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INCÊNDIO? ONDE? PIADA...



					    
Aquele emprego estava muito chato. Qualidade única ser no centro da cidade. Muitas mulheres juntas. Cada andar era um determinado setor de vendas. Quarto andar, te-ci-dos. Ela bem avisou: “Não sei fazer embrulhos moles...” - mas vaga somente nas seções de pacotes com papel. Caía tudo no chão. Apenas acertava ao embrulhar caixas de tecidos mais caros - cetins-brocados-rendas para vestido de noiva ou baile de formatura de escola normal e faculdade... Tempo ingênuo até para conclusão de marcenaria, datilografia, corte e costura ou manicure: missa, bolo, baileco no clube noturno. Muitas jovenzinhas, muitos rapazelhos imberbes, e a linguagem (ridícula!) era chamarem-se ‘senhor’, ‘senhora’... garotas de 14, 15 anos - nunca “você” ou pelo nome próprio. (DRUMMOND diria: “Eta loja besta, meu Deus.”) Quem disse que ela obedecia? Driblava, teoricamente discursava, omitia palavras que considerava imbecis. Penúltimo dia do ano, acabara a cansativa agitação natalina. Foi para o banheiro, cuspiu um mínimo da comida da marmita (purê de batatas, coxas de frango: delícia!) em várias direções, alegou molho muito gorduroso e simulou enjoo súbito; ela artisticamente passando assim “tão mal” que teve colega portadora para ir lá em cima, na gerência geral (chefão ‘quase’ idoso, um tanto sósia do Orson Welles e do charutão do Churchill, gesto casual do V da Vitória, em horas e situações tão inoportunas que não devia saber o significado: num lugar tão grande, nenhum diálogo possível porque só ela /tadinha!/ “conhecia” essa gente...) pegar papel de dispensa. Em casa, dormiu até o inicio da noite......... Ainda aguentou algum tempinho - quando enjoou de vez, pediu demissão. Demorou meses, descansou bastante (de quê?). agora emprego relativamente perto de casa. Ela tem sorte, a danada! Máquina de escrever propositalmente enferrujada para ninguém passar no teste (sem entender, tá?) para função mais elevada e serem encaminhados para locais de salários mais baixos. “Seguir este corredor até o fundo e apresentar-se ao chefe.” Corpo abrutalhado, cara amarrada, depois informaram ‘ex-policial’. Brincou - só a aceitaria se conhecesse alguém no enorme salão. Primeiro andar, “revisão”. Sim, colega-vizinho, todos sentavam em dupla, rapaz ensinou o serviço, códigos no ato de corrigir a caneta os textos linotipados, “oficina” era no térreo - três modelos de grossas listas telefônicas do Brasilzão todo: assinantes, endereços e classificados. Amor a letras, anúncios ilustrados ‘do-Oiapoque-ao-Chuí’ (abrangência nacional, diversidade cultural), correspondia-se desde garota com gente desconhecida de vários estados... - adorou! Foi instruída para trazer todo dia na bolsa - ainda não tempo de mochila - uma caneca com asa /copo de vidro, não!/ por causa da quentura (não havia armário para guardar) e colocar logo cedo na ponta da mesa de trabalho - um rapaz passava duas vezes ao dia com um carrinho e distribuía café adoçado... grátis... Bom ambiente, pessoas mais ‘sabidas’ que no mínimo conheciam indiretamente o Brasil. Certo dia, uma alongada campainha. Todas as pessoas se levantaram tranquilas, mulheres pegaram as bolsas e formaram uma fila. Deu uma de macaquinha de imitação e procedeu igual, ninguém falou, ninguém agitado, ela não perguntou nada, a fila andando para os fundos do salão, começaram a descer a escada. Mas ela nem chegara a tomar o café matinal - imperdoável desperdício! Voltou à mesa de trabalho, tomou o café agora morno. Logo, o pessoal da frente do corredor foi aparecendo, gente das máquinas de escrever, na maior suavidade. Ela retornou em passos rápidos e ficou sendo a última pessoa na fila dos revisores. Desceram a tal escada com muita naturalidade, sem que a moça entendesse coisa alguma. A gráfica era famosa e um diretor da companhia telefônica estava para vir de visita “um dia”, sem data específica. Iriam recepcioná-lo na calçada? A gráfica inteira? Muita gente......... Nisto, sirene do corpo de bombeiros. Soube depois: todos tinham sido treinados para saírem ordenadamente, sem pânico ou precipitação, atropelo, estas ansiedades, em caso de “sinistro” (não usavam a apavorante palavra “incêndio). Mini sinistro naquela manhã, caldeirão caído, chumbo derretido. Nunca se deixa derrotar, bancar burrinha jamais, fez um ar ‘blasé’ (sempre gostou desta palavra) e foi cética e indiferente para casa........ perto dali. F I M
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Comentários dos leitores

Estória real que há anos escuto em casa - você não, não viveu, descreveu igualzinho. Parabéns!

Postado por lucia maria em 01-07-2017

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