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FEIRA-LIVRE É ONU...OU TENTAÇÃO?



					    
Feiras existem desde a Idade Média, países ainda “usando fraldas’ e já havia feiras internacionais – comércio de alimentos, espetáculos de dança, teatro, saltimbancos, jogos, tudo junto e misturado. No Rio de Janeiro, em 1904, o prefeito (reformador futurista) PEREIRA PASSOS estabeleceu as normas para as barracas coloridas e as áreas urbanísticas onde poderiam ficar. Um século depois, nem os supermercados – que reduziram sensivelmente, mas não eliminaram o comércio de rua – tiraram o gostinho da mulher carioca de passear na feira semanalmente... São 197 feiras-livres em todo o município, a maior parte delas funcionando nos fins de semana, 52% na zona norte, área urbana de contato mais intimista e amizade fácil. Legumes, verduras, frutas, peixes e frutos do mar – ou produtos de centros de abastecimento ou da região serrana: melhores e mais frescos, impossível. Prefeitura não mais autorizou, desde 2008, novas feiras, porém nenhuma foi extinta. ELA, em sua cidade grande, litorânea, sempre residiu perto de feiras de rua a céu aberto, com sol ou chuva. Ia com a mãe e na sacolinha de brinquedo (“cheia”, pesada!) trazia o máximo de três mini sardinhas, um siri ainda vivo, duas tangerinas de casca fina (ué, sumiram... ninguém planta mais?!), empadinhas ou pastel de queijo frito na hora, às vezes um ovo de pata (bater gema com açúcar e comer devagar com a colherinha); em setembro, sapoti; em dezembro, o máximo que pudesse carregar de cerejas bem maduras - imitava sotaque japonês: “celeja”... e cumprimentava o fruteiro português com reverência oriental. Abusadinha sem ser desrespeitosa. Nascera com uma cor branca espantosa e logo às primeiras horas a vizinha alemã se espantou, declarando-a ‘japonesa’ – depois, ao terceiro dia, o tom da pele já ‘melhorou’... (Em poucos anos, pai em aulas de geografia com mapa lhe mostrou a terra do Sol Nascente.) Para ELA, que cresceu ‘indo à feira’, a tagarelice informal com os barraqueiros sempre foi saudável... Homens geralmente senhores. Antônio das verduras era do Alentejo, Juan das batatas era das Astúrias, até Ivan dos licores e temperos secos era de Leningrado. Sabia o nome de todos, sabiam o dela, contavam-recontavam estórias familiares, trocava receitas e ensinamentos úteis com as mulheres. E a hora da xepa, finalzinho da feira matinal? Preços mais baixos para a freguesia em geral e pessoas mais carentes catando produtos desprezados nos caixotes de recolhimento, muita coisa ainda bastante aproveitável. Sentiu falta da feira. Supermercado? Todos indiferentes, era escolher as mercadorias (pegar ou largar), colocar no carrinho, dirigir-se à caixa registradora, moça nem sempre bem humorada para tagarelice improvisada e brincadeiras suaves. Morava ali há poucos meses, interior paulista (certeza desse tipo de comércio no Largo do Arouche, na capital), indagou e tirou uma quarta-feira, segundo dia de maior movimento, para ir sozinha... Começou pela rúcula, verdura ao gosto do povo italiano – comera alguns vezes na infância um tanto distante, pai trouxera de uma viagem. Depois, alface verde lisa e roxa crespa, o que lhe que lhe pareceu orégano fresco (sentiu cheiro, não perguntou) e hortelã (bom para as canjas do inverno). Estreou na hora a banca de Giácomo, uns 60 anos, jaleco branco sobre camisa tricolor da pátria, carrancudo, tentou conversar, pareceu um senhor de poucos assuntos. Trouxera excepcionalmente, explicou à nova freguesa, uvas escuras, mediterrâneas, dulcíssimas, ELA conhecia, moscatel – comprou um quilo. Circulou em outras bancas, peixe do japonês seria a última compra... Andou daqui e dali. Muitos legumes, frutas e (novidade!) embutidos super temperados. Esquecera salsa e voltou à banca do italiano. Bem pertinho do ouvido (esquerdo é o lado do coração), conhecida voz melodiosa de cançoneta: “Amor e coração são uma coisa / tal como diz o sábio em seu refrão. / E, assim, sem o outro um existir só ousa / como a alma racional sem a razão.” Esperto! Bela figura italianada. Explicou – fechara a banca de jornais mais cedo (aberta desde as seis horas “della matina”), um belo ravióli em casa do tio (tio?!) e a uma hora... faculdade de direito, a mesma que o marido dela cursava no horário da noite, após um dia inteiro na metalurgia sanguessuga. ELA fechou os olhos e mentalizou a imagem do prédio da ONU, vira num filme passado em Nova York. Abriu os olhos, mentalizou cerejeiras nos parques japoneses. Fechou os olhos, mentalizou uma toalha axadrezada em vermelho e branco, cheiro de macarrão e berinjela, um tiro certeiro atingindo a garrafa de vinho ‘rosso’. Assustou-se. Despediu-se. Foi para casa. Numa capa de revista que achara num banco de jardim, no idioma original, vagos trechos da DIVINA COMÉDIA e retrato (imaginário?) do casal DANTE & BEATRIZ, emoldurado com um risco vermelho de coração flechado. ELA não tem certeza se o diabo veste Prada... mas – grande tentação!!! - é melhor ignorar. NOTAS DO AUTOR: O DIABO VESTE PRADA – Filme americano de 2006. / PRADA – Marca italiana de moda, considerada um símbolo de luxo e status. / DIVINA COMÉDIA – Longo poema escrito por DANTE ALIGHIERI no século XIV, entre 1304 e 1321, dividido em 3 partes: Inferno, Purgatório e Paraíso, alegorias em relato atemporal; três personagens principais - o próprio Dante, que personifica o homem, Beatriz, a fé, e Virgílio, a razão. FONTE: “Mercado ao ar livre – Feira sobrevive a modismos” – Jornal O GLOBO, Rio, 12/7/14. F I M
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Comentários dos leitores

Eu "me" vi pequenina indo à feira com minha sacola e moedas... tiradas do cofrinho toda semana. Os meninos da rua disputavam ser marido na brincadeira se houvesse bolo da minha mãe, depois de varrerem nossa casa e arrumarem tudo. Parabéns!

Postado por lucia maria em 15-07-2014

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