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ETA, FIGURINHA SINISTRA!



					    
O homem do Nordeste vivendo numa sociedade rural, com bases feudais... Área interiorana, sem indústria, longe da ‘urbs’, acentuada religiosidade: cultura de traços arcaicos, tempo-espaço impregnados de elementos sacros. Quanto ao tempo, um fato qualquer não aconteceu em março e sim na Quaresma, não em junho e sim nas fogueiras, nem a 31 de dezembro, mas no São Silvestre... Quanto ao espaço, há lugares que assinalam a manifestação do sagrado (“hierofanias”, termo de Mircea Eliade), continuando sempre a luta inicial das forças adversárias: ‘luz X trevas’, ‘ordem X caos’. Nesta pluralidade das hierofanias, fusão de reminiscências anímicas das vertentes negra e ameríndia, e a predominância européia, ou seja, branca-ibérica-cristã, nítido traço maniqueísta. Quase completa ausência das malévolas divindades dos índios e dos espíritos da selva africana, mas forte “presença” (?) do Diabo, chamado “o pai da mentira”. Para o povo, no plano da ocupação mental, Deus como senhor absoluto, santos são mediadores, em curioso sedentarismo; na ocupação física, predomina o Diabo, as nômades forças do mal sempre dinâmicas – pode ser o ‘chefão’ pessoalmente ou surge uma alma penada em busca de orações ou favores, aí ele vem junto para impedir... Essa energia é presença constante e afasta o cristão das virtudes da paciência e do amor, conduzindo-o à cólera e ao ódio, arrastando-o para o abismo da perdição. Este é um dos assuntos da criação regional artística, boa parte da literatura de cordel no ciclo da luta “bem X mal”, citação direta ou através de símbolos e metáforas. Maldade está no invejoso, no homicida, no traidor etc. Nestas propriedades ontológicas, ressurgem o Diabo medieval e a época de caça às ditas feiticeiras. Antropomorfo, com freqüência ele é dotado de apêndices (chifres) na cabeça e na espinha (rabo), pés de cabra ou pato, dentes agudos, olhos flamejantes, narinas expelindo fogo. Pudica, a literatura de cordel não cita as partes físicas ligadas à atividade erótica. Súcubos e íncubos ficam de fora nessa demologia... não citados diretamente, mas o Tentador às vezes seqüestra donzelas ou velhas bruxas perseguem homens jovens. O antropomorfismo é radicalmente substituído por uma cabra, pois o Demônio-bode presidia o sabá das feiticeiras, uma serpente ou integra- se na licantropia. Na figura de monstro, o Diabo assustaria de imediato, e assim ele “aparece” como homem normal, materializado negro – entretanto, não seria desprezo à cor da pele do africano escravizado e sim pela tradição européia de que etíope é filho da treva X branco, filho da luz. Este é um assunto inesgotável com muitas variantes, podendo haver até o homem logrando e derrotando o Diabo, em temas fáusticos, com intervenção divina ou sem ela. O poeta popular, apegado ou afastado da ortodoxia, toma o partido de Deus – mais próximo do cristianismo medieval. Em “A peleja de Manoel Riachão com o Diabo”, de JOSÉ BERNARDO DA SILVA, poeta popular, exemplifica-se nesta obra trovadoresca a fidelidade à tradição e à ortodoxia, sob a forma de um desafio, longa tradição européia desde os tempos homéricos – daí, o Diabo menos tentador, agora como o menestrel que penetrava nos castelos e atraía a atenção do auditório para seus dotes artísticos, o brilho do improviso e a narrativa fascinante dos seus feitos. Mesmo negro e de figura feia, ele proclama nobreza de linhagem, desembaraço e finura de modos (características medievais) ao violeiro nordestino. O Diabo, conquistador emérito das mulheres, tem lábia... e pelo traço medieval de diabolização aos judeus no período inquisitorial, a estes eram proibidas roupas elegantes. Assim, o Diabo vestindo andrajos não atraía eroticamente as mulheres cristãs. Cada verso da peleja mostra a influência da teologia dos missionários que reviveram no século XIX a campanha colonial da ‘salvação’, prédicas estas que inspiraram sertanejos como Antônio Conselheiro, citadas por EUCLIDES DA CUNHA em “Os sertões”, fonte apologética em Riachão. O Diabo, livre como o vento (estância 17 e seguintes), se opõe ao escravo foragido, mas a fala significa nele a resolução de não servir a Deus, anjo rebelde em liberdade absoluta para o bem ou para o mal. Na imaginação popular, homem de muito saber é automaticamente suspeito de ter parte com o Demônio, daí a desconfiança de Riachão com seu opositor, e passa a certeza quando o Diabo, vaidoso- onipresente-eterno, cita fatos da infância de Riachão, de seu pai e antepassados remotos. O Diabo não diz seu próprio nome, responde com uma tirada filosófica – “...eu venho de onde não vai pensamento como seu...” -, linguagem de mistério em que se dá a descoberto e passa à tentação direta, que utilizou ante Cristo por 40 dias no deserto, lembrando a miséria familiar, fala das desigualdades do mundo que seriam imperfeições no obra do Criador e oferece riquezas. Impossível Riachão contradizê-lo e dá uma resposta nada racional, apenas produto de uma fé consciente – “Não quero saber nada de ti porque tu és traidor (...) desobedeceste a Deus...” Contrapõe à oferta de riqueza: “Meu pai morreu na pobreza (...) e foi uma das ovelhas que deu mais glória ao pastor.” O Diabo se irrita e após um esconjuro se precipita de volta ao inferno: “...valha- me a Virgem Maria, a Mãe do Verbo Encarnado.” No decorrer da peleja, a palavra Deus não o molestou, mas a invocação à Maria é irresistível – logo desaparece, sob o cheiro característico de enxofre (símbolo alquímico da energia desencadeada) e pequeno terremoto abala os alicerces da casa, a força a serviço do caos. O Diabo passou a perder espaço, talvez em conseqüência da transformação social da região, evidência mostrada no folheto “A eleição do Diabo e a posse de Lampião no inferno”, de SEVERINO G. DE OLIVEIRA, entre anos 30 e 40, novamente o Diabo vencido e desta vez em seus próprios domínios, agora pela valentia do cangaceiro, que perde a eleição, mas arrebata pela força o governo do inferno. Diminuiu a intenção salvadora e linha conservadora (contra carnaval, danças, roupa curta, sexo fora dos padrões: tudo era fonte de perdição), embora em lento processo de sacralização, morrendo os velhos mitos e em tempos modernos dando lugar à realidade emergente de novos costumes sem censura. ------------------------------------------------------------------- FONTE: “O diabo na literatura de cordel” – Revista de Cultura VOZES, Petrópolis, ano 64, vol. XIV, n. 8, out./70. F I M
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Comentários dos leitores

Quem não se sente bem quando tentado pelo Diabo que às vezes promete (sem realizar) "mundos e fundos", como se diz? No mínimo, Diabo não casa................. Parabéns!

Postado por lucia maria em 15-02-2015

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