-lo com um copo na mão. Dele poderia se dizer, sem errar, ser um mero bebedor
social. É uma boa pessoa, de hábitos responsáveis e atitudes comedidas. Faz amigos com
facilidade e sabe como cultivá-los. Tem o riso solto e um bom humor próprio das almas
resignadas. É casado, pai de dois filhos e um chefe de família presente, cumpridor das
suas responsabilidades. Trabalha numa casa de câmbio, onde passa os dias contando e
trocando moedas de todo o mundo pela cotação paralela. Às vezes se intriga com a
liberdade do dinheiro, eterno viajante de pouso incerto. Até tentou filosofar sobre o
assunto, mas desistiu, antes que a enxurrada de idéias e imagens que o tema pudesse
suscitar o deixasse falando sozinho, um hábito que virou motivo de troça entre os
colegas do trabalho. Guarda certo medo das coisas apuradas pela mente, pois acredita
que pensar demais é enxergar problemas até na felicidade. Procura manter-se no limiar
do real, pautando a sua conduta pelo bom senso. Ele possui idéias pré-concebidas sobre
política, futebol, religião e alguns outros temas, às quais se mantém fiel por pura
teimosia. Acha besteira discutir calorosamente sobre assuntos que nunca serão
alterados com a sua opinião. Talvez por achar o mundo tão errado, resolveu se esconder
atrás dos seus conceitos imutáveis. Não fosse tão desprendido nas amizades, solidário
e prestativo, poderia facilmente ser confundido com uma pessoa arrogante. Mas os
arrogantes vestem uma capa de soberba e indiferença, que nunca se vê nesse homem, de
olhar atento e coração aberto. Naquele dia, em especial, podia-se notar em seu
semblante as marcas da preocupação. Estava bastante angustiado por conta de alguns
compromissos financeiros a vencer. As perspectivas não eram as melhores e o martelar
de dúvidas não deixavam a sua cabeça em paz. Por isso a decisão de encher uns copos
para esvaziar a mente, amparada pelo discurso que deu origem a essa história e que o
escoltou até uma das mesas do Beco do Sardinha. O local já estava bem povoado e ele
teve algum trabalho para encontrar uma mesa anônima. Mal sentou, um dos garçons se
aproximou para anotar o pedido. Queria um chope apenas, nada para comer. Pensava em
passar ali um tempo sozinho, mas deveria jantar em casa com a família. A esposa nunca
perdoa a sua inapetência após um dia de trabalho. Ela julga uma desfeita às horas
passadas na cozinha apurando o tempero do lar. Portanto, apenas chope.
Enquanto aguardava a bebida, seus olhos vagaram sem rumo pelo beco. Via toda aquela
gente como coadjuvante da sua história. Não que ele fosse egoísta, já explicamos que
não é. Mas é inerente ao ser humano achar que a vida só acontece por sua causa. Por
isso ele pensou como reagiria alguma daquelas pessoas deparada com um problema igual
ao seu. Depois inverteu o foco. Questionou-se como estaria se sentindo, caso fosse
parte dos coadjuvantes e não o centro da questão. Talvez estivesse mais leve para
aproveitar a alegria do ambiente. Não, decerto não estaria ali agora, visto que não
precisaria aliviar a mente se nela não houvesse problemas. Certamente estaria a
caminho de casa, bem compactado em um ônibus lotado de gente. Seus braços não estariam
descansados naquele encosto de cadeira, mas erguidos ao alcance do estribo do
coletivo, onde as suas mãos bem agarradas disputariam apoio com dezenas de outras.
Essa confluência de imagens e pensamentos o levou a falar sozinho, como sempre, e o
som da sua voz o deixou envergonhado. Alguém teria ouvido? Não teve tempo de olhar as
mesas mais próximas, buscando algum olhar de deboche. O garçom já trazia o pedido,
depositando na mesa uma bolacha de papelão e sobre ela a tulipa de chope. Ele
agradeceu e se dispôs a beber. O primeiro gole é sempre mais largo e gostoso. Desce
fácil, refrescante, emprestando ao bebedor uma leve sensação de liberdade. Ele já
começava a provar essa propriedade da bebida, quando ouviu uma pergunta às suas costas:
- Afogando as mágoas, amigo?
Voltou-se e reconheceu um cliente da casa de câmbio. Um tipo falador, inteligente e
dado à observações obtusas. Já se conheciam há alguns anos e a situação exigia um
convite, mesmo que a companhia não estivesse em seus planos.
- Sente-se comigo, companheiro.
- Obrigado. O que faz no nosso Beco?
- Hoje eu precisava de uma bebida. A cabeça anda muito cheia.
- Problemas, problemas, problemas... Parece que eles sempre nos escolhem.
- É verdade. Mas e você como anda? E a vida?
- A vida vai na conta da merda, amigo. Da nossa merda de cada dia.
- Alguma coisa em especial?
- Já não sei se um problema é maior que o outro. Eles invadem a nossa vida, cruzam
como animais no cio e multiplicam suas crias. Acho mesmo que só o tempo...
- Eu entendo, o tempo... Às vezes me pego voltando nele e refazendo a minha
trajetória, buscando no caminho os erros que me deram essa vida de agora.
- Não adianta. Eles não estão lá. Atente-se sim, para a ação dos nossos dias. Os erros
estão aqui. A vida de hoje é a verdadeira megera indomada. Aquela que quer só pra ela
tudo que possamos oferecer, guardando a obrigação de retribuir nada. Nadinha. Porra
nenhuma mesmo! Por mais mísero, tosco ou escatológico que seja.
- Eu concordo, mas não há muito pessimismo aí?
- Não é pessimismo. É realidade. Essa vida é vampira, amigo. Suga o nosso sangue bom.
É na nossa brochura que ela encontra tesão. Nas nossas lágrimas que mata a sede. Em
nossos sonos perdidos que ela descansa. E assim vai nos embalando: nos ônibus lotados,
nas balas perdidas, nos medos calados, na puta que nos pariu.
- O segredo é evitar que isso nos roube a calma.
- Não tem como. Aliás, nem sei mais o que é isso.
- E o seu projeto de mudar pra Minas? Desistiu?
- Pensei muito e acabei desistindo sim. Pra que mudar? Na minha procissão de medos
intangíveis, eu fui esbarrando com algumas verdades e acabei percebendo que os dias
seriam iguais no Rio de Janeiro ou em Minas Gerais. Aqui ou lá, eu serei o mesmo.
- Os medos... Os de hoje eu estou afogando nesse copo.
- Eu sei, eu bebo também. Todos os dias agora. Fumo ainda mais. Aprendi a tragar, no
disfarce das cigarrilhas.
- Também dou minhas tragadas.
- Veja só: velhos já e com burrices de adolescentes. Não, desculpe, não são burrices.
- Não, você está certo, são burrices sim. A gente sabe que faz mal...
- Mas acalma um pouco, relaxa.
- É isso o que eu vim buscar aqui, um pouco de sossego.
- E eu te enchendo a cabeça com as minhas merdas.
- Que isso... E aquela menina, a sua namorada?
- Acabou, nem sei por onde anda.
- Você parecia entusiasmado.
- Não, a palavra certa é deslumbrado. Uma menina daquelas para um cara da minha idade
funciona como cocaína. Faz a gente se sentir um herói, mas totalmente fora da
realidade. Mata mais rápido. Faz a gente envelhecer mais depressa. Acentua nossas
rugas. Um dia você acorda com gosto de idiota, de burro, de babaca, sente-se
manipulado. Na conta final você perde mais do que ganha. Perde tempo, em troca de uns
momentos de sexo em carne fresca e lisa. Perde a vergonha. Quando cai em si e não quer
mais, fica com aquela pendência a tiracolo... Não, amigo, acredite: não vale a pena.
Nunca mais! Se for para acalmar o instinto, vou usar a minha mão. Ou as putas, as
célebres putas do meu Brasil. Essas Irmãs, mães e amantes caprichosas e desprendidas,
que sabem ouvir e mentir pra nos fazer feliz. Que são sinceras e fiéis à remuneração
do seu ofício, sem mais delongas. Viva as putas!
- Viva elas!
- Bom, já falei demais, preciso ir. Depois eu te procuro na loja, tenho umas Pesetas
para trocar. Cuide de não beber muito.
- Pode deixar, vá em paz.
Veja como são as coisas. O nosso personagem, que foi ali buscar um pouco de solidão,
mal teve tempo de terminar o primeiro chope e aparece alguém para deitar falação nos
seus ouvidos. Ele ouviu com atenção, mas não conseguiu entender bem o problema do
amigo, que falava de medos, mas que de fato parecia desapontado pelo namoro com uma
pessoa bem mais jovem. No entanto, cada vida é uma vida e as opções são sempre de cada
um.
Ele voltou sua atenção para o chope e para o ambiente à volta. Reparou numas meninas
vendendo doces. Viu como se aproximavam das mesas, mais sedutoras do que o esperado
para a idade. Tinham malícia nas roupas e nos gestos, mas as caixas de doces eram
seguras como bonecas, acolhidas em colo de mãe. Alguns daqueles homens aceitavam o
estímulo e ele até reconheceu nos seus olhares uma maldade que julgou doentia. Outros
ainda, arriscavam um afago mais abusado. Crueldade. Elas não tinham mais de doze anos.
Mesmo que travestidas de mulheres, eram crianças. Sentiu um aperto na garganta e teve
medo que elas se aproximassem da mesa onde estava. Pensou em ir embora, mas o garçom
já trazia uma nova tulipa de chope, substituindo a que terminava em sua mão. Ficou com
vergonha de recusar e acabou se deixando ficar. Viu quando a menina sentou no colo de
um homem e cochichou no seu ouvido. Viu depois ela se afastando até um ponto mais
remoto, enquanto ele acertava a conta e saía na sua direção. Viu ainda os dois sumindo
pelas vielas do beco. Viu, finalmente, como tudo andava errado. Nos conceitos sem
pudor, nos valores torcidos, na vergonha ausente. Foi inevitável pensar na sua filha,
que devia ter a mesma idade daquela criatura que acabou de desaparecer pelas ruas da
noite, pra alugar o seu corpo de brinquedo a um homem que poderia ser o seu avô. Não
conseguia entender. Não a menina, que certamente buscava a sua sobrevivência no centro
da desigualdade e do descaso humano. Mas o homem, que tinha a opção de recusar, de se
fazer desentendido ou até mesmo de ajudar comprando apenas o seu doce. Sentiu vontade
de levantar e ir atrás dos dois, para tentar impedir aquele crime. Talvez parar um
policial e contar o que presenciou. Mas seria bem provável que elas estivessem ali,
trabalhando para os policiais. Ou que eles permitissem essa abominação, para receber
de graça o que o homem foi pagar para ter. Sacudiu a cabeça para estancar os
pensamentos. Terminou o chope em dois longos goles e dessa vez ele mesmo pediu o
terceiro.
Um grupo de garotos invadiu o local oferecendo os seus serviços de engraxate. Na mesa
em frente a sua, um rapaz já envolvido nos vapores do álcool cometeu um erro ingênuo:
assentou o pé sobre a caixa de madeira e consentiu o serviço sem antes perguntar o
preço. O garoto se esmerou na graxa e apurou o brilho. Depois levantou e estendeu a
mão, fazendo a cobrança:
- São vinte Reais!
- Quanto?
- Vinte pratas!
- Tu tá maluco, moleque? Vinte pratas pra engraxar? Isso aí é ouro em pasta? Toma aí
três pilas e tá muito bom.
- Qual é tio? Vai zoar? Tu que sabe, tu que sabe...
- Tá me ameaçando pivete? Pega as três pilas e some daqui antes que eu te meta umas
porradas.
Ele assistiu ao bate-boca, sabendo que aquilo não iria terminar bem. Conhece bem os
códigos dessa armadilha e percebeu quando os demais garotos começaram a se juntar ao
redor da vítima. Era melhor sair dali. Levantou e foi na direção do bar, em busca de
um banheiro, ainda em tempo de ouvir o maior dos garotos tomando as dores da situação:
- Aí, paga o moleque pra não se arrepender, mano. Ele é pequeno mas não tá sozinho não.
- Vou pagar merda nenhuma e vai saindo de cima que o bicho vai pegar pra tu também.
Ele estava despejando sua urgência quando ouviu os gritos e o barulho de copos
quebrando e mesas sendo derrubadas. Prolongou sua estada no mictório até que tudo se
acalmasse.
Quando voltou a mesa o garçom trouxe o chope e puxou conversa:
- Pensei que o senhor tinha ido embora. Que sorte a minha. Quando rola esses barracos
por aqui, tem gente que aproveita pra sumir sem pagar a conta. Acaba sobrando pra
gente, que assume o prejuízo. Porque o senhor sabe como é, o português não quer
saber...
Ele sacudiu a cabeça, concordando com o garçom. Sabia bem como era essa relação entre
patrões e empregados. No início do ano teve que assumir uma diferença no caixa da casa
de câmbio. Não percebeu uns dólares falsos e acatou a troca. O patrão foi
compreensivo, mas não assimilou o prejuízo. Descontou a dívida durante seis meses,
abatendo do seu salário. Com o pouco que ganha, o desconto refletiu direto no
orçamento da família. Viu-se obrigado a atrasar o aluguel do apartamento durante esse
tempo. O gerente da administradora foi muito amigável. Ouviu o seu caso com atenção,
demonstrou uma benevolência quase santa e prometeu que daria um jeito. Uma semana
depois ele recebeu a ação de despejo. O jeito estava dado.
Voltou a procurar o patrão, que chorou miséria, evocando os tempos difíceis e os
negócios parados. Emprestar não podia, mas se ele quisesse vender as férias, dava-se
um jeito. Ele teve que aceitar a opção, mesmo sabendo que o dinheiro não seria o
suficiente, mas ajudaria a saldar parte dos aluguéis atrasados, adiando a ação de
despejo. Fez isso e conseguiu arrancar um novo prazo junto à administradora, para
quitar restante. Mas teve que assinar um termo de compromisso que o obrigava a manter
o aluguel vigente em dia. O novo prazo vencia dali a dois meses e ele não via sombra
do dinheiro. Vinha tentando alguns serviços extras, desde então, mas nada aconteceu.
Nenhuma porta se abriu. Ninguém com quem contar.
O leitor deve estar se perguntando, como uma pessoa endividada pode se dar ao luxo de
gastar dinheiro com chope. A pergunta é compreensível e até se justificaria, caso o
nosso personagem bebesse todos os dias. Aí sim, talvez a conta dos chopes acumulados
pudesse influenciar no cumprimento da obrigação pendente. Mas já dissemos que ele é
responsável e comedido. Foi ao álcool porque precisava dar um descanso ao corpo e à
mente, fustigados pelo momento difícil. E não pense que essa culpa não passou por sua
alma. Antes de ir ao beco, precisou convencer a si mesmo que a atitude era
necessária. Que o dinheiro a dispor não deixaria de suprir nenhuma necessidade da
esposa ou dos filhos. Questionou-se muito no banheiro da casa de câmbio, onde podia
falar sozinho à vontade. E, mesmo antes de sair, ligou para a esposa e dividiu a
dúvida. Ela entendeu e até incentivou esse momento de desapego material. Portanto, não
o julgue por isso.
O terceiro chope teve um efeito promissor e ele conseguiu se sentir bem mais à
vontade. Em pouco tempo não conseguia mais ater o pensamento a nenhum ponto fixo.
Ficou dispersivo, como queria. É como se o álcool tivesse se misturado ao seu sangue e
viajado pelo seu corpo até chegar ao cérebro, onde cumpriu a missão de desligar o
núcleo central das suas preocupações. Ele agora estava mais leve e precisava apenas
ficar atento ao relógio, para não se atrasar demais para o jantar. Conferiu as horas e
decidiu que aquele seria o último copo e pensou bebê-lo em sincronismo com o tempo
disponível. Um vendedor de amendoins depositou uma prova em sua mesa. Ele observou o
montinho de fruto torrado e salgado. Lembrou ter lido em algum lugar que o amendoim é
um fruto subterrâneo. Refez mentalmente o processo da colheita. Viu mãos calejadas
revolvendo a terra atrás do fruto. Imaginou outras mãos que os descascaram, que os
lavaram e os espalharam no processo de secagem. Focalizou um dos frutos do montinho.
Imaginou que naquele petisco havia a mão de muitas histórias de vida. Ele havia
percorrido um longo caminho até ser oferecido graciosamente em sua mesa. Merecia o
crédito do seu paladar. Estendeu os dedos e pegou aquele pequeno fruto, como prova de
reconhecimento à sua trajetória. Levou-o à boca e o mastigou com cerimônia, como se
estivesse buscando nos seus fragmentos, absorver todas as vidas que o teve nas mãos. O
gosto era bom, contrastava harmoniosamente com o chope. Empolgou-se, pegou outro e
mais outro, foi aos poucos desfazendo o montinho de amendoins, um a um. Esqueceu-se da
sua dentição falha não permitia aquela desenvoltura. Quase engole a sua ponte-fixa,
que se desprendeu e rolou pela língua, fazendo um barulho constrangedor ao contato com
os dentes verdadeiros. A prótese havia se soltado há alguns meses, mas a falta de
dinheiro o impediu de procurar um dentista. Conseguia mantê-la presa no lugar usando
uma cola para dentaduras, que precisava ser renovada antes de cada refeição. E agora?
Não podia simplesmente levar a mão à boca ali, em público. Pensou em voltar ao
banheiro e renovar a cola, mas precisaria lavar a prótese na pia e quando lembrou do
pouco asseio do local, desistiu. Era melhor fazer isso em casa. Mas o que faria até
chegar lá? Não tinha jeito de ficar com a peça solta na boca por tanto tempo. Resolveu
cuspi-la discretamente em um guardanapo de papel. Envolveu a prótese com mais
guardanapo e guardou-a na sua pasta de documentos, que sempre levava debaixo do braço
compondo sua imagem de trabalhador. Sentiu a boca vazia e um grande mal-estar pela
situação imprevista. Sabia que não poderia mais falar, pois o som sairia assobiando
por entre a falha e suas palavras ganhariam uma fonética carregada no xis e no esse.
Estava na hora de pedir a conta. Levantou o braço para chamar a atenção do garçom e
fez com as mãos o gesto de rabiscar. O garçom entendeu. A tulipa do terceiro chope
ainda estava pela metade e foi terminada de um gole só. Recebeu a nota, que estava
errada, cobrando um chope a mais. Ele sacudiu a cabeça para o garçom e tentou dizer
por gestos que só havia bebido três chopes. Não queria falar e ser motivo de piada.
- Não entendi, moço.
Ele repetiu os gestos, em vão. Teria que falar, não havia outro jeito, queria sair
dali e chegar logo em casa.
- Foram chó trequix chopisss.
O garçom esboçou um risinho irônico e riscou da nota a diferença. Ele pagou, pegou sua
pasta e saiu em direção ao ponto de ônibus. Separou o dinheiro da passagem no bolso da
camisa e quando já terminava de fechar o zíper da pasta, sentiu-a sendo puxada por
trás, ouvindo a voz da derrota:
- Perdeu, tio!
Voltou-se a tempo de ver um pivete correndo pelas vielas do beco levando a sua pasta.
Tentou correr atrás dele, mas não tinha fôlego nem equilíbrio para isso. Desistiu, na
pasta não havia mesmo nada de valor. Apenas um pouco de dinheiro e o jornal do dia. Os
documentos andavam sempre no bolso da calça justamente para evitar esses contratempos.
Tentou se acalmar, minimizando a perda, feliz por ter separado o dinheiro da passagem
a tempo. Pelo menos não ficaria a pé.
Ele já estava no coletivo, embalando uma madorna, quando foi despertado por uma mulher
que pedia passagem para sentar ao seu lado.
- O senhor me dá licença?
- Claro, xinhora.
Sua voz, em educada resposta, gelou o seu coração. Tinha esquecido do problema dos
dentes, da prótese que caiu e foi guardada na pasta. Na pasta que foi surrupiada pelo
pivete. Entrou em pânico. Não dava pra manter o equilíbrio naquela maré de má sorte.
- Ais meus Deux do chéu! Meux dentixis! Ishitou perdidos... Eu merecho, Cherá ques
echas fajes ruins nãos pachas nuncas... E agoras, meus Deux e agora...
O nosso personagem não conseguiu segurar o desespero, nem o choro. Jogava o corpo para
frente e para trás, com as mãos na cabeça e emitindo uma série de palavras desconexas,
repletas de sibilados. Foi a sua justificável catarse. Mas aquela conduta repentina
assustou a mulher que acabara de sentar no banco ao seu lado. Ela se benzeu, levantou
e saiu empurrando suas pernas, sem esperar pela licença dele. Queria sair de perto
daquele homem o mais rápido possível. Já tinha visto essas possessões antes e sabia
que era coisa do demo. Comentou com os outros passageiros, sem qualquer noção do que
falava:
- Sabe o que é isso? É macumba. Coisa do demônio. Tá amarrado pelo sangue de Jesus.
Só que nem ela, nem qualquer passageiro daquele ônibus, poderiam imaginar pelo que
estava passando o nosso personagem. Na verdade, nem tinham o menor interesse em saber.
Julgavam o que viam com os seus próprios conceitos e seriam capazes de morrer
afirmando que estavam certos. Ninguém queria compreender nem ajudar. Mas amigo leitor,
como culpar aqueles passageiros, conhecendo a vida que se leva nas cidades? Hoje em
dia é assim mesmo: cada um por si. Quem tem dente que roa a rapadura. Quem não tem...