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CADA DOIDA COM A SUA MANIA (OU MANINHA?)



					    
Quando se conhece alguém com mais de 50 anos e esta pessoa tem comportamento (delicadamente dito) “estranho”, fica muito difícil diagnosticar a patologia sem saber a origem da “maluquice”. Imaginem a filha nesta possível idade e a mãe numa diferença mínima de 25 anos. Minha AMIGA aturou, isto é, ‘não aturou’ – ambas ‘aturaram’ minha AMIGA que é pouco tolerante com golpes baixos de “in-civilização”. Mãe a todo momento dizia que esta filha era feia e escura, comparada à outra, bonita e clara, professora primária, casada, casal de filhos adultinhos... A ma-ni-nha que a filha de casa, pouco mais velha, tinha obrigação de a-do-rar......... O filho homem, também casado, era menos citado. Filha alegava ter ficado muito nervosa e desmaiou aos 13 anos quando o pai morreu: era ainda “uma bebezinha”. Versão de terceiras pessoas que, adulta, morou com um homem, a mãe não queria viver sozinha, arrumou enredos (?) e em um mês ela foi literalmente ‘devolvida’ – difícil de se entender... Anos depois, saía apenas para uma consulta médica de urgência e não podia mandar representante no caso de ter que assinar alguma coisa fora de casa – chorava dois dias antes. Moraram melodramaticamente ao lado da minha AMIGA, mesmo terreno, possível de se verem 30 horas (confundi com anúncio antigo de banco financeiro...) ao dia. “Loucura, loucura, loucura!” – tevê geralmente nos inspira. Mãe era mandona e palpiteira e tentava ensinar o que minha AMIGA estava farta de saber, os tais de “segredinhos do lar” que as mulheres aprendem desde cedo com avó, mãe, recortando jornal/revista... Gargalhou por minha AMIGA dizer que adoçava coalhada com açúcar – levou um fora brabo! A mulher odiava não ser obedecida. Como que hipnotizava a filha com um olhar... Esta, por sua vez, tinha a mãe como ídolo, embora maltratada e agredida verbalmente 30 horas (errei de novo?)... o tempo todo. Manias por vezes engraçadas. Para lá de octogenária e ainda megalomaníaca - ou criativa? Contava exageros (sou educado, EU não explicito vantagens mentirosas) – “residira” por muitos anos no mais famoso bairro do Rio, apartamento grande, sendo que às vezes de frente para o mar, alternando para uma praça arborizada. Tentou menosprezar minha AMIGA, se esta “já ouvira falar” em Ipanema... Tentou convencer minha AMIGA da existência concreta da folcloríssima, desde a Idade Média, sopa de pedra (a tal mulher nunca ouvira falar em Lazarillo de Tormes) – sem palavrões, ouviu pesada e enrodilhante resposta: Península Ibérica, Reconquista territorial, árabes-moçárabes-judeus-iberos, feudos, castelos de pedra......... Respeitar a outra pessoa desrespeitável só porque é mais velha? Recebia pensão por viuvez e aposentadoria, dizia-se íntima do gerente, indignada porque em certa greve bancária ele não aceitou “conversar”. Minha AMIGA esforçava-se para tolerar, dialogava assuntos comuns e a mulher a irritava, fingindo não compreender informações simples, como ter cruzado num shopping com determinado empresário de supermercados que conhecia através da televisão ou no aeroporto com um colunista de culinária, foto no jornal, de quem colecionava receitas-novidade: “Ah, seus amigos de infância?” Por acaso, em dois domingos, ele publicou a lenda e a tal sopa, real, nas versões portuguesa e suíça. Inventava ser bruxa, fazia ameaças ao redor – a interlocutora vizinha possuía livros sobre mitos, lendas e contos de fada, elaborou uma estória compriiiiida de (falsa) iniciação Wicca, citou celtas, Irlanda, Mar do Norte, totens, traje roxo, flor de lótus no cabelo, a outra se perdeu com a narrativa complicada (“Minha rival?!”), nunca mais ameaçou ninguém. Minha AMIGA pesquisou e descobriu na filha fortes traços de TOC, ligação com ansiedade e medo que algo abalasse a sua estrutura de vida. Comportamentos automáticos repetitivos (ou excêntricos?), não um simples capricho ou vontade de momento – se era consciente e sofria, não dá para saber: vestia-se apenas de branco (quase desmaiava na tentativa de uma peça em azul claro, transpirava, sentia horripilante enjôo, era obrigada a tirar); lavava e desinfetava as mãos infinitas vezes por dia; conferia constantemente – levantava-se na madrugada para isto – portas trancadas a chave e gás desligado; o quarto era exageradamente arrumado, lençol branco esticadíssimo, trocado a cada dois dias, e conferia os centímetros (ou milímetros?) entre um bibelô e outro – havia uma miniatura de bicicleta metálica, papelzinho com a data “31 (?) de abril” e um misterioso toco amassado de cigarro na cestinha; banho demoradíssimo (os superlativos do José Dias, personagem machadiano), cada parte do corpo seguindo “numeração”, sequência rigorosa... A mãe era cruel – ria e descrevia tudo para quem quisesse ouvir. Tinha pilhas de papéis antigos, página amarelada de jornal, turismo, locais sonhados para quando enriquecesse – fjords na Noruega, estrada férrea transiberiana, areais africanos, os pólos... não Torre Eiffel ou Coliseu ou Big Ben; guardava grande quantidade de sacos plásticos – alisados, esticados, amarrados; carregava um lenço para a necessidade de tocar em maçaneta: abrir porta ou gaveta. Agora, vejam, ‘sabia’ pedir emprestadas as revistinhas gratuitas de domingo, retinha semanas seguidas, minha AMIGA indo consultar o que lhe pertencia, isto até se enfezar feio um dia, pedir tudo de volta, não ceder nunca mais... Não sei se é cientificamente comprovado, apenas escutei versão popular – o portador de TOC se sentiria mal amado por pessoas e juntaria inutilidades que, colocadas num lugar qualquer, dali nunca sairiam por conta própria, numa fidelidade forçada, artificial: “Se não foi embora, é porque me ama!!!” Num almoço de 25 de dezembro, único em que minha AMIGA aceitou convite, filha e filho distantes compareceram às 14 e se retiraram às 16 horas, com o total de quatro filhos-netos-sobrinhos, mas sem os respectivos cônjuges, foram 17 pratos entre comidas e doces. A filha- irmã desprezadinha demorou a aparecer, gritou de longe que estava ocupada... assistindo pela televisão “torneio anual de críquete na Inglaterra”. O certo é que a mãe tornou-se desacreditada no lugar e a filha temida como louca. Subitamente mudaram de residência. Levaram todas as lâmpadas, portas e tampos de vaso sanitário. A casa tem dois quintais laterais, fechados, portões altos, impossível ver de fora. Minha AMIGA intrometida (curiosa!!!) se ofereceu para ajudar na faxina. De um lado, vasos quebrados, terra seca, plantas murchas não mais identificáveis, garrafas de vidro sem gargalo e gargalos sem garrafa (cores diferentes), bonecas sem cabeça ou braço, cabeça ou braço sem boneca (outros materiais e cores), cabos de panela sem panela, cargas vazias de esferográficas, latas com restos secos de tinta, caixinhas rasgadas de remédios, vidrinhos avulsos... por aí vai. No quintal maior, onde criavam galinhas, muitos sacos sem conteúdo (ração, milho), bicos e pés das aves ressecados, pendurados numa grade, indescritíveis objetos quebrados nos telhados de amianto... No mínimo, estes exemplos serviram para EU contar uma estória. --------------------------------------------------------------------- Por vezes, mesmo a quilômetros, escuto minha AMIGA cantarolar o eterno sucesso que DOLORES DURAN gravou há décadas: “Dentre as manias que eu tenho uma é gostar de você.” (Fui criado à moda antiga: Homem não chora!) NOTAS DO AUTOR: TOC - Cerca de 5% da população sofrem Transtorno Obsessivo Compulsivo, origem da doença na genética, em mecanismos bioquímicos (deficiência de serotonina, neurotransmissor ligado ao bem-estar) e aspectos ambientais (frieza familiar ou cobrança excessiva) – caso de psiquiatria. Manias atemporais, exageradas, patologias ritualísticas sem razão aparente nenhuma, ligadas ou não a situações de estresse, como desemprego, falências ou crise séria conjugal. CRÍQUETE – Esporte que utiliza bolas e tacos, inspirado num jogo rural medieval do sul da Inglaterra, o stoolball, adotado pela realeza no século XVII – muito popular entre os países britânicos e ex-colônias; semelhanças com o basebol. FONTE: “Ter manias pode ser doença” – Jornal EXTRA, Rio, 17/8/14. F I M
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Comentários dos leitores

Interessante estória com aspectos de realidade. Bem se diz que a carne é fraca (filha) e leão engole (mãe). Parabéns!

Postado por lucia maria em 13-09-2014

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