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COERÊNCIA EM MOACYR SCLIAR



					    
Declaração do escritor: “Nunca nos livramos integralmente da condição judaica, estampada na carne: a marca da circuncisão. Somos diferentes. Nem melhores nem piores: diferentes.” Gaúcho-judeu-médico-escritor. Um ‘dóctor’, sucesso de público e de crítica, autor famoso de dezenas de produções, sonho acalentado por qualquer dominadora e ciumenta “iídiche mamale”... Estréia em 1962, 25 anos de idade, com um livro de contos, “Memórias de um médico em formação” --- no ano seguinte, a antologia de contos “Nove do Sul” e “Tempo de espera”, este em parceria com CARLOS STEIN, outro contista --- em 1968, “Carnaval dos animais”, coletânea de 26 estórias curtas --- salto nacional em 1972, com a novela “A guerra no Bom Fim”, aspectos particulares, sem deixar de ser universal, inspiração nos conflitos (eternos!) do judeu moderno --- em 1973, “O exército de um homem só” --- em 1975, a novela “Os deuses de Raquel”. Narrativas insólitas geralmente curtas e de poucas personagens , nem sempre identificadas por nomes ou detalhes que osindividualize. Um romance gostoso, sob a fantasia de ‘palestra para jovens médicos’ - “Introdução à prática amorosa”; ah, e muitos contos, que contos! Temática variada, com destaque para um delicioso realismo fantástico, ou seja, fatos impossíveis, surreais, sobrenaturais, no mínimo incomuns. Bibliografia premiadíssima e traduzida para várias línguas, sendo o único escritor brasileiro a trabalhar temas judaicos em livros, em particular unindo suas raízes a comentários sobre a nossa realidade, criando um mundo de gente miúda, no livro “Cenas da vida minúscula”. Anos 70, estouro e ampla difusão do gênero fantástico na América do Sul, também de remota vertente da literatura judaica européia.. (Medo do Golem solto nas ruas? Persiste ainda em 2017...) O sentido é a situação de ambivalência do herói repartido em íntima consolidação e renúncia aos valores que igualmente preza. Oscilação entre lealdade a certas raízes e degradação da ascensão das regras do jogo econômico e do desejo de ascensão social. 1-Tema da imigração. Transferência de europeus para o Rio Grande do Sul e a vida inicial em processo de paulatina adaptação, assim como conseqüências nos descendentes das famílias originais - “Ciclo das águas” e “Max e os felinos”, em 1981 - Ester enganada pelo noivo e introduzida na prostituição; Max foge do nazismo - em comum, a luta árdua de sobrevivência, enfrentando inimigos e preconceitos, em resultados divergentes, pois ela quer enriquecer e educar o filho Marcos, avilta-se como pessoa e se torna insana, e ele deseja o restabelecimento da justiça e arrisca a liberdade com sucesso. “A guerra no Bom Fim” (duplicação de Joel em Abu Shibah), “O exército de um homem só”, “Os deuses de Raquel”, “O ciclo das águas” e “O centauro no jardim” (sem prejudicar a COERÊNCIA das estórias, interpretar como sonhos ou alucinações? - acesso narrativo à interioridade das personagem sem as técnicas intimistas do romance psicológico) - segunda etapa da aculturação no solo brasileiro: filhos dos emigrantes, brasileiros como personagens centrais, ainda que educados e envolvidos com a tradição. Divisão interior pelas culturas antagônicas históricas e religiosas X novos valores burgueses; meio passado de que são fruto + meia integração ao presente que contradiz as raízes, como resultado é uma profunda instabilidade emocional......... mas não choque violento de gerações - apagar miséria da infância, origem humilde judaica, ter sucesso financeiro e profissional. // “Dr. Miragem” e “Os voluntários” - terceira etapa do processo de integração ao novo país: descendentes de imigrantes europeus, mas não judeus, já ruptura completa com o passado, maior liberdade no desenvolvimento ficcional, a mesma trajetória e ambição comum do enriquecer, ainda que sob corrupção, ou o recurso honesto à fantasia no fracasso existencial. 2-Tradição rio-grandense. Rio Grande do Sul, diferentes levas de imigrantes no importante papel na colonização, SCLIAR fez sua parte fiel a uma tradição regional, unido a muitos outros escritores. “Mês de cães danados” e “Cavalos e obeliscos” - grupo à parte no seu conjunto de obras, aborda outro aspecto da sociedade sulina, ou seja, o apego passado às tradições gauchescas, buscando desmitificar os emblemas regionais consagrados, agora em gaúchos frustrados, educados segundo um passado glorioso, homem do campo servindo de modelo do exercício da justiça e do desempenho aventureiro - na realidade, é o desencanto, a paralisia das personagens, depondo seus projetos, seja de heroísmo salvacionista seja de carreira literária. Humor chapliniano que dribla a dor através do sorriso válvula de escape. 3-Canto e violência da civilização contemporânea. “Mistérios de Porto Alegre” e algumas republicações em “O anão no televisor” - contos em que predomina a urbanidade, ambientação da realidade moderna e avanço tecnológico: progresso científico e desenvolvimento da sociedade = proporcional expansão e multiplicação da crueldade humana. Contraste entre civilização e as novas técnicas sofisticadas e alto poder de manipulação sobre o real (o mais moderno) e o primitivismo (o mais arcaico) do comportamento humano, personagens instintivos e brutais em domínio, soberania e carga destruidora, mutiladora e corrosiva sobre o outro, tido como rival. Ainda o fantástico, agora sem limites e atravessando as fronteiras do inverossímil. ALGUMAS ESTÓRIAS 1---“Os deuses de Raquel”: ela, poderosa figura feminina dentro da família ficcional, judia insubordinada que ama um ‘gói’ (não judeu) contra todas as pressões da comunidade israelita, casado, afogado ao tentar salvar a mulher. Francisco, louro e coxo, dá a ela grandes momentos de amor pleno de indagações e fantasias oníricas. Quando morre, ela o reencontra em sonhos, dois afogados vivendo entre os peixes, criando escama. Na solidão, erotismo atrapalhado de Raquel com o cão Rajá e o manequim da loja. Paráfrases bíblicas, como o vigilante e incansável ‘olho de Deus’ ou de Jeová, que ela conheceu com o nome de Miguel. O reencontro simbólico, Raquel & suas raízes, tranqüilidade e paz em Miguel-Jeová e ascensão ao templo - no Livro, dias de Raquel e os seus deuses. 2---Em 1983, “O centauro no jardim”, melhor expressão da temática da imigração, onde o herói é um centauro, entrecruzamento de duas culturas distintas que não pode se reduzir uma à outra, necessário eliminar a espontaneidade e a liberdade de sua original parte ‘centauro’ - estória: colonos judeus no interior do Rio Grande do Sul e a mãe dá a luz a um centauro - odisséia do ser mitológico à humanização. O pai resolve providenciar a circuncisão, vai de charrete à cidade em busca do mohel Rachmiel, sem revelar o segredo, e pede a circuncisão no mesmo dia, prazo pela lei judaica já esgotara; mãe adoentada não podia viajar. O mohel, homenzinho corcunda, pisca sem parar, e tem uma vaga desconfiança intuitiva. O pai lamenta não ter conseguido testemunhas, mohel não gostando do assunto, mas conhece o pai há tempos e está costumado com as esquisitices de gente do mato. Pega a bolsa com os instrumentos, o livro de rezas, o xale de oração e embarca na charrete. No caminho o pai prepara o terreno e diz que o menino nasceu com um defeito, procurando afetar despreocupação: não é caso de morte. Em casa, ao anoitecer, difícil o mohel trabalhar à luz de lampião - geme e pragueja. Reunião na sala de jantar. Mohel elogia as crianças já crescidinhas, coloca o xale de oração, pai tira o bebê do caixote e coloca sobre a mesa. “Meu Deus” geme o mohel, deixa cair a bolsa e corre para a porta; pai consegue segurá-lo. “Mas é um cavalo”, grita, em quem não tem obrigação de circuncisar. Pai berra não ser cavalo e sim um menino... judeu! Mãe e filhas choram baixinho. Mohel cambaleia, encosta-se trêmulo a uma parede, olhos fechados, pai traz a bolsa, mohel recusa, não costuma beber, ingere de um trago o copo de conhaque e manda pai pegar a lâmina ritual. Olha por cima dos óculos, teme um coice, pai afasta as patas traseiras do centaurinho e ali ficam, frente a frente, o pênis e o mohel, um proporcionalmente grande e o outro pequeno e fascinado. Experiência transcendente cuja lembrança será eterna! Cavalo ou não, há um prepúcio, ele empunha a lâmina e respira fundo... Perito, coisa feita em minutos, cai exausto na cadeira; pai acalma o berreiro e passeia com o “bebê” andando de um lado para outro. Bebê vai para o caixote e mãe sente-se mal. Mais conhaque, mohel em voz quase inaudível, outro para o pai, missão cumprida. Mohel não aceita dormir lá e o silêncio da volta é perturbador, cortado pelo madrugador canto dos galos. Mohel dispensa pagamento com resmungos. Segredo! Pai volta para a fazenda, a família e o pequeno filho Guedali. 3---Em 1988, “O tio que flutuava”, segundo livro dirigido especificamente ao público juvenil, temática universal, não necessariamente judaica: relevantes temas entrelaçados, como problemas da adolescência, relação marido-mulher-pais-filhos, relações humanas em geral e... o amor. Filho de 14 anos está ‘de mal’ com o pai a quem chama de quadrado, careta, viciado em lógica e realidade, e sem imaginação. Um certo dia, o tio, homem pacato-tímido-tristonho, dominado por esposa autoritária, se destaca do grupo familiar, levita e flutua no ar como balão de gás; fica grudado no teto, flutuando, um novo cosmonauta fora do espaço cósmico e sim dentro de casa mesmo... 4---Em 1991, “Cenas da vida minúscula”, tom poético de alegoria crítica à sociedade brasileira. Seu melhor romance? Obra madura e fascinante, romance inserido no contexto da literatura latino-americana, saga em que o tempo nada mais é do que figura retórica, sem fundamento real, e os personagens são símbolos da perplexidade comum a todos os países do sul do continente: 500 anos após Colombo, os mesmos ideais dos navegantes imaginativos, claramente desmentidos pela realidade. O rei bíblico Salomão, velho e doente, pede ao filho Habacuc, futuro criador e patriarca, que viaje pelo mundo e traga uma amazona para lhe recuperar a saúde e fazer viver - já tem mil e esposas e concubinas insatisfatórias na tarefa. O filho viaja pelo espaço e pelo tempo, com o desejo próprio de criar um homem do nada, como o próprio Deus, sempre chamado pelos judeus de o Criador. Obcecado pela tarefa, convive no tempo com magos, reis, aventureiros e belas mulheres, ate naufragar em tempo atual na Amazônia, onde conhece uma jovem que logo é engolida por uma planta carnívora - a partir de seus restos mortais, Habacuc cria um ser vivo. Minúsculo, apenas 10 centímetros, mas gera um povo que obedece ao “Livro das origens”, escrito por Pai Habacuc, e abomina os Impuros, dissidentes humúnculos que cultuam ídolos e tem comportamento amoral. Naum e Clara, casal paulista, faz viagem turística ao habitat dos homenzinhos e começa a aventura que entrelaça antigos mitos com o cotidiano do centro urbano: um comerciante à beira da falência, sua mulher burguesa de ideais limitados e Glória, uma amiga beneficiada por uma herança e o amor a um estranho baixinho. Acontecimentos rápidos em estilo folhetim novelesco. Narrativa sutil, ao final a interrogação se foi tudo verdade ou imaginação de quem contraiu malaia cerebral”. 5---Em 1993, “No caminho dos sonhos”, estória sobre o avô de Marcelo, contada pelo padrinho - aventuras do pai e do avô, quando jovens, para fazê-lo mudar de idéia sobre sair de casa, para não repetir vida quietinha e quadrada de antecessores. O avô fugira do nazismo alemão e das perseguições por ser judeu; em Lisboa, escapa num navio réplica da nau cabralina e vem para o Brasil - na verdade, um palco sobre as ondas, passageiros-atores representando personagens da história do Brasil. Pai viveu a juventude na década de 60, em São Paulo, estudante, na luta pelos ideais revolucionários da época. Nas estórias, críticas políticas e sociais bem-humoradas a fatos e personagens históricos e também o lado psicológico-emocional das relações pais-filhos e a busca dos jovens pela liberdade. 6---Em 1995, “Dicionário do viajante insólito”, de A a Z, vocabulário próprio das viagens, no humor sofisticado da tradição judaica, estudo antropológico do brasileiro sempre aos tropeços fora do hábito; pesadas malas de compras, um dos principais objetivos de qualquer viagem (implicações com o filme “O turista acidental”, com William Hurt, mas... à nossa moda brasuca). FONTES: Recortes de jornais não identificados --- “O centauro no jardim” - Revista SHALOM - SP, ano XVI, n.181, set./80 ---“A ficção de Moacyr Scliar”, de Regina Zilberman - BH, SLMG, ano XV, n.808, 27/3/82 F I M
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Comentários dos leitores

Si, origem é origem de que temos que nos orgulhar sempre. Parabéns!

Postado por lucia maria em 14-02-2017

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