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AUTO DA COMPADECIDA-PARTE I



					    
1---Pesquisa sobre literatura do povo: grande parte da poesia popular nordestina preenche o ciclo da luta do Bem contra o Mal. A PEÇA - catolicismo caboclo mostrado em toda sua força de poética popular / simplicidade de diálogos, como se autor fosse semi letrado ou cenas em situações de improviso; linguagem corrente, opção popular do poeta ARIANO SUASSUNA / figura de folclore, JOÃO GRILO é personagem de diversos autos nordestinos: ele e suas proezas travessas; tradicional figura tem estas proezas cantadas sob a forma de ABC; neste auto, entretanto, é um dos personagens do grupo, embora se destacando, mas a história não gira apenas em torno dele / regionalismo brasileiro que se pode aplicar perfeitamente ao universal porque o homem é sempre o mesmo homem em qualquer parte do mundo / peça tem parentesco com: uma mistura teatral: teatro vicentino (julgamento de almas), teatro latino de Plauto (tipos populares em situação de comédia).peças da Idade Média (século XIV, série “Milagres de Nossa Senhora”), teatro espanhol religioso (século XVII, comédia religiosa com entremeses (entremeios) misturados entre si, do sério ao cômico, a cada momento), teatro grego (apresentação e cenário ausente) etc.; um pouco de ‘commedia dell’arte’ italiana, incluindo-se o clássico triângulo clássico: pierrô apaixonado que perdoa sempre (padeiro), mulher leviana-volúvel-namoradeira (a dele) e arlequim amante-galanteador (Chicó) --- em AUTO DA COMPADECIDA, a figura mais versátil e arlequinesca das proezas é JOÃO GRILO, já no próprio nome lembra o insetinho cinza ou preto (verde é gafanhoto ou “esperança”), magro, saltitante; em compensação, ele e CHICÓ funcionam juntos, são amicíssimos inseparáveis, e - como em muitas outras obras - um é o alter ego do outro, isto é, complementam-se / recriação desta espécie de montagem teatral pede ambientação e personagens do folclore nacional, tipos humanos bem brasileiros / linguagem desabrida e simples sem xingamentos, que não choca (não a linguagem mais aberta de PLAUTO e GIL VICENTE) / representação circense em moldes antigos: palhaço é o apresentador, o que anuncia o espetáculo, o que pede desculpas ao público etc. - o porta-voz do autor; desculpas pela rudeza do ambiente e simplicidade do ‘show’ na pretensão única de divertir as pessoas - mais ou menos como o corifeu grego que vinha comicamente vestido de pele de bode (expiatório?), improvisando o ditirambo que a seguir é respondido pelos demais personagens em coro - coincidência de traje é que diabo-bode presidia o sabá das feiticeiras e muitos sertanejos se vestem assim / no teatro popular, ao final, o autor agradece em cena e igualmente palhaço o faz em AUTO DA COMPADECIDA; circo é ambulante e havia também o teatro ambulante grego - o teatro latino derivou-se do religioso / sugestão do espírito cristão, visão cristã da vida sob a forma de fé simples e popular, autenticidade do povo, sentimento moralizante do ponto de vista religioso / chamamento de Nossa Senhora como expressão popular, três vezes: “Valha-me Nossa Senhora! Ah, minha Nossa Senhora! Ai meu Deus, ai minha Nossa Senhora!” - devoção especial à Maria, promessa: “fiz uma promessa a Nossa Senhora para dar todo o dinheiro a ela, se você escapasse! ... promessa desgraçada, ah, promessa sem jeito ... honorários de advogada” / irresistível a invocação de Maria, mãe de Jesus Cristo, advogada da humanidade nos céus: para o cristão, ela é sempre a “Compadecida”, a “mulher intrometida” para o Diabo machista, textos de diversos romances de LITERATURA DE CORDEL, vocábulos se repetem / chamamento, reza, inovação do tipo ‘palavra puxa palavra’, sem significação especial, inclusive serve de ‘berceuse’ (cantiga de ninar), autor conhecido ou não: “Valha-me Nossa Senhora! A vaca mansa dá leite, a braba quando quer” - “Valha-me Nossa Senhora” é o extremo da invocação simples e íntima / catolicismo no Nordeste brasileiro é a religião da maioria: rezas e pregações para obter graças e aplacar as fúrias da natureza, muitos santos (pequenos deuses), vidas e milagres cantados pelo povo, presença de missões religiosas católicas e não católicas, inclusive estrangeiras, romarias ao tumulo de “Padim Ciço” (como eles falam) etc. - cada qual possui seu particular santinho de devoção: (padre) “São João, meu padrinho” - padeiro também procura um santo em sua profissão (Santo Antônio, aquele dos pãezinhos distribuídos no seu dia?), que o livre do inferno devoção ao Padre Cícero Romão Batista: “gaita benzida por padre Cícero funciona como bentinho” - Cícero, cearense, sacerdote, pregador no sertão, milagreiro, canonizado pela aceitação popular, geralmente padrinho espiritual ou de batismo do sertanejo agreste, todo cangaceiro pede sua proteção contra a polícia local - muitas vezes afilhado nunca o viu: “conhecer Meu Padrinho? Nunca tive essa sorte” / crítica à falta de conhecimento da Bíblia como livro católico, faz-se até piada a respeito: “Evangelho de São Marcos, capítulo 13, versículo 12 ... conhecer a Bíblia! O Senhor é protestante? ... na minha terra, quando a gente vê uma pessoa boa e que entende de Bíblia, vai ver é protestante.” 2---Personagem EMANUEL (Deus, Cristo): Emanuel, forma aferética Manuel - “Manuel, o Leão de Judá, o Filho de Deus, julgador da humanidade ----- Desestruturação do preconceito racial do sertanejo contra o negro, MANUEL/CRISTO é apresentado “muito mais queimado ... a cor pode não ser das melhores, mas o senhor fala bem que faz gosto” / miscigenação no sertão nordestino é muitíssimo menor que no litoral daquela região; Diabo materializado, antropomorfo, quase sempre negro na literatura de cordel, pois segundo tradição européia o etíope é filho da treva e o branco é filho da luz: inversão por parte de ARIANO SUASSUNA em AUTO DA COMPADECIDA / Cristo negro - 2 níveis, fusão (sem confusão) de anti-preconceito racial + cor que normalmente seria a do diabo / literatura de cordel, texto apresentando Diabo negro: “A malassombreada peleja de Francisco Sales com o negro Visão” - ao final, o violeiro menestrel negro desaparece com tremendo grito e ao cheiro abafado de breu, açafrão carvão, enquanto se reza para a Virgem da Conceição / ARIANO SUASSUNA derruba o problema da pele - ao menos Cristo não vê a situação branco X negro, para ele é branco = negro; Manuel diz que para ele tanto faz ser branco ou negro, não importa a cor da pele e sim a igualdade entre os homens pois não “americano para ter preconceito de raça”, direta alusão a bases americanas no Nordeste durante a II GM, evangelização por parte de americanos, Política da Boa Vizinhança, Aliança para o Progresso etc. / Deus mostrado justo, sem a demagogia e protocolos da justiça terrena, sem as complicações do “Palácio da Justiça” - a “justiça” humana é diferente e a balança não apresenta qualquer equilíbrio / Manuel mostrado íntimo e simples em suas relações com a humanidade, compreendendo-lhes as falhas humanas, as tentações e os erros ainda que bastante graves: mesmo para os que “praticaram atos vergonhosos, é preciso levar em conta a pobre triste condição humana” / piadista e brincalhão: “É brincadeira minha ... o inferno, sim, é um lugar sério. Aqui pode-se brincar ... Anote aí negação ... Pois denuncie, Não está vendo que é brincadeira?” / Cristo sabe que o homem é social e sente o medo da solidão, também ele o sentiu em Getsêmani (Monte das Oliveiras) e o abandono na Cruz: “Pai, Pai, por que me abandonaste?” (até Deus abandona o Filho homem no solene momento da crucificação) / Cristo-judeu: no período inquisitorial, diabolização dos judeus; se em AUTO DA COMPADECIDA Cristo se apresentasse como judeu, haveria sempre uma conotação negativa - ele é Deus pode modificar à vontade sua própria forma física: livre arbítrio / entrada ao som de sino e música da aleluia, alegria, naturalmente, negro retinto, bondade simples e digna nos gestos e nos modos, cena ganha suavidade e iluminura / diz que seu Pai (Deus) o chama Emanuel ou Manuel como um simples homem, ele igual a qualquer elemento do povo / mostra grave pecado no Davi humano e o santifica pois Cristo perdoa sempre / Filho de Deus antropomorfo, homem na Terra: “Sou homem, judeu, nascido em Belém, criado em Nazaré, fui ajudante e carpinteiro ... É gente e ao mesmo tempo é Deus ... alguém que está perto de nós ... gente que é gente mesmo” / não o Deus teológico e metafísico, mas um Deus de proximidade corporal, o homem à sua imagem e semelhança: “Eu sou homem e sou Deus!” - Virgem Maria no mesmo caso: “sua mãe é gente como eu” / Deus não impõe, não exige respeito a si próprio, o sentimento deve ser espontâneo no cristão: “Esse respeito foi coisa que eu nunca soube impor, graças a Deus!” / Manuel é simples e diz “graças a Deus!”, enquanto João Grilo acha que ele deveria dizer “graças a mim!” / homem coloca Deus no alto de sua fé, distante: “A distância entre nós e o Senhor é muito grande”, mas homem aceita naturalmente a aproximação com a mãe de Cristo: “Sua mãe é gente como eu” / Cristo humano em sua primeira vinda à Terra também conheceu o medo: “noite no jardim ... medo porque teve de passar, pobre homem, feito de carne e de sangue, como qualquer outro e ... também, abandonado diante da morte e do sofrimento ... suou até sangue” - o abandono sucede a todos nós na hora do infortúnio / Deus compreende e desculpa o pecador: “Você não entende nada dos planos de Deus. Severino e o cangaceiro dele foram meros instrumentos de sua cólera. Enlouqueceram ... polícia matou a família deles e não eram responsáveis por seus atos” - explicação social para o fenômeno do cangaço / Deus ouve sua mãe, advogada do mundo: “Você o que é que acha, minha mãe?” / Diabo critica isto: “Não tem jeito não. Homem que mulher governa” / Deus onisciente: “Eu já sabia que você ia-se sair bem” - o homem nunca age sozinho: não há o logro de João Grilo, Deus já havia previsto e consentido na espécie de “vitória” de JG sobre Manuel / mistério do mundo, o homem sempre se interroga: “Ninguém sabe o dia e a hora em que o Juízo será, nem homem, nem os anjos que estão no céu, nem o Filho. Somente o Pai é que sabe ... um grande mistério ... Isso faz parte da minha vida íntima com meu Pai.” 3---Personagem ENCOURADO (Diabo): Acusador da humanidade ----- Teatro em geral, temas fáusticos, constância do logro do Diabo pelo homem: sua derrota, com intervenção divina ou sem ela - exemplo na literatura de cordel: “Peleja de Manoel Riachão com o Diabo, estemostrado comomenestrel e foge ao final da peça; poeta popular ou clássico toma sempre o partido de Deus / Encourado no AUTO DA COMPADECIDA acusado de ser “meio espírita” com a “mania de ser mágico” - visão simples do crer e amar a Cristo sob um aspecto agradável, doce e dócil, não a solenidade penosa de ritos difíceis, formais e complicados - culto ao Diabo (demonolatria), rituais complicadíssimos e extenuantes / Diabo nunca foi homem - Lúcifer, anjo rebelde, era também um dos anjos do Senhor, daí não entende o que o homem possui de mais terrível, o medo (da fome, do sofrimento, da morte, da solidão etc.) / o Demônio sempre viveu em bandos, sente o que é a força de um companheiro eterno, não precisa se responsabilizar sozinho por tudo, age em conjunto e se escora no outro (espécie outra vez de ego e alter ego) / AUTO DA COMPADECIDA: chefe Encourado, subalterno Demônio - crença no Nordeste, regionalismo: Encourado-Demônio, homem muito moreno, vestido de vaqueiro, toque regional na tradição religiosa - varia de forma física conforme região, crença, povo, costumes etc. / entrada em cena de modo grotesco porque pretende imitar a solenidade como este vaidoso imagina que Deus entraria, termina saindo um pastiche, uma caricatura; todos os demais personagens se deitam “humildemente” (não é este o caso), isto é, intimados por ele, apavorado por si próprios - aparência humana causa menos terror aos que estão sendo acusados pelos dois demônios, inda que saibam tratar-se de espíritos do mal / Demônio e Encourado entram em cena acompanhados de “um cheiro ruim danado” - acredita-se que o enxofre cerque os diabos no inferno e em suas andanças pela Terra - enxofre, símbolo mágico e alquímico da energia desencadeada; na Antiguidade, o químico era considerado meio-bruxo, meio mágico, pouco cientista / severo, o Demônio, em contraste com Manuel; solenidade de entrada do Encourado: “duas pancadas, fortes e secas, de tambor e uma de prato” / Encourado, desejo de equiparar-se a Deus Criador: “Um sonho como o que eu tive”; chefia ante o outro demônio: Eu posso me sentir assim. mas o senhor ... Você nunca passará de um imbecil” / um como alter ego do outro: “minha imagem refletida em você, uma imagem profundamente repugnante - Encourado se reconhece / valoração do Senhor das Trevas por parte do bispo: “Senhor Demônio, tenha compaixão” / jogo de palavras: “arrepio de danado”, ambigüidade de sentido da palavra - “Diabo dum barulho danado”, “Que diabo de tribunal” e “Diabo de uma reclamação”, três casos de esvaziamento semântico / Diabo tem muitos nomes, um deles é “pai da mentira” / Encourado teme Jesus e não lhe interessa a presença divina: “agitado, sempre de costas para Manuel / Encourado acha tolice a intenção santa de alguém: “missionário entre os índios ... para mim isso não passa de uma tolice” / não dá segunda oportunidade a ninguém: “dois cangaceiros ... Mataram mais de trinta ... Inferno nele(-s)” - ameaçador: “com o diabo não se brinca” - e todos tremem quando ele faz ameaças: “Começa a rir e todos começam a tremer” / poder mágico do demônio é desfeito por Manuel: “João Grilo ... tremendo ... já estava ficando cansado ... Esse sujeito é meio espírita e tem mania de fazer mágica ... confusão desse catimbozeiro” (catimbó, termo regional do Nordeste, feitiçaria ou espiritismo grosseiro) / Diabo é “como todo fariseu, muito apegado às formas exteriores - fariseu, membro de uma seita religiosa judaica que ostentava, hipocritamente, grande santidade - sentido popular, indivíduo hipócrita: “máscara dele ... fariseu consumado” / dupla crença sobre o Demônio: geração divina x partenogênese / AUTO DA COMPADECIDA, “sujeito ruim ... filho de chocadeira ... nunca teve mãe” / JOÂO GRILO diz que “diabo é muito negociante e com esse povo a gente pede o mais para impressionar”: ingenuidade do orgulhoso Encourado é acusada aqui / Encourado tem duas reações ante a força divina, negativando-se: dá grande grito e foge correndo para o inferno & rasteja-se no chão até que a Virgem lhe ponha o pé sobre a nuca: (conforme Gênesis, 3, 15) - em algumas imagens, ela pisa uma serpente, uma das formas medievais do Diabo. ----------------------------------------------------------- NOTAS DO AUTOR: AUTO - composição teatral do subgênero da literatura dramática, surgida na Idade Média - Espanha, século XII: ou comicidade ou religiosidade. F I M
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Comentários dos leitores

Leio no livro, leio aqui... e vejo a interpretação do seriado na telinha. Regional, divertido e instrutivo - aprende-se dispensando viajar. Parabéns!

Postado por lucia maria em 01-12-2016

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