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ESTÓRIAS DE FEIJOADA



					    
Cultivado no México há cerca de 7.000 anos a.C., o FEIJÃO foi difundido pelo planeta por guerreiros e exploradores. No Brasil, há sítios arqueológicos com feijões de 2.000 anos - somos hoje o maior produtor mundial, englobando o Phaseolus vulgaris, que é o feijão comum, com muitas variedades, e o Vigna unguiculata, feijão-de-corda. Além do sabor gostoso, o feijão em geral tem benefícios nutricionais: fonte de carboidratos, proteínas, fibras, ferro e fósforo. Dupla ou ‘par perfeito’ somente na virada para o século XX - feijão e arroz. Antes, o arroz fazia dobradinha com o peixe das sextas-feiras, refeição distribuída aos pobres pelo Mosteiro de São Bento, no centro do Rio. Ouvi falar e apenas repito: 1 - A senhora nascera em 1889 e, crescidinha, ainda convivia na vizinhança, dependendo da idade, com filhos-netos-bisnetos de escravos. Era a comida festiva dos cortiços de trabalhadores pobres no centro do Rio de Janeiro (telenovela não inventa nada - transcreve a vida!), também das primeiras rodas de samba (maravilhosas “tias” negras cozinheiras - Praça XI e Estácio) e do povo em geral, desde que fossem brasileiríssimos. (No passado, estrangeiros se horrorizavam ante aquela fervente comida preta - hoje se extasiam, comem, sobrevivem, repetem, montam restaurantes...) Carro-chefe da cozinha nacional. E ‘obrigatória’ comilança democrática, isto é, coletiva, todo mundo junto e misturado sem preconceito, cada convidado em casa familiar mexendo e remexendo o caldeirão grande na escolha dos salgados - a ordem de comando é “Sirvam-se à vontade”. Duas versões: 1 - que a FEIJOADA nasceu na senzala - feijão e as partes menos nobres do boi, em todo caso admitida a inspiração (intertextualidade?) europeia do cassoulet francês e do cozido português; 2 - “Impossível!” - garante Almir Chaiban El-Kareh, historiador sério da UFF, e apresenta uma tese justa e lógica. “No Rio, os escravos teriam que ir à (extinta) praia de Santa Luzia, no centro, recolher as obras do matadouro e não há documentos que comprovem este costume, pois os senhores provinham a alimentação dos escravos e não iriam correr atrás desses restos”. A nós, importa mais o folclore da origem culinária, apenas sou radicalmente contra, como chamariz, moças recepcionistas fantasiadas de mucamas. Ora, uma mulher daquele século usava medicamentos antigos (tempo ainda em que barbeiros faziam sangrias com... sanguessugas) e nunca admitiria a hipótese de uma cirurgia, mas o ‘horror’ teve que acontecer... Já meados do século XX. Assim, perante Nossa Senhora da Salete na igreja católica de Catumbi (bairro que em 1984 alojou o Sambódromo), prometeu missa, como ato de fé e agradecimento, e uma feijoada festiva para almoço de familiares e amigos. Salvou-se. Era uma casa comprida e dava fundos para outra, esta bem pouco higienizada, muitos ratos e gatos num mesmo quintal. Reunião na casa da frente, mesa farta, muitos complementos ao feijão com salgados... mas alguém teria que comer lá nos fundos, tomando conta da cozinha. Havia na casa uma sobrinha-neta que detestava aglomeração com falatório exagerado de muitas bobagens e, antes de ser escalada, ofereceu-se para a função de ‘espantadora de bichos intrusos’... Levou a comida separada em dois pratos fundos (e se transbordasse no caminho, sujando o chão de madeira que ELA mesma encerava sozinha todo sábado?), feijão-salgados (caldo espesso, encorpado) & arroz-couve (picada fininha - por que dizem “à mineira”?)-farofa (solta, leve sabor de manteiga)-laranja (picadíssima). Aí, percebeu que não pegara rabinho de porco, um dos seus salgados prediletos, do trio orelha-pezinho-rabinho. Correu para a sala, não havia mais nas grandes terrinas de louça... A vizinha bem do lado esclareceu em deboche: “Só havia três, por sinal bem grandes - tirei para meu marido, minha filha e eu...” “Nunca lhe ensinaram a dividir, não? É bem como a senhora diz - jejum o tempo todo até chegar na casa da festa.” Claro que todos apoiaram e riram. Voltou ao fundo da casa; atraídos pelo cheiro, rato e gato já em cima do muro, lado a lado. Ficou imaginando: “Fome une até inimigos.” 2 - ELA cresceu, evidentemente; estudou, foi trabalhar... Num qualquer dia religioso de meio-expediente, algumas pessoas do escritório resolveram ir a um restaurante de melhor nível. Na época, sábado era dia de almoço-feijoada em quase todos os lugares. Kombi da própria empresa: 5 “eles”, 5 “elas”. Escolhe daqui e dali, se decidiram por uma churrascaria, sendo que neste dia da semana (de imediato, não dava para perceber) os clientes se dividiam entre fundos do salão, perto das churrasqueiras, e frente, comida vinha num carrinho. Acomodaram-se na frente, pediram um aperitivo (em copinhos-tentação, por baixo uma piada: “Fui roubado da Churrascaria Tal”, com endereço em letras miúdas, telefone idem), conversaram, riram... até que o garçom avisou que “país em crise política (?), some tudo (os ingredientes) e seria... feijoada paulista”. De imediato, ELA - versátil e bem relacionada a cerca de 10 anos com amiguinhos ao longo do país através do correio - entendeu que não havia muitas opções de compra, mesmo para um restaurante (pensou: “Vai paulista - melhor que nada!”) e aceitou em nome de todos. Pensou que, friozinho, tempo chuvoso, complicado irem para outro lugar. E mesmo, os exibidos contadores matemáticos e as “cultas” secretárias deviam saber do que se tratava. Paulista não é só café e macarrão. Veio a comida, prato e terrinas ou cumbucas individuais, muita fumaça pós- fogo. Feijão preto, sim, porém apenas 3 salgados: carne seca, lingüiça em rodelas e orelha. Explicação dela (tira lógica da ilogicidade, sempre): “Eu não tenho televisão, mas tenho os pés-na-terra, sei ler o mundo...” (Adivinhona porque de fato só muitos anos depois saberia na faculdade um tanto tardia o que o educador PAULO FREIRE chamava “leitura do mundo.”) Sem gracice geral, mas a de menor escolaridade /nem clássico nem científico/ era a mais filósofa. Acabaram rindo. Desde o primeiro dia aprendiam muita coisa com ELA, orgulhosa de estar concreta num imaginário topo de escada. “Amar-se é o primeiro passo.” Concordo plenamente. 3-A mulher, agora na terceira idade, mãe jovem morrera de parto, criara uma irmã um tanto fraca da cabeça, mas que dava conta da cozinha de casa. Trabalhava numa indústria de cigarros e levava marmita bem grande - as companheiras trocavam petiscos: fritada de ovos ou de peixe, quiabo frito com parmesão, torta salgada de pão com carne moída. Certo dia, duas especiais marmitonas com feijoada que a irmã doentinha (engraçado: sabia direitinho os 25 bichos do jogo feito às ocultas e juntava moedas para uma ‘fezinha’ de vez em quando...) embrulhara em jornal pois sabia do troca-troca de comidas. As amigas adoraram a partilha. Pelo sim pelo não, embora na quase certeza de não ter comprado os salgados, comeram felizes a saborosa feijoada, alguma carne escura, muitos ossos miúdos. Em casa, perguntou como a irmã adquirira os tais salgados. “Não comprei nada. Cozinhei na lenha, lá atrás, só o feijão, panela sem tampa... Caldo bem grosso como você gosta.” Leitor por certo já ouviu falar no banquete do casamento de Dona Baratinha. Horror tardio, não contou nada na fábrica, todas sobreviveram. 4-Não é anedotário. Décadas idas. Em Paris, nosso querido Vila (musicista Heitor Vila-Lôbos - grande seresteiro, chorão, compositor e maestro) convidou um grupo de amigos para uma feijoada. O grupo incluía dois pianistas internacionais famosos. Um ‘alguém’ francês viu o caldo preto borbulhando e exclamou com cara de nojo: “Mais, c’est de la m...” - não deu tempo de dizer a letra ‘e’ porque levou de imediato um ‘lindo’ e sonoro tabefe que em segundos o excluiu da feijoada e do rol dos amigos brasileiros. NOTA DO AUTOR: FEIJOADA pode fazer sucesso, sim, nos vários países africanos que falam português (são ex-colônias desde 1975), porém com nomenclaturas e receitas muito diferentes. F I M
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Comentários dos leitores

Sou carnívora e feijoada (sem ratos na panela) é meu segundo prato predileto, Certa vez listei 15 diferentes complementos para o feijão preto, entre salgados e defumados. Parabéns!

Postado por lucia maria em 27-01-2015

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